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Sentimento anti-estrangeiro une manifestantes na Alemanha

Manifestantes do Pegida na marcha de Dresden

Hannibal Hanschke/Reuters

Dresden, à semelhança de outras cidades, viu milhares de manifestantes desfilarem contra a "islamização da Europa". O grupo Pegida soma e segue. É uma mistura de neonazis com extrema direita aos quais se juntam os que acreditam ter direito a não ter de sustentar refugiados.  

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

"Não à sharia na Europa!", lia-se numa faixa sustentada por várias pessoas numa das frentes da manifestação de Dresden que foi convocada pelo Pegida e juntou 15 mil pessoas, na segunda-feira, naquela cidade do leste da Alemanha. Foi lá que nasceu o movimento Europeus Patriotas Contra a Islamização do Ocidente (Patriotische Europäer gegen die Islamiesierung des Abendlandes) Pegida em alemão, que em pouco tempo passou de centenas a milhares de aderentes.  

O fenómeno tem características especiais já que consegue reunir elementos da extrema-direita, neo-nazis, islamofóbicos e "alemães normais", defensores das suas pensões que reclamam por ninguém lhes ter perguntado se quereriam contribuir financeiramente através dos impostos para o acolhimento de asilados políticos.

Como é notório nos vídeos de reportagem da "Spiegel TV" publicados no "Spiegel Online", o site da revista "Der Spiegel", os repórteres tiveram dificuldade em entrevistar os manifestantes. Estes viram-lhes a cara, recusam-se a falar ou respondem devolvendo a pergunta. Alguns defendem não ser nem de direita nem nazis, mas alemães com "assuntos em comum" que "podem manifestar-se à vontade" sob o chapéu Pegida. O assunto comum mais lato é fazer campanha anti-estrangeiros, agitando ou embrulhando-se em bandeiras alemãs e gritando "Wir sind das Volk!" (Somos o povo!), o slogan adotado por manifestantes nas histórias "manifestações de segunda-feira" contra o Governo da Alemanha de Leste que, em 1989, precederam a queda do Muro de Berlim.

Lobos com pele de cordeiro 

A associação do Pegida, pelo menos até esta segunda-feira, a manifestações em prol da liberdade tem-lhes granjeado alguma respeitabilidade. No entanto, como sublinha o diário britânico "The Guardian", as autoridades federais de defesa da Constituição estão bem cientes das centenas de extremistas e grupos de hooligans que alinham no movimento: "Os instigadores são sem dúvida extremistas de direita", declaram.    

Chamam-lhes os "nazis de fato riscado", aludindo à sua penetração na classe média enquanto pessoas que podem ser vistas como pares, mas em cujas cabeças fervilham os ideais nazis. Por isso a chanceler alemã se apressou a declarar que "quem quer se participe nestas manifestações tem de ter cuidado para não ser explorado pelos seus organizadores". Angela Merkel declarou ainda: "Há liberdade de reunião na Alemanha, mas não há lugar para o incitamento contra pessoas nem para mentiras sobre cidadãos de outros países que vêm para cá".

Antes de a chanceler se pronunciar, o ministro da Justiça, Heiko Maas, chamara aos protestos do Pegida "uma desgraça".  

Argumentos temíveis

Entrevistado pelas câmaras da "Spiegel TV", o líder de Dresden do partido eurocético Alternativa para a Alemanha (AfD), Alexander Gauland, mostrou-se solidário com as palavras de ordem dos manifestantes na segunda-feira, em Dresden, e negou que exprimissem racismo.

Bernd Lucke, líder da AfD, que tem defendido o endurecimento da política de imigração, foi mais longe ao afirmar: "A maioria das exigências" feitas pelo Pegida "é legítima".

Esta foi a nona semana seguida em que o Pegida organizou protestos nas cidades alemãs do estado da Saxónia, no Leste. A primeira marcha foi organizada através das redes sociais e reuniu cerca de duas centenas de pessoas, noticia a BBC. Na semana passada, o número crescera para dez mil e a manifestação de Dresden subiu para 15 mil.   

Uma contra manifestação organizada por grupos cívicos, políticos e religiosos de Dresden, que reuniu cerca de cinco mil pessoas, exibia um cartaz gigante com símbolos de todas as religiões onde se lia a frase "Dresden para todos".

Na cidade ocidental de Colónia, cerca de 15 mil manifestantes juntaram-se no domingo para promover a tolerância e a abertura de mentalidades sob a palavra de ordem "Somos Colónia - não há nazis aqui".