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Um herói inesperado dos sobreviventes do Mediterrâneo

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A salvo. Migrantes resgatados do mar

A determinação de Fahran, um somali de 18 anos, ajudou a salvar centenas de pessoas que chegaram esta semana a Lampedusa, numa embarcação sem condições que tinha partido do porto de Tripoli, na Líbia. É uma história igual a tantas outras que se repetem, dia após dia, nas águas do Mediterrâneo. Faz este domingo uma semana que mais de 800 pessoas morreram naquele mar que virou cemitério.

Cristina Pombo (texto) Luís Barra (foto e vídeo), enviados a Lampedusa

Em Lampedusa, uma ilha italiana isolada no meio do Mediterrâneo, as histórias de milhares de imigrantes africanos que fogem da fome e da guerra passam de boca em boca e ninguém lhes fica indiferente. Todos as conhecem de cor, e muitos reagem com um misto de frustração e raiva à indiferença da Europa. "Este é um problema nosso, a Itália e os governos europeus não querem saber disto para nada. Sinceramente, não me sinto italiano", queixa-se Alberto, um homem nascido em Lampedusa que se sente mais africano do que europeu.

"Este é um problema nosso, a Itália e os governos europeus não querem saber disto para nada. Sinceramente, não me sinto italiano", queixa-se Alberto, um homem nascido em Lampedusa que se sente mais africano do que europeu. 

É precisamente de África, do outro lado do Mare Nostrum, o nome dado pelos romanos ao mar Mediterrâneo, que chegam quase diariamente homens, mulheres, crianças, recém-nascidos. Trazem sonhos e nenhuma bagagem. Enfrentaram as piores privações para chegar à velha Europa, que definha com a baixa de natalidade mas continua a cerrar fronteiras. 

 somali Fahran Ali, que celebra o seu 19º aniversário dentro de alguns dias, é um entre as centenas de imigrantes que chegaram esta semana a Lampedusa. O sorriso rasgado deste jovem muçulmano de corpo franzino encaixa na perfeição com o significado do seu nome. "Fahran significa alegre", explica, mantendo sempre a boa disposição. A sua coragem salvou todos os que seguiam a bordo do barco semirrígido, quando  estava ainda em águas territoriais tunisinas. Lembra-se que havia cidadãos da Eritreia e do Mali, e muitos somalis.

 

Quando estavam há já várias horas no mar, um homem ligou para o telemóvel de uma das pessoas que iam no barco. O número tinha um indicativo da Alemanha. Diz que não sabe como este homem conseguiu contactá-los, mas pediu-lhes que lhe dessem as coordenadas exatas do sítio onde se encontravam. 

"No mar não há nomes de ruas", brinca, e começa a repetir de memória alguns dos números da geolocalização que forneceu depois à polícia, com a ajuda do GPS do telemóvel.

"Falei com a polícia e disse-lhes que o barco não era estável, que se movia para cima e para baixo. As crianças choravam, as mulheres gritavam. Pediram-nos que não perdêssemos o controlo, que nos mantivéssemos unidos, porque iam enviar um navio para nos salvar", recorda o jovem. 

As pessoas começavam a ficar impacientes, muito assustadas, e Fahran procurava acalmá-las, tanto quanto era possível na situação dramática em que se encontravam. Porque estavam ainda longe de águas territoriais italianas, a polícia disse-lhe que demoraria mais umas três horas a chegar. Demasiado tempo para quem estava há tantas horas no mar, e muito arriscado, uma vez que o barco ameaçava ceder.

Aos que insistiam para que pedisse à polícia que fosse resgatá-los rapidamente, Fahran pedia calma. E mentia-lhes, dizendo que não tardaria mais do que 30 minutos. "Ninguém conseguiria aguentar se lhes dissesse que tinham de esperar mais três horas antes de serem resgatados. Teriam entrado em pânico."

Algum tempo depois, começaram a ouvir o som das pás de um helicóptero que se aproximava. A salvação chegou do céu. Começaram a acenar com as t-shirts enquanto gritavam: "estamos aqui, estamos aqui!". Trinta minutos mais tarde foram salvos por um navio da Guarda Costeira italiana.

Habitantes solidários Esta história dramática, e todas as outras relatadas por imigrantes em situação ilegal que chegam a Lampedusa, tocam de perto os que vivem na ilha. "Sentimos muitas vezes o horror desta tragédia. É cada vez mais insuportável este peso. O Mediterrâneo é a solução, não pode ser o problema", explica a presidente da Câmara de Lampedusa, Giuseppina Nicolina.

No seu gabinete, onde falou aos jornalistas, há uma estátua que homenageia aqueles que perderam a vida no Mediterrâneo. A autarca da ilha é muito crítica face à atuação da União Europeia. "Isto é a vergonha da Europa. Tem de se criar uma política solidária e de justiça que respeite os direitos humanos, e não podemos permitir uma política que só vela pelos direitos dos próprios europeus", afirma, indignada.

 

O Mediterrâneo é um cemitério de dimensões inimagináveis. Pelo menos 21 mil imigrantes de diferentes nacionalidades perderam a vida nestas águas nos últimos anos, e serão seguramente mais, porque há naufrágios que nunca chegam a ser conhecidos. Os habitantes de Lampedusa são os primeiros a socorrer quem arrisca tudo para chegar ao continente europeu, um fenómeno antigo que se intensificou nos últimos anos. É a experiência da dor que faz deles um povo especial.