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Que futuro para as crianças da Síria? Diretor-geral da UNICEF fala em "infância roubada"

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FOTO ZEIN AL-RIFAI/AFP/Getty Images

Leia o artigo de opinião do diretor-executivo da UNICEF a propósito da entrada no quinto ano do conflito na Síria, que afeta cerca de 14 milhões de crianças naquele país e nas regiões vizinhas. "Não podemos desistir destes jovens", apela Anthony Lake. 

Anthony Lake

Este mês, o conflito na Síria entra no seu quinto ano brutal. É um marco chocante - assinalar quatro anos de escalada de violência e sofrimento sem resolução à vista. Dezenas de milhares de civis perderam a vida. Milhões de pessoas fugiram. Casas, hospitais, escolas, todos foram alvo de ataques diretos. Comunidades inteiras foram privadas do acesso a assistência humanitária, alimentos e água. A violência alastrou além-fronteiras como uma infeção invasiva.   Agora, imaginem este horror através dos olhos das crianças que estão a vivê-lo. As suas casas foram bombardeadas ou abandonadas. Perderam quem mais amavam e os seus amigos. A sua escolaridade foi interrompida, ou nunca iniciada. Foi-lhes roubada a sua infância.   Naquela que se tornou a pior crise humanitária de que há memória recente, a UNICEF estima que cerca de 14 milhões de crianças estão agora afetadas na Síria e países vizinhos.   Para as mais novas dessas crianças, esta é a única realidade que conhecem. A sua experiência do mundo tem as cores do conflito e das privações.   E para os adolescentes que estão a entrar no seu período de formação, a violência e o sofrimento por que passaram não só deixaram cicatrizes como estão a moldar o seu futuro.   Enquanto os jovens das mesmas idades noutros países estão a começar a fazer as escolhas que irão afetar o resto da sua vida, estas crianças estão a tentar sobreviver. São tantas as que têm sido confrontadas com a crueldade extrema. Ou pressionadas a trabalhar para sustentar as suas famílias. Ou forçadas a casar enquanto ainda são crianças. Ou recrutadas por grupos armados.  

"Com a crise a entrar no quinto ano consecutivo, esta geração de jovens continua em perigo de se perder num ciclo de violência - de replicar na geração seguinte o que sofreu", sustenta Anthony Lake, diretor-geral da UNICEF

"Com a crise a entrar no quinto ano consecutivo, esta geração de jovens continua em perigo de se perder num ciclo de violência - de replicar na geração seguinte o que sofreu", sustenta Anthony Lake, diretor-geral da UNICEF

UNICEF

Que escolhas irão estas crianças fazer? Que escolhas têm?   Continuarão a acreditar num futuro melhor? Ou irão simplesmente desistir, em desespero - resignadas com as oportunidades limitadas de um futuro instável?   Pior ainda, irão elas próprias recorrer à violência - que acaba por lhes parecer normal? Há um ano, os líderes humanitários advertiram para o risco de estarmos a perder uma geração inteira de jovens para a violência e o desespero - e com ela, a oportunidade de um futuro melhor para a Síria e a região. Esse risco não diminuiu. Com a crise a entrar no quinto ano consecutivo, esta geração de jovens continua em perigo de se perder num ciclo de violência - de replicar na geração seguinte o que sofreu. A comunidade internacional respondeu a esta sombria possibilidade, tentando chegar a estas crianças com assistência humanitária, proteção, educação, e apoio. Mas não tem sido suficiente.

Não podemos desistir destes jovens - e precisamos de multiplicar o número daqueles a quem chegamos antes que desistam de si próprios e do seu futuro. Ainda temos tempo - e ainda há esperança. Apesar dos danos que já sofreram, das injustiças que suportaram, e da aparente incapacidade dos adultos para porem fim a este horrível conflito, estas crianças ainda têm coragem e determinação para construir uma vida melhor.       Crianças como Alaa, de 16 anos, que fugiu há dois anos de Homs, a cidade síria onde morava. Com a escolaridade interrompida, teve a oportunidade de encontrar um programa de formação oficinal - e hoje está à frente de cursos de formação para outras crianças.   Crianças como Christina, de dez anos, do outro lado da fronteira, no norte do Iraque. Está a viver num abrigo para famílias deslocadas, onde ajuda crianças mais novas a estudarem enquanto se esforça por prosseguir os seus próprios estudos. Vendo a determinação destas crianças, como podemos nós estar menos determinados a ajudá-las? Sabendo que elas não perderam a esperança, como podemos nós perdê-la? Se o fizermos, então as consequências far-se-ão sentir nas próximas gerações ... por todos nós.   Porque esta crise terrível não se limitou a afetar milhões de crianças. Quando chegarem à idade adulta, estas crianças e as escolhas que fizerem irão refletir-se no futuro de milhões de pessoas - nos seus países e na sua região. Será um futuro de esperança e reconciliação - ou um futuro de violência e desespero?   Este último não é um futuro que elas mereçam. E não é certamente um futuro que nós queiramos ver.