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Tsipras cita sermão de Cristo. O massacre nazi e a esgrima retórica entre a Grécia e a Alemanha

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O 'combate' entre a Grécia de Alexis Tsipras e a Alemanha de Angela Merkel, aqui replicado num desfile carvavalesco em Duesseldorf, ganhou novo fôlego esta semana com as declarações do primeiro-ministro grego

PATRIK STOLLARZ/AFP/Getty Images

A Grécia quer uma indemnização da Alemanha pela ocupação nazi durante a II Guerra Mundial. Berlim diz que já pagou o que tinha para pagar e não responde ao desafio de Atenas, esquecendo-se que política é uma palavra com berço no grego antigo. A esgrima retórica entre os governos de Merkel e Tsipras está a subir de tom.

A história é simples e resume-se a euros, milhões de euros, e a saber quem ganha este confronto que opõe o governo de Atenas à Alemanha de Angela Merkel. Alexis Tsipras, um militante de esquerda que se especializou na arte da política - uma palavra que nasceu na terra onde vive há cerca de 2500 anos - recuperou uma causa que é um fantasma emocional para os alemães: os danos causados pelos ocupação nazi durante a II Guerra Mundial e os horrores dos vários massacres.

Distomo é uma aldeia a 100 quilómetros de Atenas que simboliza a resistência grega contra o nazismo e a identidade de um povo martirizado por dois resgates da troika. É também uma bandeira do Governo do Syriza na esgrima das muitas divergências que o opõe ao Executivo de Merkel, que incluiu uma ameaça de penhora sobre os Goehte Institut de Atenas e Salonica, e sobre a Escola Alemã de Atenas, de acordo com o jornal italiano "La Reppublica".

Nikos Paraskevopoulos, o independente que Tsipras escolheu para ministro da Justiça, disse esta quarta-feira que está preparado para autorizar a execução de um acórdão do Supremo Tribunal de Justiça da Grécia de 2000, que prevê o confisco de propriedades do Estado alemão como garante do pagamento de "compensações aos familiares das vítimas das atrocidades nazis em Distomo".

"Acredito que esta autorização deve ser concedida e estou preparado para o fazer, apesar de todos os obstáculos. Provavelmente deve haver negociações com a Alemanha. Esta, terá de respeitar a decisão da justiça grega e os factos", disse Paraskevopoulos citado pela ANA, agência de notícias da Grécia.

O massacre de Distomo

A tragédia de Distomo têm 70 anos. Os nazis, mais concretamente a 4ª Divisão das SS, entrou em Distomo a 10 de junho de 1944 varrendo as casas da aldeia. Um massacre que vitimou 214 pessoas, incluindo crianças, mulheres grávidas e o padre da aldeia, de acordo com relatos de sobreviventes.

A 30 de outubro de 1997, um tribunal grego deu razão a quatro familiares das vítimas que interpuseram uma ação contra o Estado alemão; a Alemanha foi condenada a pagar uma compensação de 28 milhões de Euros. A sentença nunca foi executada por causa de um mecanismo do direito interno da Grécia e os queixosos interpuseram uma nova ação num tribunal alemão.

A justiça alemã invocou um acordo bilateral assinado em 1960 entre a Grécia e a República Federal Alemã [RFA] para não pagar. A ação ainda teve uma nova réplica num tribunal italiano mas a indemnização nunca foi paga.

O discurso de Tsipras no Parlamento

Alexis Tsipras recordou o acordo de 1960 no discurso feito esta terça-feira no Parlamento grego: "A Alemanha, quando se digna emitir uma opinião sobre a questão que envolve as suas dívidas decorrentes da II Guerra Mundial, invoca o acordo bilateral de 1960". Nesse ano, a RFA pagou "voluntariamente 115 milhões de marcos como reparação" [de guerra]. E os dois países "concordaram" que não haveria lugar para novas "reivindicações" indemnizatórias.

Tsipras considera que o "acordo de 1960, só contemplou as vítimas do nazismo na Grécia, deixando de fora os danos infligidos ao país". E que não mencionava os "empréstimos coercivos da potência ocupante, nem referia os pedidos de indemnização devido a crimes de guerra e à destruição quase total das infraestruturas da Grécia, bem como a destruição completa da economia durante a guerra e a ocupação".

Tsipras cita sermão de Cristo

Ao Parlamento, Alexis Tsipras disse estar "ciente" de que o assunto é "altamente técnico e altamente sensível", e que "este não é o melhor fórum nem o momento oportuno para o aprofundar. São necessários esclarecimentos, trabalho de peritos, advogados e historiadores".

Num discurso longo e estruturado que apela à memória de uma Grécia ocupada pelos alemães, Tsipras elenca argumentos que conduzam à renegociação da dívida. Quase no final, invoca Cristo: "Nunca daremos - nem aceitaremos - lições de moralidade. Ultimamente temos ouvido uma série de declarações inflamadas que nos trazem à mente a famosa passagem do Sermão da Montanha do Evangelho de São Mateus: Eles veem o cisco no olho do seu irmão, mas não veem a trave no seu próprio olho".