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Quem são os prisioneiros que reaproximaram EUA e Cuba

Alan Gross foi libertado ao fim de cinco anos

SHAWN THEW/EPA

Dois norte-americanos, Alan Gross e um "homem mistério", e os cubanos Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero já são homens livres.  Para isso, Obama e Raúl Castro trabalharam nos últimos 18 meses.

Mafalda Ganhão e Raquel Pinto

17 de dezembro de 2014. O mundo assistiu a um momento histórico. Um dia depois de Barack Obama e Raúl Castro concordarem em fazer uma 'troca' de prisoneiros, os dois líderes anunciam o primeiro passo para a reaproximação dos países que representam. A liberdade já tinha chegado para Alan Gross e os três cubanos Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero.

Para Alan Gross, a notícia veio ao fim de cinco anos, quando tinha já perdido a esperança. O apelo dramático feito pela sua mulher, no início de dezembro e tendo Barack Obama por destinatário, foi claro: "Alan decidiu que não suportará outro ano como prisioneiro em Cuba, e temo que tenhamos chegado ao fim".

No comunicado que escreveu, Judy Gross acrescentava que era o momento de o Presidente dos EUA agir, antes que fosse "tarde de mais".

Doente, a enfraquecer de dia para dia e a perder a visão, o empresário de 65 anos fez saber que desistia. Em julho despediu-se da mulher e de uma das filhas, por se recusar a voltar a vê-las como prisioneiro e, mais recentemente recusou também receber a visita de representantes norte-americanos em Havana, em protesto pelo - acusava - pouco esforço do Governo para obter sua libertação. Chegou a ameaçar que se suicidaria.

Gross foi preso no dia 3 de dezembro de 2009 em Havana, acusado de distribuir sofisticados equipamentos de comunicação. Trabalhava como funcionário subcontratado da Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional e tentava assegurar o acesso à internet numa comunidade judaica, violando a proibição imposta por Cuba.

 

Gross ia ao pátio, "de onde mal se avista o céu", uma hora por dia Em março de 2011 foi condenado a 15 anos de prisão. Uma pena que cumpria em especiais condições de dureza, confinado a um pequeno espaço durante 23 horas por dia. Na hora que lhe sobrava, contou o seu advogado, podia sair a um pátio minúsculo, "de onde mal se avista o céu".

Incansável, a sua mulher contratou um advogado e processou por alegada negligência a empresa para a qual Alan trabalhava. Nunca parou de chamar a atenção para o caso, que mereceu também o interesse de Jared Genser, um advogado especialmente envolvido na defesa dos Direitos Humanos e que, em 2012, apelou para a libertação de Gross, denunciando o tratamento desumano que sofria.

Genser escreveu às Nações Unidas. A Gross era negado adequado acompanhamento médico há mais de seis meses, uma violação ao que a lei internacional consagra. À crescente pressão em relação ao seu caso, os Estados Unidos responderam, sem pormenores, garantindo apenas estar a recorrer aos "canais diplomáticos para insistir na libertação de Gross", considerada uma "prioridade".

Era conhecida a proposta do Governo em Havana, que sugeriu trocar Gross pela libertação de três agentes cubanos presos nos Estados Unidos. Washington começou por negar, mas certo é que o avião oficial que transportou o norte-americano no seu regresso a casa, concedido por Cuba por "razões humanitárias", só partiu depois de assegurada a saída de Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero, os três cubanos condenados por espionagem nos EUA em 2001. Encontravam-se detidos, respectivamente, em Victorville (Califórnia), em Ashland (Kentucky) e na cadeia federal de Marianna (Flórida).

Um segundo prisioneiro norte-americano foi libertado, segundo uma fonte dos serviços secretos dos EUA. Estaria preso há mais de 20 anos, mas a sua identidade não foi revelada por razões de segurança.

 

Fidel tinha razão. Disse que voltavam e assim foi Quanto aos três agentes secretos de Cuba, a história remonta ao final da década de 90. São "Os Cinco Heróis" da luta antiterrorista - assim foram distinguidos oficialmente por Cuba, integravam a Rede Vespa, uma complexa rede de inflitrados que operava no sul da Florida, em organizações anticastristas [corrente político-ideológica contra o regime de Fidel Castro] para fornecer informações a Havana acerca dos contrarrevolucionários radicados nos EUA.

O FBI acabaria por desmantelar o circuito. Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero e os outros dois heróis René González e Fernando González foram detidos na operação do FBI em Miami, a 12 de setembro de 1998, e condenados em 2001, por conspiração para espionagem e para matar, falsificação de documentos, entre outros crimes. Cuba reconheceu que eram agentes e negou sempre que os alvos fossem norte-americanos. Pelo contrário, na mira do serviço de inteligência estavam exilados cubanos, integrados em movimentos que preparavam ações terroristas em Cuba.

O propósito da rede era alegadamente travar ataques a Cuba, evitando semelhantes atentados como os que ocorreram em 1997 em hotéis na turística cidade de Havana e na estância balnear de Varadero.

Gerardo Hernández, Ramón Labañino e Antonio Guerrero eram os três do grupo dos cinco heróis que ainda continuavam presos, depois de René González e Fernando González, terem saído em liberdade. Um, em 2011. O outro, este ano. 

Rene Gonzalez. Foi o primeiro do grupo cubano "Os Cinco" a ser libertado, em outubro de 2011. Renúnciou à cidadania americana e obteve permanência definitiva em Cuba

Rene Gonzalez. Foi o primeiro do grupo cubano "Os Cinco" a ser libertado, em outubro de 2011. Renúnciou à cidadania americana e obteve permanência definitiva em Cuba

Stringer/Reuters

O primeiro foi René González, de 58 anos, piloto, e condenado a 15 anos de prisão. Saiu a 7 outubro de 2011 da cadeia de Marianna, na Flórida [onde também se encontrava Antonio Guerrero], ficando sujeito a três anos de liberdade condicional supervisionada pelas autoridades norte-americanas. Obteve autorização para viajar para Cuba por motivo da morte do pai em abril de 2013. Na sequência desse regresso, renuncia à cidadania americana e consegue a permanência definitiva em Cuba e aí cumprir o resto da liberdade condicional. Já Fernando González, de 51 anos, voltou para Havana no dia seguinte à libertação. Condenado a 17 anos de prisão, saiu ao fim de 15 anos detido, por bom comportamento. Na tarde de 27 de fevereiro de 2014 estava fora da prisão de Safford, no Arizona. É formado em Relações Internacionais.

Acusados de mais de 20 crimes e julgados em Miami - um processo judicial alvo de inúmeros críticas internacionais que o designaram de julgamento político -, a maior condenação foi aplicada ao "líder" do grupo, Gerardo Hernández, licenciado em Relações Internacionais. Entre as acusações, o envolvimento na queda de duas aeronaves do grupo anti-Castro "Irmãos ao Resgate", atingidas por mísseis disparados por caças MIG cubanos, a 24 de fevereiro de 1996, que causou a morte de quatro tripulantes. Os ocupantes eram pilotos. Conheceu a seguinte pena: Duas prisões perpétuas e mais 15 anos de prisão. Nasceu em Havana, a 4 de junho de 1965.

Ramón Labañino, 51 anos, economista, também nascido em Havana, pai de três filhas, tinha sido sentenciado a prisão perpétua e mais 18 anos de prisão. Em dezembro de 2009, a pena baixou para os 30 anos de prisão. 

Engenheiro de construção de aeroportos, Antonio Guerrero, teria de cumprir prisão perpétua e mais 10 anos. Tal como Labañino, viu ser-lhe reduzida a condenação em outubro de 2009. Passou para os 22 anos de prisão efetiva e cinco em liberdade condicional. Tem duas filhas e 56 anos.

Como estes cubanos, Gross regressa ao país-natal no momento em que EUA e Cuba retomam o diálogo e se aproximam. Em cinco anos o norte-americano perdeu a mãe, o casamento de uma filha (tem duas) e não esteve presente para apoiar a outra, a braços com um cancro da mama. Segundo a CNN, abraçou a liberdade com três desejos simples: tempo para a família, um bom 'scotch' e o prazer de um cigarro - hábito que adquiriu na prisão.

Por sua vez, com a libertação dos heróis da luta antiterrorista cubana, cumpriu-se o prenúncio de Fidel Castro. Num discurso a 23 de junho de 2001, sob um sol tórrido, o ditador perdeu momentaneamente os sentidos. Nesse dia, com a imagem dos cinco heróis como pano de fundo, prometeu: "Eles voltarão!". E voltaram. Todos. Livres.