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Posição do Papa sobre genocídio arménio é "absolutamente devastadora para a Turquia"

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Em novembro de 2014, o Papa fez uma visita à Turquia, tendo estado com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan

EPA

O Papa Francisco classificou como "genocídio" o massacre dos arménios em 1915, estabelecendo uma comparação com o nazismo e estalinismo. Carlos Gaspar, investigador e especialista em Relações Internacionais, destaca a "força" dessa declaração e a forma como expõe a questão das perseguições religiosas.

Raquel Albuquerque e Alexandre Costa com Maria João Bourbon

O Papa Francisco classificou no último domingo como "genocídio" o massacre dos arménios em 1915, que a Turquia nega que tenha acontecido. Para Carlos Gaspar, investigador e especialista em Relações Internacionais, a posição do Papa "é absolutamente devastadora para a Turquia" e assinala uma mudança na atitude "cautelosa" que a Igreja Católica tem tido em relação às perseguições de cristãos. 

"No século passado, a nossa família humana passou por três tragédias sem precedentes. A primeira, que foi largamente considerada como 'o primeiro genocídio do século XX', atingiu o povo arménio", disse o Papa na missa de celebração da Páscoa arménia, comemorada pela primeira vez na Basílica de São Pedro, em Roma, no passado domingo.

Francisco acrescentou ainda que a seguir ao "genocídio" arménio "outras duas [tragédias humanas] foram praticadas pelo nazismo e o estalinismo. E, mais recentemente, outros extermínios em massa, como no Camboja, Ruanda, Burundi ou Bósnia".

Carlos Gaspar sublinha a "força" da declaração do Papa, ao estabelecer o paralelo com o nazismo e estalinismo. Francisco disse ainda que o genocídio continua hoje contra os cristãos "que, por causa da sua fé em Cristo e da sua origem étnica, são publicamente e cruelmente mortos - decapitados, crucificados, queimados vivos - ou forçados a deixarem as suas terras".

O investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) defende que a posição do Papa reflete uma mudança. "A Igreja Católica tem sido muito cautelosa em relação à perseguição de cristãos. Quanto mais exposição, mais as comunidades ficam em perigo. Mas esta posição deixa a questão muito mais exposta." 

O genocídio dos arménios

A Turquia reagiu à declaração do Papa e chamou o seu embaixador no Vaticano. Já o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Cavusoglu, defendeu em coumunicado que a declaração do Papa, "que está longe da realidade jurídica e histórica, não pode ser aceite". O texto diz ainda que as palavras de Francisco são "um desvio grave" da mensagem de paz e reconciliação que levou à Turquia na visita que fez ao país em novembro de 2014. 

Quanto à utilização da palavra "genocídio", Carlos Gaspar lembra que para além das autoridades turcas "ninguém nega que houve um massacre dos arménios". A questão pode estar depois nos contornos da definição do conceito de "genocídio" e na forma como os historiadores o interpretam.

Se por um lado a Arménia defende que cerca de 1,5 milhões de arménios foram mortos em 1915 pelos turcos otomanos, por outro lado a Turquia contesta aquele número, negando que tenha sido um genocídio e defendendo que muitas das mortes são o resultado dos combates que tiraram também a vida a muitos turcos.

Alguns historiadores apontam para que tenham morrido entre 700 mil e 1,2 milhões de arménios, com base nos números de arménios que habitavam na região, em relação aos quais não há também informações claras, segundo esclarece José Pedro Teixeira Fernandes, investigador das áreas da Ciência Política e de Relações Internacionais também ligado ao IPRI.

Elite turca aproveitou a guerra para "deportar em massa e exterminar" os arménios

O investigador, autor do livro "Turquia: Metamorfoses de Identidade", recorda que a questão se insere no contexto da fase final do Império Otomano, quando era dominado por uma nova elite turca, que utilizou o pretexto da Primeira Grande Guerra para "deportar em massa e exterminar" os arménios .

Teixeira Fernandes refere que os massacres das populações arménias, que eram de religião cristã ortodoxa e tinham aspirações a criar o seu Estado independente, já vinham a ocorrer anteriormente, mas que se estenderam depois a todo o território.

Em 1915 foi publicado um decreto que autorizou deportações por motivos militares, recorda o investigador, acrescentando que os arménios foram acusados de atos de traição e apoio ao inimigo russo, o que consistiu no "pretexto de uma situação militar com algum fundamento" que serviu de base para a sua deportação, a par dos massacres.

"A operação foi montada não oficialmente. Uma estrutura paralela terá feito o trabalho sujo", esclarece ainda Teixeira Fernandes.  

Argentina tem grande comunidade de arménios

Quanto ao conceito de genocídio, Carlos Gaspar lembra que foi a partir do estudo feito sobre o massacre dos arménios em 1915 que Raphael Lemkin, judeu polaco, desenvolveu a primeira definição, em 1943. "O genocídio arménio é o genocídio original do ponto de vista da genealogia da definição do conceito."

Em causa está também o "reconhecimento político e institucional do genocídio", lembra Carlos Gaspar. "Há um número muito pequeno de países que reconhecem o massacre como genocídio. São sobretudo países com grandes comunidades de arménios, como é o caso de França."  

O investigador lembra que a Argentina, de onde o Papa é originário e que tem uma grande comunidade de arménios, é um dos países que reconheceram o massacre como um genocídio. "Para as comunidades católicas [esta posição do Papa] é um sinal muito importante." 

O Expresso tentou sem sucesso obter uma declaração sobre o assunto da parte da Conferência Episcopal Portuguesa.