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Tsipras e Merkel: entendimento em Berlim?

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Tsipras está numa corrida contra o tempo. A situação dos cofres gregos é dramática. Só existe dinheiro até às primeiras semanas de abril

JULIEN WARNAND/EPA

Depois da troca de acusações, 
o diálogo. Em Bruxelas, perante a chanceler alemã, o primeiro-ministro grego comprometeu-se a apresentar uma nova lista de reformas e o relógio está a contar. Os dois voltam a encontrar-se já na segunda-feira.

Susana Frexes

Alexis Tsipras chega a Berlim, na segunda-feira, num contrarrelógio para apresentar uma lista "completa" e "específica" de reformas. As negociações técnicas com as instituições recomeçaram na sexta-feira, em Bruxelas e Atenas e com novo fôlego, segundo fonte europeia. Foi o resultado prático da reunião entre o primeiro-ministro grego, a chanceler alemã, Angela Merkel e o presidente francês, François Hollande. O encontro, que contou também com os presidentes da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Eurogrupo, terá servido para esclarecer, uma vez mais, Alexis Tsipras de que sem avanço no plano das reformas, não há avanço de dinheiro da parte dos credores.

O primeiro-ministro grego saiu da reunião como o 'dono' político das reformas, mas também com a certeza de que ao desenhá-las não poderá esquecer, nunca, a vontade do Eurogrupo. Todas as medidas serão avaliadas à luz do acordo de extensão do resgate assinado a 20 de fevereiro, e o impacto orçamental de cada uma delas será analisado minuciosamente.

Para os credores europeus o problema não é a aprovação de uma "lei humanitária", de ajuda aos mais pobres, e que custará aos cofres gregos "apenas" 200 milhões de euros. O que é grave e, na última semana, voltou a diminuir a confiança no Governo grego é que Atenas não tenha consultado as instituições da troika. Os representantes técnicos da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional não foram envolvidos no processo, nem puderam fazer qualquer avaliação, e acusaram o Governo grego de ter avançado unilateralmente com reformas, algo que Atenas tinha prometido não fazer no acordo de 20 de fevereiro.

Fonte próxima do Governo grego, ouvida pelo Expresso diz que a "lei humanitária" é uma questão de soberania, e que se o Governo do Syriza não puder decidir sobre o fornecimento gratuito de eletricidade a famílias carenciadas e sobre a atribuição de vales alimentares a 300 mil pessoas, então resta-lhe muito pouco. Do lado dos credores, o importante é que qualquer medida com impacto negativo na despesa seja compensada do lado da receita.

 

Eurogrupo e BCE poderão desbloquear €1,9 mil milhões

A situação dos cofres gregos é dramática. Fontes europeias e gregas dão conta de que só existe dinheiro até às primeiras semanas de abril e no dia nove do próximo mês há novo pagamento, de 467 milhões de euros, ao FMI. Se o problema de liquidez a curto prazo não for resolvido, o Governo de Tsipras poderá ver-se numa situação de não ter dinheiro para pagar salários aos funcionários públicos, ou, noutro cenário, poderá falhar os reembolsos aos credores internacionais.

Mesmo sem acesso a todos os números, os parceiros europeus têm noção desta realidade que, segundo fonte próxima do Syriza, estará a ser utilizada como forma de pressionar o Governo grego.

Outra fonte, antes da reunião informal entre Tsipras, Merkel e Hollande, dava conta de que o primeiro-ministro grego iria aproveitar a oportunidade para sensibilizar Mario Draghi para a necessidade de o BCE voltar a aceitar títulos de dívida pública grega como garantia nas suas operações de refinanciamento. Um outro pedido passava pela autorização do Banco Central Europeu de um aumento do teto de emissão de bilhetes do tesouro.

Ao que o Expresso apurou, a posição do BCE tem sido uma das mais duras, e nenhum dos dois pedidos deverá ser atendido em breve. No entanto, a reunião de ontem poderá ter aberto a porta a uma outra possibilidade: a devolução à Grécia de €1,9 mil milhões de euros, referente aos lucros que o eurossistema - composto pelo BCE e os bancos centrais europeus - fez com a compra de dívida grega, em 2014.

A confirmar-se, seria não só um balão de oxigénio para os cofres helénicos, mas também um sinal político de que, finalmente, estão restabelecidos as relações de confiança entre a Grécia e o Eurogrupo.

Os países da moeda única poderão estar dispostos a libertar os €1,9 mil milhões caso haja a lista de reformas que os gregos vão apresentar nos próximos [dez] dias seja do agrado de todos.

 

Primeira luz verde 
poderá vir de Berlim

Parte da lista de reforma poderá ser partilhada com Angela Merkel já na segunda-feira. Apesar das acusações dirigidas pelos gregos à Alemanha, acabou por ser a reunião com a chanceler que desbloqueou o impasse nas negociações técnicas. A visita a Berlim pode agora tornar-se uma etapa intermédia - e irónica - antes do envio da lista completa para as instituições.

Mas a reunião a "sete" de quinta-feira, à margem do Conselho Europeu, criou também uma situação incómoda, ao deixar fora da sala, a maioria dos países da moeda única. A Bélgica fez questão de dizer abertamente que não deu qualquer mandato à Alemanha nem à França para negociar em seu nome.

Qualquer decisão sobre o programa de assistência financeira tem de ser tomada unanimemente pelos 19 membros da moeda única. Uma reunião extraordinária do Eurogrupo é, por isso, necessária para desbloquear quer os lucros do eurossistema quer a última tranche do resgate (€1,8 mil milhões).

Se Alexis Tsipras conseguir convencer os parceiros europeus com a nova lista de reformas, poderá finalmente ultrapassar os problemas de liquidez de curto prazo que tanto o atormentam.