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Perguntas e respostas a propósito de uma tragédia. E as explicações possíveis

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FOTO REUTERS

Jaime Prieto, piloto e ex-presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, esclarece algumas dúvidas levantadas pela queda do A320 da Germanwings. E garante que as regras e filtros de segurança na aviação são mais eficazes do que noutros sectores. "Dado que temos que trabalhar em grupo, está no nosso ADN reportar ao máximo os riscos, seja de colegas ou do equipamento. Mas a condição humana falha pontualmente."

Depois de o procurador de Marselha ter revelado esta quinta-feira que o copiloto do Airbus A320 da GermanWings, Andreas Lubitz, provocou intencionalmente a queda do aparelho e de ter sido divulgado que o jovem alemão terá interrompido há seis anos a sua formação na sequência de uma crise nervosa, são muitas as questões por responder. Como é feita a avaliação da condição psicológica dos pilotos em funções? Como é possível um piloto ter a entrada bloqueada no cockpit? O que se deve fazer para que isto não volte a a acontecer?

Relativamente à primeira questão, e tal como já tinha referido o CEO da Lufthansa, Carsten Spohr, não está mesmo prevista a realização de testes psicológicos durante a carreira dos pilotos, explica ao Expresso Jaime Prieto, piloto e ex-presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC). "Na admissão, praticamente todas as companhias aéreas relevantes têm exames psicotécnicos para os pilotos. Muitas vezes têm a duração de três dias. No entanto, depois de se ingressar na profissão não há qualquer regra. Existem testes de condição física para pilotos com maior regularidade em função da idade, mas os testes psicotécnicos não estão estipulados. Não há regulamentação internacional a esse nível."

Jaime Prieto sublinha, contudo, que a "aviação é talvez o meio mais filtrado", tendo os pilotos ao seu dispor a ferramenta CRM (Crew Resource Management), que serve para melhorar as sinergias entre todos os membros. "Um cockpit fechado obriga-nos a uma interação tão próxima, com regras e filtros de segurança, tornando mais fácil do que noutras profissões detetar as falhas técnicas e humanas. Dado que temos que trabalhar em grupo, está no nosso ADN reportar ao máximo os riscos, seja de colegas ou do equipamento. Mas a condição humana falha pontualmente."

Uma tendência que se inverteu

No que diz respeito aos tripulantes, o piloto português explica que o seu número é selecionado em função da duração do voo e das horas de aterragem, sendo que em viagens de médio curso como a do avião sinistrado - entre Barcelona e Düsseldorf - é normal haver só dois pilotos, não sendo de estranhar que um deles se pudesse ausentar por momentos do cockpit. "No longo curso é que pode ser necessário mais um ou dois pilotos", esclarece.

Também a redução dos tripulantes de cabina, uma tendência dos últimos 20 anos face à redução de custos, coloca alguns riscos ao nível da segurança, na opinião de Jaime Prieto. "As instituições têm as bases técnicas para defender as suas teses, mas são muitas vezes questionáveis, como neste caso."  

Para Jaime Prieto, a entidade europeia responsável pelo sector deliberou "lamentavelmente" nos últimos anos regras menos restritivas que os próprios Estados Unidos relativamente aos limites de horas de voo. "Inverteu-se a tendência dos EUA, que sempre foi mais liberal a este nível, depois das investigações aos acidentes mais recentes terem acusado fadiga aos pilotos."

Lembrando que após o 11 de Setembro se assistiu a um reforço das medidas de segurança, o piloto português refere que quando é selecionada a opção "bloqueada" do lado de dentro da cabine de pilotagem, não é possível ninguém aceder ao cockpit, mesmo com código.



"É prematuro fazer julgamentos"

Ainda que defenda que é "prematuro" retirarem-se conclusões sobre o caso do avião da Germanwings, Jaime Prieto considera que a responsabilidade máxima está do lado do piloto, em circunstâncias normais. "O piloto tem a possibilidade de alterar e condicionar a rota do avião. Está nas suas mãos a capacidade deliberatória. Neste caso, tratou-se de uma situação enviesada e anómala."

Questionado sobre o facto de algumas companhia aéreas quererem, a partir de agora, aumentar o número de tripulantes no cockpit, Jaime Prieto contextualiza a medida. Refere que as companhias têm isso como recomendação, mas às vezes cria-se elasticidade.  Ou seja, aquilo que estava na legislação como recomendação "vai passar a imposição", defende o piloto.

"Com esta medida vamos apenas apertar a malha da rede. O caso tem que ser estudado com calma e assertividade. Estão a fazer-se já julgamentos sem relatórios preliminares e finais, o que está errado", acrescenta.

Embora concorde com a necessidade de se tomarem mais medidas de precaução, Jaime Prieto garante que não há razões para alarme, até porque o avião continua a ser a "forma de transporte mais segura do mundo".