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Pilotos suicidas ou assassinos? Queda nos Alpes parece ser idêntica à da Namíbia em 2013

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Homenagem na Alemanha aos 16 estudantes do Joseph-Koenig-Gymnasium que morreram nos Alpes franceses, esta terça-feira, depois da queda do A320 da Germanwings

FOTO REUTERS

Investigadores concluíram que o copiloto da Germanwings quis provocar a queda do avião. Há 15 meses, uma conclusão semelhante foi retirada no caso de um avião moçambicano que caiu na Namíbia. No século passado também houve casos parecidos. 

A queda de um avião das Linhas Aéreas Moçambicanas (LAM) há pouco mais de um ano parece ter uma origem semelhante ao sucedido com o avião da Germanwings nos Alpes, na passada terça-feira: quem pilotava, por razões desconhecidas, quis fazer cair a aeronave. Mas há diferenças.  

No dia 29 de novembro de 2013, era Hermínio dos Santos Fernandes quem comandava o Embraer 190 que partira de Maputo com destino a Luanda, e era ele também quem pilotava o aparelho quando este se despenhou no Parque de Bwabwata, na Namíbia, provocando a morte às 33 pessoas que seguiam a bordo, entre elas sete portugueses.  

Só um mês depois se soube que o piloto da LAM, segundo o registo do gravador do cockpit, se encontrava sozinho na cabina quando o avião se precipitou em direção ao solo. Ouve-se bater à porta, mas Hermínio dos Santos Fernandes não responde. Nesse espaço de tempo, terá efetuado uma série de manobras que provocou a perda de potência dos motores e uma descida a seis mil pés por minuto.  

"Ouvem-se também insistentes batidas na porta do cockpit, batidas essas que também foram ignoradas pelo comandante", conforme revelou o Instituto de Aviação Civil de Moçambique. As caixas negras demonstraram ainda que a altitude foi alterada manualmente, por três vezes, de 38 mil pés (cerca de 11500 metros) para 592 pés (cerca de 180 metros), e a velocidade também, segundo o relatório final provisório do inquérito, divulgado em dezembro do ano passado.   

"Deitar a porta abaixo"

Com o avião da Germanwings, a conclusão está a saber-se oficialmente dois dias depois do despenhamento. A "leitura" da caixa negra foi mais rápida e deu a conhecer 30 dos 40 minutos de voo. Mas as semelhanças naquilo que foi apurado em ambos os casos são notórias, embora no mais recente, o do Airbus 320 da Germanwings, seja o copiloto (Andreas Lubitz) aos comandos do avião e não o piloto (Patrick Sonderheimer).  

"Ouve-se o comandante que prepara a aterragem e a resposta do copiloto parece lacónica. Então ouve-se o comandante a dizer ao copiloto que tome o comando e ouve-se uma cadeira a ser empurrada para trás e uma porta que se fecha. Leva-nos a pensar que o comandante se ausentou", revelaram esta quinta-feira as autoridades francesas.  

"Quando está sozinho, o copiloto manipula os botões, de forma deliberada, para fazer descer o avião. Ouve-se o comandante a pedir para entrar na cabina. Ouve-se um ruído de respiração humana dentro da cabina. Isso significa que [o copiloto] estava vivo. A priori respirava normalmente, não como alguém que tem um enfarte."   

E um oficial superior alemão dirá que a pessoa que está a bater à porta do cockpit do airbus fá-lo primeiro levemente e começa a aumentar a intensidade quando não obtém qualquer resposta do interior. Às tantas bate de tal maneira que parece querer "deitar a porta abaixo".  

Tanto no voo da LAM como da GW, as últimas manobras dos homens ao comando idenficam-se com a operação denominada de "descida de emergência". Apesar de descerem a velocidades diferentes, o Airbus seguia a metade da velocidade do Embraer, os aparelhos demoraram ambos cerca de oito minutos a atingir o solo.

O copiloto Andreas Lubitz, alemão de 27 anos, entrou para a Germanwings dois meses antes do "acidente" do avião da LAM. Tinha agora apenas 630 horas de voo. Segundo alguns dos seus conhecidos já interrogados pelos "media", não se lhe conhecia quaisquer problemas, apenas o sonho de voar.  

As primeiras investigações à queda do airbus nos Alpes, verificada 40 minutos depois de levantar voo de Barcelona, indicam que teve a "intenção de destruir o avião". Todavia, não se apurou ainda o porquê dessa intenção. No caso do piloto da LAM, a conclusão foi a mesma, mas acabaram por surgir explicações.  

Santos Fernandes, moçambicano de 49 anos, tido por pessoa serena, tinha 9053 horas de voo, 1395 das quais como comandante de aviões, revalidara a sua licença a 12 de abril de 2012 e fora considerado apto numa inspeção médica, no dia 2 do mês de setembro de 2013.   

Soube-se depois que Santos Fernandes atravessava um período de depressão causado pelo suicídio de um filho um ano antes e pelo consequente divórcio, concretizado na altura em que terá feito despenhar na Namíbia o Embraer, avião relativamente novo.  

Nada justifica o ato de Santos Fernandes, que terá sido uma vontade suicida em que arrastou mais 32 pessoas, mas a mente humana pode ser incontrolável. No caso do copiloto alemão, desconhece-se ainda se este teria as razões que a razão desconhece para provocar a sua morte e a de mais 149 pessoas.  

Três casos no século passado  

Estes dois casos - o da LAM e da Germanwings -, em que terá havido uma intenção declarada de destruir o avião, fossem quais fossem as razões - depressão ou instinto assassino - fazem lembrar acidentes ocorridos com aviões das companhias de Marrocos e de Singapura, na década de 90 do século passado.  

Em 1994, o piloto Younes Khayati, de 32 anos, fez deliberadamente cair o avião da Royal Air Maroc, o voo 630, que descolara de Agadir dez minutos antes, com destino a Casablanca. Morreram 44 pessoas.  

As conclusões sobre o acidente de um boeing que se despenhou em 1997 quando voava de Jakarta, na Indonésia, para Singapura, provocando a morte a 104 pessoas, não foram tão taxativas, mas ficou sempre a dúvida quanto aos atos do piloto Tsu Way Ming, de 41 anos.  

Há ainda um outro caso, registado em 1999, com um avião das linhas aéreas egípcias que se despenhou ao largo de Nova Iorque. As investigações também apontaram para uma vontade deliberada do piloto Gamil el-Batouty, que provocou a morte de 217 pessoas.

 

[artigo atualizado às 12h13 de 27-03-2015: idade do copiloto corrigida de 28 anos para 27 anos]