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Quando ter os pés no chão faz medo, como se reconstrói um país?

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Rapaz fotografado numa tenda, na rua, onde milhares de nepaleses estão a viver desde sábado com medo das réplicas

Adnan Abidi/Reuters

A ajuda externa "é fundamental" em casos como o do sismo no Nepal, um dos países mais pobres do mundo.  "Nas pequenas aldeias, as pessoas ajudam-se, até podem dar trabalho e simpatia aos outros, mas não os podem ajudar com dinheiro", conta um economista nepalês a viver em Portugal. As perdas no turismo, do qual o país depende, são um dos receios. E quanto à recuperação do trauma, há memórias que não vão desaparecer - o importante será aprender a viver com elas.

Quando se chega ao ponto em que ter os pés no chão em vez de segurança traz medo - medo de que o chão trema outra vez e que o mundo desabe - então a sensação de controlo sobre a própria vida perde-se. A única segurança é estar num espaço aberto, onde nada mais possa cair.

Quando tudo isso acontece num dos países mais pobres do mundo, dependente do turismo, onde mais de 70% da população vive da agricultura e onde já é difícil construir uma casa uma vez na vida - quanto mais conseguir refazê-la - então questiona-se: como é que os nepaleses se levantam outra vez? Como é que o país reconstrói a sua economia?

"O sismo vai tornar as pessoas pobres ainda mais pobres", diz o economista Subarna Basnet, a viver há seis meses em Portugal, para onde veio fazer um doutoramento na área do desenvolvimento económico no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG). O Nepal é um dos seus casos de estudo - e é também o país onde nasceu e que deixou em 2011 para ir estudar para a Irlanda. Em Katmandu ficou a família, com a qual não consegue falar há dois dias, depois de ter sabido que sobreviveram ao sismo que já provocou quase cinco mil mortos. "As pessoas estão a dormir nas ruas, apesar de já ter começado a chover. Sei que não há luz, telefone ou internet." Se essa é a situação na capital, Subarna questiona-se em que condições estarão os nepaleses nas zonas mais remotas do país. "Muitas pessoas, sobretudo as mais pobres, ficaram sem casa. E muitas das casas que ficaram destruídas eram as mais frágeis. Como é que as conseguem refazer?" Cerca de três em quatro nepaleses trabalham na agricultura, "da qual dependem famílias inteiras", lembra o economista. Subarna não tem dúvidas de que o sismo terá um "grande impacto" na economia e no desenvolvimento do país. As infraestruturas, como as estradas, estão destruídas. "Se já foi difícil construímos as estradas que tínhamos...", diz. "O sismo terá impacto em vários sectores, como no turismo. O Nepal depende da agricultura, mas também do turismo. E houve muitos monumentos, que eram património histórico da UNESCO, que estão destruídos. Muitos edifícios antigos colapsaram. E é este o cenário."   Controlar onde o dinheiro é gasto "Claramente, a ajuda externa é fundamental. Mas não sabemos quanto tempo a reconstrução vai durar", afirma Luís Mah, especialista em desenvolvimento global e investigador do Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina (CEsA) do ISEG.

Lembrando que será exigido "um grande esforço" das instituições, o investigador e docente do ISEG sublinha que é importante ver qual será o papel da China e da Índia, vizinhos do Nepal. Num país onde as instituições locais funcionam mal, corre-se o risco de que daqui a uns anos pouco tenha sido recuperado, "se não houver um controlo claro de como o dinheiro que chega ao terreno é gasto".

Garrafas de água atadas com cordas às talas ajudam a fazer tração às pernas fraturadas de uma jovem nepalesa, num hospital de Katmandu

Garrafas de água atadas com cordas às talas ajudam a fazer tração às pernas fraturadas de uma jovem nepalesa, num hospital de Katmandu

Danish Siddiqui/Reuters

Subarna Basnet lembra também a corrupção no Nepal. "O país está muito frágil e é economicamente vulnerável por causa do cenário político que se vive." Em termos de perdas, o grande receio está agora no turismo. "O turismo é essencial porque traz as divisas que o Nepal precisa para o comércio internacional, para comprar o que eles não têm. E há muitas pequenas indústrias que estão ligadas ao turismo. Acho que vai ser muito difícil", defende Luís Mah.    O docente do ISEG explica ainda que, nesta primeira fase, o que está em causa é a ajuda humanitária. "Basicamente o que se faz é reduzir o impacto da situação dramática na vida das pessoas". Só depois se passa à fase de desenvolvimento, com programas desenvolvidos a médio e longo prazo. "Se o papel do Estado não funcionar será difícil garantir o desenvolvimento."   Ter pesadelos durante anos Sobre a forma como os nepaleses têm enfrentado os obstáculos ao longo das últimas décadas, Subarna é claro. "A sociedade nepalesa tem uma cultura de entreajuda. Nas pequenas aldeias, as pessoas ajudam-se, podem dar trabalho e simpatia aos outros, mas não os conseguem ajudar com dinheiro. Quando chega à parte financeira ninguém pode fazer nada." E psicologicamente, como é que se ultrapassa o trauma? Rui Pedro Ângelo, psicólogo social, professor na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa, explica que numa situação de catástrofe é importante saber qual foi o grau de exposição das pessoas ao trauma. "Faz diferença se alguém da família foi afetado. Foi-me comunicada a sua morte, eu vi-a morrer ou eu tentei fazer alguma coisa e não consegui impedir?" Só passadas quatro a seis semanas depois do trauma é que se pode definir se os pesadelos ou medos são sinais de alerta. Até lá podem ser simplesmente manifestações. Ao mesmo tempo, importa tratar do luto, homenageando os mortos e realizando as cerimónias fúnebres. E depois é preciso aumentar a sensação de controlo. "Depois de um sismo, perdemos a sensação de controlo sobre a vida. Há mecanismos para que as pessoas consigam dormir seguras. O melhor é colocar as pessoas em espaços abertos, proporcionar-lhes esse espaço seguro, como em campos de alojamento com simples tendas. Evita a sensação de que o mundo pode desabar totalmente." Em locais onde um acompanhamento psicológico individual estará longe da realidade é importante evitar que a pessoa se sinta sozinha no mundo. "O ser humano adapta-se, sobrevive. O problema é que não sobreviva de forma adaptada", diz Rui Pedro Ângelo. "As pessoas irão sobreviver, mas algumas terão pesadelos durante anos." E se o luto é o primeiro passo, até lá é preciso confirmar o paradeiro dos que ainda estão desaparecidos. "O reconhecimento dos corpos é das coisas mais marcantes nestas catástrofes. E há memórias que já não desaparecem", diz. "A ajuda passa por lhes retirar a carga emocional e permitir que vivam aceitando essas memórias."