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Os três graus do rapto em Sydney: revolucionários, fraquezas e controvérsias

FOTO EPA

Aconteceu antes das 00h00 em Lisboa: um homem armado fez 40 reféns num café no centro da cidade mais populosa da Austrália. Foi vista uma bandeira islâmica no interior. 

Para Miguel Monjardino, professor e especialista em relações internacionais, há ainda demasiados aspetos a desvendar para se perceber o contexto e o alcance do sequestro em Sydney. "Não sabemos o porquê, nem quais são os objetivos políticos deste assalto. Mas sabemos todavia que as autoridades religiosas muçulmanas na Austrália condenaram de forma inequívoca este ato. A bandeira que está na janela do café não é a bandeira do exército Islâmico do Iraque e do Levante, mas uma bandeira negra que costuma estar associada à utopia do segundo califado. Portanto, quem levou a cabo este assalto quer no mínimo mostrar a sua ligação ao Islão", afirma ao Expresso Miguel Monjardino.

De acordo com o especialista, este episódio chamou a atenção para três questões: em primeiro lugar, lembra a importância da operação antiterrorista em Sydney e no leste da Austrália. "Há muitos partidários dos revolucionários sunitas na Austrália. Cerca de 100 estão a combater na Síria e no Iraque e um número parecido tem o seu passaporte confiscado pelo estado australiano."

Em segundo lugar, surge na sequência de um apelo recente do exército do Estado Islâmico, que na semana passada pediu para que os seus seguidores atacassem alvos nas democracias europeias e em países como a Austrália, mas demonstra a ineficácia das suas ações.

"Este assalto é a prova da fraqueza deste grupo. Ao contrário da Al-Qaeda no final dos anos 90 - e, por exemplo, a 11 de Setembro de 2001 -, o Exército do Estado Islâmico não sabe ou tem capacidade para atacar alvos fora do Iraque e da Síria", defende Monjardino.

Por último, caso se confirme que o assalto ao café em Sydney foi um ato terrorista, haverá "muito menos resistência política" à legislação antiterrorista proposta pelo governo do primeiro-ministro australiano, Tony Abbott.

"Esta legislação é muito controversa em termos de direitos, liberdades e garantias e também em termos do trabalho dos meios de comunicação social neste tipo de situações", explica Monjardino.   

E outubro, o governo australiano anunciou que iria endurecer as leis antiterroristas, face ao receio do regresso de jihadistas da Síria e do Iraque. As medidas incluem a proibição de viagens para países considerados centros de terrorismo internacional, sob risco de os cidadãos que desrespeitarem a lei serem condenados a 10 anos de prisão, além de deportações e retirada de passaportes. Quem incentivar o terrorismo poderá ser punido com cinco anos de prisão, enquanto os jornalistas  poderão ser condenados a 10 anos de prisão se revelarem dados sobre operações confidenciais.

Recorde-se que a Austrália foi um dos primeiros países a aderir à coligação internacional contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante liderada pelos EUA. 



Pelas 9h30 locais (22h30 de domingo em Portugal), um homem entrou no café Lindt, no centro de Sidney, fazendo cerca de 40 reféns (30 clientes e 10 funcionários) e levantando uma bandeira islâmica. Entretanto, cinco deles já conseguiram sair do café.