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Um relato de inabilidades, capacidades e prosperidades

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Nasceu republicana e amadureceu democrata. É um falcão moderado com certa inabilidade para gerir polémicas. Perdoou e resgatou o marido, de quem nunca quis ser apêndice e com quem prosperou. Eis como ela, que tenta suceder ao homem que a derrotou há sete anos, chegou até aqui.

Luís M. Faria (texto) Reuters (fotos)

Chegou ao fim a expectativa. Hillary Clinton anunciou que é candidata à presidência dos Estados Unidos. O anúncio, que tinha ele próprio sido amplamente anunciado nos dias anteriores, foi feito domingo, através de um vídeo. Agora Hillary iniciou um périplo que começa por a levar ao Iowa, onde em 2008 ela perdeu a eleição primária para um senador do Illinois, um tal Barack Obama. Desta vez não será apanhada desprevenida.

Se Hillary for eleita, fará História. As probabilidades de isso acontecer parecem elevadas, mas ela não dá o facto como garantido, até para evitar a repetição do que lhe aconteceu em 2008, quando também era a favorita no seu partido. Ao fim de oito anos de presidência democrata, é mais difícil eleger outro. E há uma quantidade enorme de pessoas, sobretudo republicanos mas não só, que detestam visceralmente a mulher que se manteve ao lado de Bill Clinton nos momentos mais negros da sua presidência.

Não que ela seja considerada - como outras esposas políticas - um mero apêndice do seu marido. De modo algum. Hillary é uma mulher brilhante que fez carreira por mérito próprio. O facto de ter associado a sua carreira à do marido a partir de um determinado momento não engana ninguém. O seu intelecto não é inferior ao dele e a parceria sempre foi de iguais. Se Hillary apoiou o marido durante décadas, passou a ser a vez de ele a apoiar. A óbvia sinceridade com que o faz diz muito sobre a verdadeira natureza da relação entre eles. Ambição à parte, os Clinton (ao casal, devemos acrescentar a filha Chelsea, que também vai estar na campanha) são realmente e para todos os efeitos "uma unidade", como se diz nos EUA. 

Em 2009

Em 2009

De depublicana a democrata Hillary Diane Rodham nasceu a 26 de outubro de 1947 em Chicago, no Illinois. O pai era um pequeno empresário têxtil, a mãe doméstica. Ambos eram metodistas, fé que Hillary manteria sempre ao longo da vida. A filha era a mais velha de três irmãos e os pais, embora fossem antiquados em muitas coisas, sempre quiseram que ela não ficasse atrás por ser mulher. Ela não os desiludiu. Estudante brilhante, quer no liceu quer na universidade, cedo começou a evidenciar-se.

A rota da proeminência, como para tantos americanos que depois vão parar à vida pública, começa com a presença no quadro de honra e discursos em ocasiões especiais na escola (graduações, etc). Do liceu ao Wellesley College, uma instituição universitária de elite, foi sempre esse o seu perfil. Quando chegou à faculdade de direito de Yale, Hillary já era falada entre os amigos como alguém que poderia um dia tornar-se a primeira mulher presidente dos Estados Unidos. Foi lá que conheceu um outro estudante, Bill Clinton, com quem começou a viver.

Politicamente, Hillary - na esteira dos seus pais - tinha começado por ser republicana. Quando John Kennedy venceu Richard Nixon em 1960, a fraude eleitoral no Illinois foi um elemento importante e os Rodham estavam bem conscientes disso. Ela ainda apoiaria o candidato republicano de 1964, o hiperconservador Barry Goldwater, mas depois gradualmente foi-se aproximando dos democratas. Quando foi estudar Direito já estava ligada a algumas causas, em especial a dos direitos das crianças, e vários dos artigos que então escreveu são sobre esse assunto.

Demais? Quando Bill se propôs em casamento, ela começou por recusar, pois queria ter uma carreira independente. Por fim, acabou por se deixar convencer e foi com ele para o Arkansas, renunciando à carreira jurídica que podia ter feito em Washington. Entretanto já tinham casado. Ela começou a trabalhar numa firma de advogados, ele foi eleito governador. Desde esse momento até há dois anos, Hillary nunca esteve fora de um cargo oficial ou semioficial (se incluirmos aqui o de primeira-dama).

No Arkansas, os Clinton prosperaram - até demais. A firma para onde Hillary trabalhava recebia excelentes contratos com o Estado e ela própria fazia investimentos com um retorno anormalmente favorável. Uma vez ganhou 100 mil dólares com um investimento de apenas mil. Mais tarde, esses assuntos seriam investigados no Congresso, sem que se chegasse a conclusões que permitissem uma incriminação formal. Mas os Clinton começaram a ganhar fama de estarem envolvidos em situações eticamente discutíveis.

Mais grave do que os negócios, politicamente falando, era a incapacidade de Bill resistir à tentação de aproveitar o seu lugar para ter sexo com uma variedade de mulheres, desde jovens 'groupies' a secretárias. Essas histórias, que muitas vezes contavam com a colaboração das tropas estaduais - os quais tratavam da logística e ficavam a ver se vinha alguém - perseguiriam Bill até 1990, quando ele decidiu candidatar-se à Casa Branca. Nessa altura surgiram à luz do dia.

As 'bimbo eruptions' (erupções de bimbos, como alguém lhes chamou) podiam ter sido fatais. Quem o safou foi Hillary, que apareceu ao seu lado num episódio do programa 60 Minutos em que ele se explicou ao povo americano. Sem negar ou confirmar explicitamente as histórias, Bill admitiu que tinha "causado dor no meu matrimónio". Hillary garantiu que a relação estava sólida e a campanha seguiu em frente, tendo Bill derrotado o candidato republicano, o então presidente George H. W. Bush.

Desde o início, os Clinton estiveram sob ataque. No seu discurso inaugural, ele disse que não havia nada de mau na América que não pudesse ser resolvido pelo que havia de bom na América, mas a sua presidência arrancou bastante mal e quase não recuperou. Primeiro houve a questão da discriminação antigay nas Forças Armadas, que Bill tinha prometido acabar mas não conseguiu, tal era a oposição pública. Seguiram-se situações embaraçosas com diversos membros do governo, que Bill despedia rapidamente - um erro clássico. Com o tempo, em larga medida graças ao bom estado da economia, a sua popularidade foi recuperando e ele acabou por ser reeleito em 1996. Mas os escândalos continuaram logo a seguir.

O maior de todos foi o chamado caso Lewinsky, que o mundo inteiro ficou a conhecer e sobre o qual não é necessário dar explicações (mas se quiser tê-las ou recordá-las, espreite AQUI). Digamos apenas que, embora o presidente tenha conseguido manter-se no cargo até ao fim sem ser demitido pelo Congresso, os seus dois últimos anos ficaram na prática inutilizados. Mais uma vez, o anjo salvador foi Hillary, que se manteve ao lado do marido e, à conta disso, subiu nas sondagens como nunca. Aproveitando isso, quando os Clinton deixaram a Casa Branca, ela candidatou-se ao senado por Nova Iorque e foi eleita.

Um falcão moderado... Enquanto senadora, Hillary tornou-se estimada pela maioria dos seus pares, chegando alguns republicanos a pedir desculpa por afirmações que antes tinham feito sobre. Disciplinada, trabalhadora e atenciosa, ela era a colega perfeita. Tinha outra característica útil: lealdade teimosa para com os subordinados. Ao contrário do que acontecia com o marido, boa parte do seu pessoal trabalha para ela há muitos anos.

Quando se candidatou à presidência em 2008 e foi ultrapassada inesperadamente por Obama nas primárias democratas, a derrota custou-lhe. Mas teve a sensatez de o apoiar na eleição e, quando ele foi eleito, tornou-se a sua secretária de Estado. Aí se manteve durante o primeiro mandato de Obama, fazendo um excelente lugar, apesar de uma ou outra polémica que os republicanos continuam a tentar inflacionar. Em especial, a relacionada com o ataque ao consulado americano em Benghazi, na Líbia, após a queda de Kadafi, onde morreu o embaixador.

Em geral, as posições de Clinton em matéria de política externa podem ser descritas como as de um falcão moderado (passe a contradição). Fortemente pró-Israel, defendeu o congelamento da construção nos colonatos. Apoiou a intervenção que depôs Kadafi na Líbia e, embora tenha tentado melhorar a relação com a Rússia, acha que o ocidente deve prevenir-se contra Putin.

Polémicas houve sempre, algumas relacionadas com os patrocinadores da Fundação Clinton, outras com a vasta fortuna que o casal acumulou em anos recentes. A última tem que ver com a utilização de um servidor privado para alojar os seus emails quando era secretária de Estado - facto que voltou a mostrar não apenas imprudência da sua parte, como uma certa inabilidade para responder a acusações e gerir polémicas.

É uma característica que se nota desde que tentou reformar o sistema de saúde no primeiro mandato do seu marido. Perante os ataques incessantes dos republicanos (que agora devem multiplicar-se, incluindo investigações no Congresso, entre outras coisas), ela não resistiu. Falhou, em boa parte - segundo mais tarde reconheceu - por inexperiência política. Já na altura tinha um papel muito importante, e muito criticado, de assessora política do marido. Antes das eleições de 1992, Bill dissera que os americanos, se o elegessem, iam receber "dois pelo preço de um".

Caso Hillary seja eleita presidente no próximo ano, as decisões serão mesmo dela. Embora certamente aconselhada por Bill, como ele sempre foi por ela.

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