Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Tunísia. A segurança três anos depois da primavera árabe

  • 333

TOZEUR Tal qual este oásis do Sara também a Tunísia representa a esperança no mundo árabe

Mais de três anos depois da primavera árabe, a Tunísia é uma gota de água na aridez democrática do Norte de África. Tem uma nova Constituição, inspirada na transição portuguesa do pós-25 de Abril, aguarda eleições e vê renascer o turismo. Hoje sofreu um brutal atentado. Estará o paraíso das massas preparado para a democracia? [O Expresso republica hoje a reportagem de Paula Cosme Pinto (texto) e Tiago Miranda (fotografia), enviados à Tunísia, publicada a 28 de junho de 2014.]

De cada vez que grita as veias ficam-lhe vincadas no pescoço. A doçura do seu batom cor de rosa contrasta com a irreverência do piercing no nariz e com a determinação com que encabeça as centenas de pessoas que se manifestam em Tunis, a capital da Tunísia. De altifalante em riste, a ativista Lina Ben Mheni, que chegou a ser nomeada para o Nobel da Paz, dá voz à indignação contida no seu corpo franzino: "Os mártires não morreram em vão!" A frase é repetida vezes sem conta nesta tarde de maio, no ponto alto da greve de fome das famílias dos tunisinos que foram mortos na Revolução de Jasmim.

"Há duas semanas foi finalmente anunciado o veredicto final e qual foi o resultado? Libertaram os oficiais que deram ordens para torturar e matar aquelas mais de 300 pessoas pessoas que apenas lutavam por uma vida mais digna. Que justiça é esta? É a isto que chamam democracia?", questiona.

CONTESTAÇÃO Lina Ben Mheni manifesta-se nas ruas

CONTESTAÇÃO Lina Ben Mheni manifesta-se nas ruas

Três anos depois da revolução, a Tunísia é dirigida por um governo tecnocrata, mas acaba de marcar eleições para outubro, desta vez com partidos políticos mais maduros na corrida. Depois de dois assassínios políticos em 2013, tem uma nova Constituição desde janeiro - que se inspirou na transição democrática portuguesa - e é apontada como o farol da mudança da primavera árabe. Mas continua a ser um país de contrastes, onde a liberdade e a alegria recém-adquiridas parecem misturar-se com a inquietação de uma nação à beira de um ataque de nervos.

O turismo caiu a pique a só agora está a recuperar, a taxa de desemprego mantém-se acima dos 15% e no caso dos jovens ultrapassa os 30%. O povo - o mesmo que depois da imolação desesperada de um jovem vendedor de frutas em protesto contra a instabilidade no país catalisou o movimentou da primavera árabe - divide-se: há quem acredite que a estabilidade voltará ao país depois das eleições, mas também quem já diga que tem saudades dos tempos da ditadura. Numa coisa estão de acordo: comparados com os países vizinhos, a transição pós-revolução correu de forma promissora, mas a crise social e económica que o país atravessa não pode durar muito mais.

UM PAÍS DE CONTRASTES

Pobreza do interior do país

Pobreza do interior do país

Enquanto a Tunísia dá os primeiros passos no caminho da democracia, os contrastes saltam à vista. Ao mesmo tempo que a polícia reforça o patrulhamento das estradas, de metralhadora ao peito, para manter a ordem local e impedir desacatos com visitantes dos países vizinhos, no interior da Tunísia o contrabando de gasolina vinda da Líbia é feito à beira da estrada, e a Al-Qaeda continua a reivindicar ataques como a recente tentativa de homicídio do ministro do Interior.

Nas metrópoles as mulheres usam calças de ganga, óculos de sol e cabelo solto, mas nas aldeias são raras as que saem de casa sem o véu porque o peso da família e da religião fala mais alto. E enquanto na zona costeira os turistas europeus voltam lentamente aos resorts, em Tunis o arame farpado continua a tentar impedir que a Avenida Bourguiba seja palco de manifestações inflamadas como as que Lina Ben Mheni apoia.

Filha de um elemento da Amnistia Internacional na Tunísia, ex--prisioneiro do regime, Lina cresceu "num ambientes onde se via mais notícias do que telenovelas".

Em 2007, com 24 anos, começou o blogue "A Tunisian Girl", onde se dedicava a denunciar violações dos direitos dos tunisinos ora em texto ora em fotografia, quando a imprensa ainda não conseguia fazê-lo. Correu a Tunísia com a sua máquina fotográfica e publicou imagens chocantes, como as de mártires ensanguentados, jornalistas espancados ou a de uma lapidação durante a revolução. Hoje está nas listas da morte de células terroristas e vive 24 horas por dia com escolta policial. "No tempo de Ben Ali [o ditador deposto em 2011] eram as forças de segurança que me ameaçavam, agora não sei quem me quer matar. Até de partidos políticos já recebi ameaças, mas não vou desistir". Muitas vezes apontada como inconveniente, Lina mete o dedo na ferida.

"As pessoas estão contentes porque vamos ter eleições, mas não consigo estar otimista com esta suposta democracia. Viajo pelo país e encontro muita gente que ainda nem eletricidade tem em casa. Não fazem ideia sequer de que houve uma revolução, nem de que vamos ter eleições. Quando chegar a altura é muito fácil oferecer-lhes comida a troco de votos, como Ben Ali fazia no Ramadão a distribuir carneiros para silenciar o povo". Lina salienta o "cenário negro" da economia e garante que os direitos humanos continuam a ser violados. Dados das Nações Unidas divulgados no início deste mês vão ao encontro das certezas da ativista, ao revelarem que "a tortura e as formas nefastas de tratamento continuam a existir na Tunísia", embora "o espírito de reforma do país esteja vivo". Nas mesmas declarações, a ONU frisa que "ter uma forte vontade política e dar ordens para que atos de tortura não sejam praticados não é suficiente para terminar com o ciclo de impunidade". E é para combater essa impunidade que Lina dá voz aos mais fracos, mesmo que isso lhe possa custar a vida.

"Não vou parar porque as coisas não mudaram assim tanto desde a revolução. É verdade que gozámos de uma enorme sensação de liberdade após a partida de Ben Ali, mas já não é o caso. Há pessoas que continuam a desaparecer ou a serem condenadas a prisão por manifestarem as suas opiniões".

 

DEPOIS DA REVOLUÇÃO, A LIBERDADE E O DESESPERO

Mais a sul, em Sfax, o rapper El General sabe bem explicar o que é estar dentro das quatro paredes da uma esquadra apenas por ter dito o que lhe ia na alma. Com 19 anos foi o autor do hino da primavera árabe, a canção "Rais Lebled", e é hoje uma estrela do rap. Mas dias antes da queda do ditador, a quem dedicou um poema provocativo, foi detido pela polícia para ser interrogado.

Valeu-lhe a atenção dos media internacionais e dos fãs, que tornaram pública a situação e evitaram que fosse alvo de um interrogatório violento. "Uma música não muda um país, mas ao menos a mensagem passou, as pessoas reviram-se e começaram a pensar. Era tudo o que eu queria". Três anos depois tem a oportunidade de viajar pelo mundo e dar concertos - sempre em árabe - em cidades como Estocolmo, Paris e Nova Iorque. Mas sabe que é um privilegiado. "O país está envolto em nevoeiro", diz em tom poético, enquanto dá uma passa no cigarro. "Não é clara a situação atual, nem o rumo que estamos a levar. Até agora os partidos políticos que surgem têm interesses monetários, a corrupção continua e não há oportunidades para os jovens. A minha geração está a desesperar".

CONTESTAÇÃO O rapper El General fá-lo através da música

CONTESTAÇÃO O rapper El General fá-lo através da música

No interior, em pleno deserto do Sara, Ahmed Fardi é um dos inúmeros rostos jovens anónimos que vivem esse desespero. Tem 32 anos e nasceu em Chebika, perto do oásis de Tozeur. Os pais amealharam o dinheiro de uma vida para o enviarem para Sousse, onde estudou economia. Tem formação universitária, fala três línguas, mas não consegue arranjar emprego.

"É triste mas já desisti. Agora que os turistas estão de volta consigo fazer bom dinheiro por aqui". Naquela aldeia berbere, onde foram gravados filmes como "O Paciente Inglês" ou "Maria de Nazaré", Ahmed passa os dias a guiar os turistas que querem descobrir as maravilhas escondidas da Tunísia. O jovem diz que a afluência de gente "ainda não se compara ao que era dantes", mas garante que o sector tem tudo para florescer. "Projetou-se que a Tunísia não é um país seguro, mas finalmente os turistas começaram a perceber que já não há nada a recear. O turismo nunca morreu e agora está a normalizar-se".

Dados oficiais do Ministério do Turismo tunisino revelam que a tendência é essa: principalmente os europeus estão a voltar em busca de uns dias no paraíso, que tanto tem de praias como de património histórico. Só no ano passado, mais de seis milhões de turistas visitaram o país, um número ainda assim abaixo da média de sete milhões e meio de visitantes antes da revolução. Em 2011, esse número baixou para metade, uma queda catastrófica para a economia tunisina uma vez que o turismo representa 7% do PIB e que 20% da população vive deste sector.

Lina alerta para o "cenário negro" da economia e garante que os direitos humanos continuam a ser violados

Lina alerta para o "cenário negro" da economia e garante que os direitos humanos continuam a ser violados

Desde El DJem - anfiteatro romano onde se filmaram cenas de "O Gladiador" - às ruínas de Cartago, centenas de visitantes deslocam-se diariamente nas estradas tunisinas em excursões organizadas. Só este ano já mais de dois milhões de pessoas chegaram ao país, onde em março foi finalmente levantado o estado de emergência. Mas mesmo assim, viajar sozinho de carro pelo país não é totalmente seguro e exige paciência para lidar com o controlo policial, por vezes duvidoso. Mas é precisamente junto ao mar, ora nas famosas estâncias de Hammamet e Sousse ora na mais seleta ilha de Djerba, que muitos encontram o paraíso com a pulseirinha do "tudo incluído". Entre passeios a cavalo na praia e cocktails servidos na piscina, são principalmente as famílias e os reformados que optam por um ambiente protegido.

Gasolina contra-bandeada da Líbia vendida à beira da estrada

Gasolina contra-bandeada da Líbia vendida à beira da estrada

Nos átrios dos hotéis, famílias e casais aproveitam o wi-fi grátis e ali ficam agarradas aos tablets. E nas cidades que envolvem estas estâncias o ambiente é de feira popular, com parques de diversões, bares onde o álcool é mais do que muito e onde o tema revolução parece uma longínqua miragem. É a Tunísia dos postais e dos pacotes de férias low-cost, que continuam a servir o seu propósito.

A opulência das estâncias balneares

A opulência das estâncias balneares

De volta à realidade das massas, no bairro de La Marsa - onde vive uma boa parte da classe média-alta de Tunis e dos emigrantes ocidentais - os centros comerciais e os supermercados continuam a ter detetor de metais na entrada.

Artur Cima já se habituou a esta nova realidade do país, para onde emigrou há sete anos. "Experimentei a Tunísia antes, durante e depois da revolução. Mas continuo a achar que é um país funcional nos serviços públicos, cheio de simpatia. O grau de segurança que senti quando cheguei era tão grande que dormia muitas vezes de porta aberta", conta o emigrante português, de 38 anos, que teve a sua primeira filha depois da revolução. "Continua a ser um país para famílias", garante.

Segundo dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Artur é um dos 184 portugueses inscritos no país, um número mais elevado do que antes de 2011. A Embaixada de Portugal em Tunis salienta a forte cooperação sectorial entre os dois países, com destaque para as áreas da defesa, cultura e empresas, principalmente em atividades relacionadas com grupos cimenteiros e com a indústria têxtil. Funcionário do Banco Africano para o Desenvolvimento e professor universitário em Tunis, Artur Cima tem observado de perto o período de transição tunisina. "O dia da revolução foi um dia normal, só me apercebi de que algo estava a acontecer quando a caminho de casa vi fumo e agitação", lembra ao passar de carro ao lado da casa de um familiar de Ben Ali, que vivia a poucos metros da habitação do português. "Aquela casa era um símbolo da ostentação do regime.

A família do ditador concentrava o poder económico e político e mal as pessoas se aperceberam deque havia uma revolução a primeira coisa que quiseram foi vingar-se daqueles anos de opressão. Quando aqui passei havia dezenas de pessoas tipo formiguinhas, de cigarro ao canto da boca, a pilhar tudo o que podiam, desde sofás a equipamento de cozinha. Até uma empilhadora a levar um Porsche eu vi". Totalmente saqueada e grafitada, a casa destoa agora no meio de um bairro de vivendas aprumadas. "Nenhuma outra casa foi pilhada, o que revela muito do espírito tunisino. Hoje é um símbolo da revolução e ninguém se atreve a recuperá-la".

 

PRESSÃO ISLÂMICA REGRESSA

Artur recorda também os primeiros anos após a revolução, quando a liberdade reprimida se soltou.

"Por um lado passaram a falar abertamente da insatisfação. Antes os telefones eram controlados e bastava fazer um comentário antirregime num café para se ter problemas. Hoje toda a gente discute política", conta Artur. "Por outro lado, há cada vez mais homens com barba salafista e muita pressão para as mulheres usarem véu. Questionei colegas que começaram a aparecer tapadas dos pés à cabeça e a resposta era sempre: o meu pai e o meu irmão agora só me deixam sair assim".

Embora a Constituição assinada em janeiro preserve a igualdade das mulheres, os crimes de honra - como recentemente o de um pai que queimou a filha até à morte nos subúrbios de Tunis, porque a adolescente caminhou da escola para casa com um colega rapaz - chocam a opinião pública, que agora ouve falar deles através dos media. Ghazi Gherairi, conceituado professor de Ciências Políticas e secretário-geral da Academia Internacional de Direito Constitucional de Tunis defende que tais atos não podem ser generalizados como realidade do país e mostra-se otimista: "Não é apenas importante o que se escreve numa Constituição, mas também como a sociedade a vê, sente e consegue pôr em prática. Esta é a Constituição mais democrática que algum dia tivemos, mas a situação política e social ainda não é compatível com as regras da democracia", admite.

"Vamos precisar de alguns anos para o conseguir, mas não duvido de que somos o país árabe com mais condições para lá chegar. Temos uma sociedade civil muito forte, com mulheres participativas e isso distingue-nos".

Artur Cima mostra a casa que se transformou num símbolo da revolução

Artur Cima mostra a casa que se transformou num símbolo da revolução

As eleições marcadas para outubro e novembro poderão ser um passo fundamental para a estabilidade do país, cujos principais problemas económicos já vinham do período da ditadura. "Temos de organizar eleições honestas. Três anos depois já há figuras fortes e partidos de peso que podem ajudar a construir um país democrático", garante. Para o futuro, Ghazi considera que é preciso não só "higienizar a vida política", como também as áreas empresariais. "O sector privado está habituado há muitas décadas a negociar com o fator corrupção pelo meio. Não é preciso ter apenas vontade de mudar o país, são precisas ferramentas e tempo para alterar velhos hábitos".

O especialista em lei constitucional salienta que os períodos de transição são "altamente dolorosos, de ruturas e reajustes", mas acredita que a Tunísia tem tudo para ser um oásis cada vez maior no Norte de África. E desvaloriza a escalada da religião. "Antes, o povo não podia expressar a sua crença livremente. Agora está mais próximo da religião, é certo, mas os partidos políticos ligados ao islamismo não são maioritários, um sinal da fraca influência que terá no país, ao contrário de países como o Egito e Líbia".

 

DESEJADA CONSTITUIÇÃO

Em janeiro deste ano, o mundo noticiava a Constituição revolucionária da Tunísia, que por um lado afirma que o Islão é a sua religião, mas também que homens e mulheres têm os mesmos direitos, incluindo os da representação política. Mais uma vez, as opiniões dividem-se. Lina Ben Mheni, a ativista, considera-a uma falácia.

"Por exemplo, nesta Constituição fala-se nos direitos das mulheres, mas depois encontramos alíneas que dizem precisamente o contrário.

Eu sou linguista, conheço o poder das palavras e estas estão cheias de pequenas ratoeiras de interpretação que podem vir a ser muito perigosas no futuro". Ghazi concorda que a Constituição "não é perfeita", mas garante que "a legitimidade do grupo escolhido para a escrever não pode ser posta em causa" e que o texto final "tem maior equilíbrio entre poderes, além de ser compatível com a lei constitucional moderna". Como fonte de inspiração, os advogados, políticos e juristas envolvidos seguiram o modelo democrático português. As semelhanças entre os dois países multiplicam-se: ambos passaram por mais de 40 anos de ditadura, conseguiram fazer revoluções relativamente pacíficas, têm grandes desigualdades entre interior e litoral e uma lacuna de oportunidades para os jovens. "Olhando para a Europa, Portugal é um exemplo de sucesso acessível, que nós temos condições para alcançar e duplicar", afirma o professor de Ciências Políticas. Mais uma vez, a ativista não concorda e deixa no ar um pedido de reflexão: "Respeito a revolução portuguesa, mas cada país tem as suas especificidades e é preciso respeitá-las. Se não conseguirmos traçar o nosso próprio rumo, terão valido a pena todos os sacrifícios desta revolução?".