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Reino Unido: Mulheres brilham em debate de líderes

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Ken McKay / ITV via Getty Images

Ed Miliband saiu-se de novo ligeiramente melhor do que David Cameron, mas foram três mulheres sem aspirações ao cargo de primeiro-ministro que mais impressionaram.

Ana França, Correspondente em Londres

"Três mulheres contra três betinhos" era a manchete do diário "The Guardian" na quinta-feira à noite, depois de terminado o primeiro debate a seis para as eleições gerais de 7 de maio. Betinhos porque, com excepção do líder dos nacionalistas, Nigel Farage, que começou a carreira como corretor na bolsa, o líder dos conservadores David Cameron, o trabalhista Ed Miliband e o liberal-democarata Nick Clegg frequentaram liceus privados seguindo depois para Oxford e Cambridge e daí para o Parlamento. 

O que é certo é que até os jornais mais conservadores foram obrigados a conceder vitória à equipa de mulheres - e mulheres de esquerda - que durante duas horas grelharam os seus oponentes em questões essenciais como o Serviço Nacional de Saúde, o preço da habitação, a porosa lei de fiscalização das actividades financeiras e a imigração. 

Mulheres de peso 

Rose Freeman, fundadora de um coletivo de artes que trabalha com jovens de agregados familiares problemáticos, e com quem o Expresso assistiu ao debate, esteve a noite toda nas redes sociais a louvar o esforço das três mulheres presentes no debate. Numa das suas publicações com mais "gosto" no Facebook lia-se: "Consigo pensar em coligações muito mais danosas do que aquela que estou a assistir entre as três mulheres na minha televisão".

As três mulheres são Nicola Sturgeon, líder do Partido Nacionalista Escocês (SNP), Natalie Bennett, pelo Partido Verde, e Leanne Wood, líder do Plaid Cymru, partido nacionalista do País de Gales. Logo no início, Wood ganhou um dos poucos aplausos calorosos da noite quanto envergonhou Nigel Farage que, por sua vez, escolheu como tema para a sua primeira intervenção da noite os perigos de acolher imigrantes portadores do vírus de HIV.

Já Natalie Bennett fez intervenções mais emocionais, tocando várias vezes na questão da austeridade e nos serviços públicos que têm fechado um pouco por todo o país. Antes de se tornar líder dos verdes, Bennett foi jornalista do diário "The Guardian", cobrindo principalmente sociedade e política. Nicola Sturgeon continua a brilhar: só ninguém tem a certeza se é luz própria ou uma espécie de reflexo da popularidade do seu partido que pode dizimar os trabalhistas na Escócia e vir para Londres fazer mossa no centralão. Falou da importância de um ensino público como uma paixão que calou o estúdio. 

Empate 

Na maioria das sondagens relâmpago publicadas depois do debate, Cameron e Miliband estavam empatados nos 25%, mas Ed Miliband começa a ser visto por cada vez mais eleitores como uma alternativa credível ao actual primeiro-ministro, o que pode prejudicar em muito os conservadores que depositam muitas das suas esperanças na fraquíssima popularidade do líder trabalhista. Se à perceção francamente positiva que o público tem do partido trabalhista se começar a associar uma simpatia pelo seu líder, David Cameron pode ver-se a braços com uma luta mais complicada - uma luta de empatia. 

Várias vezes se ouve dizer que a razão não é chamada à política. Nicola Sturgeon, líder do SNP, provou isso mesmo neste debate. Todas as principais empresas de sondagens conduziram inquéritos no país todo e não só na Escócia e, mesmo assim, a taxa de aprovação de Nicola Sturgeon chegou aos 30% na sondagem do YouGov.

Isto quer dizer que há muita gente em Inglaterra que gosta dela mas não pode votar no seu partido. Andrew Sparrow, editor da edição digital de política do "Guardian", argumentava que muitos desses votos vão possivelmente passar para os trabalhistas, com quem o SNP partilha muitos dos seus valores basilares.

Sempre controverso, e estrategicamente cacofono, Nigel Farage, líder do UKIP, acabou também a subir nas sondagens. De entre as razões para a boa performance, os entrevistados nas sondagens destacaram a consistente oposição à imigração e aos planos económicos dos dois principais partidos.

O tema da emigração foi um dos mais acrimoniosos com Nick Clegg a dizer que Farage, apesar de ser casado como uma "estrangeira", tal como Clegg, não pensa duas vezes antes de tratar o resto dos imigrantes como sanguessugas do dinheiro dos contribuintes quando eles são de facto alguns dos maiores contribuintes para o Estado. 

No fim, Rose admitiu que o debate pode não ter decidido muito, e muito menos fará de alguma destas mulheres primeiro-ministro mas "a política é uma questão emocional e de um dia para o outro as pessoas cansam-se e a coragem é contagiosa".