Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Professores condenados a sete anos de cadeia por inflacionarem notas dos alunos

  • 333

É um caso inédito pela gravidade das penas, mas o fenómeno que põe em relevo parece ser cada vez mais frequente.

Luís M. Faria

Jornalista

Oito educadores foram condenados a penas de prisão elevadas, nalguns casos até sete anos, por terem conspirado para inflacionar as notas de estudantes no sistema escolar de Atlanta (Geórgia), nos Estados Unidos. É o culminar de um julgamento que demorou seis meses e levantou questões importantes sobre os objetivos da escola e o papel dos professores.

Embora o tribunal tenha notado que os alunos foram as vítimas do esquema - muitos deles não estavam preparadas para frequentar os graus a que depois tiveram acesso e ficaram sujeitos a repetir anos, às vezes dois ou três seguidos - os próprios sentenciados, de certa forma, podem ser considerados vítimas. Com efeito, a lei conhecida como No Child Left Behind (Nenhuma Criança Deixada para Trás), do presidente George W. Bush, reforçou os testes estandardizados e criou uma obrigação de as escolas apresentarem resultados positivos, sob pena de perderem fundos federais.

No caso da Geórgia, as sanções iam mais longe, pois, se as escolas falhassem, os seus responsáveis seriam demitidos. Assim, havia todo o incentivo para aldrabar o sistema, em especial em zonas desfavorecidas onde dificilmente os estudantes poderiam obter o aproveitamento necessário. Muitos professores começaram a fornecer as respostas durante os exames, ou a falsificá-los depois de entregues.

Não é a primeira vez que isto acontece nos EUA. Mas nas situações antes levadas a tribunal, as penas foram leves. Ou não havia cadeia, ou esta ficava-se por uma ou duas semanas. Porém, o juiz Jerry Baxter, enfurecido pela recusa dos réus em admitirem publicamente culpa, tomou uma posição radical. A maioria deles tinha sido detida logo à condenação, no dia 1, e depois soltos. Terça-feira foi a audiência para decidir a pena, e Baxter instara-os a aceitar os acordos propostos pelo Estado, que lhes impunham multas e obrigações de serviço cívico - incluindo aulas de apoio a alguns dos alunos prejudicados pela atuação criminosa. Como eram infratores primários, ficariam com o cadastro limpo ao fim de uns anos.

Só dois dos condenados aceitaram. Os outros disseram que não e receberam penas inéditas, já criticadas em vários quadrantes. Houve quem lembrasse que são bastante superiores àquelas que recebem muitas pessoas que cometem crimes violentos, para já não falar de banqueiros desonestos, que raramente são condenados ou sequer julgados. E um dos advogados, fora do tribunal, insinuou que pode haver racismo envolvido. Afinal, todos os réus eram negros e o juiz era branco.