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Internacional

Odessa expectante em dia de votos na Crimeia

Milhares de pessoas na rua em Odessa

Paulo Nunes dos Santos

No dia em que decorre o polémico referendo na Crimeia, em Odessa vive-se um clima de tensão, com opositores ao novo regime de Kiev a planear uma aproximação a Moscovo.

Paulo Nunes dos Santos, enviado a Odessa

No átrio da catedral Spaso-Preobrazhensky no centro de Odessa, Oksana Leontieva conversa com um grupo de amigas após terminada a missa dominical. O assunto do dia é o referendo que horas antes teve início na península da Crimeia. "É óbvio que perdemos a Crimeia," afirma Oksana.

"Este referendo é uma fantochada orquestrada por Putin. Como pode alguém considerar um voto como democrático, quando a população vai às urnas debaixo de intimidação de homens armados ao serviço de um país ocupante, para escolher entre duas opções que significam exactamente o mesmo", questiona, ao apontar o facto de que o milhão e meio de eleitores na Crimeia estarem a escolher entre a integração na Federação Russa e uma autonomia mais alargada em relação a Kiev que eventualmente ditará a separação da Ucrânia. Um referendo considerado ilegal pelo novo governo em Kiev, pela União Europeia e pelos EUA.

A centenas de metros, junto à estátua do Duque de Richelieu, o histórico governador de Odessa e descendente do famoso Cardeal Richelieu de França, dezenas de homens do movimento anti-Rússia munidos de bastões e escudo, envergam bandeiras da Ucrânia.

"Tememos que Odessa seja o próximo alvo no plano imperialista de Putin"

Estão a organizar-se em grupos de auto-defesa para a eventualidade de uma escalada de violência nas horas a que seguem. "Temos de estar atentos. A Rússia tem apoiantes na cidade e tememos que Odessa seja o próximo alvo no plano imperialista de Putin", afirma Dimitri, um dos lideres no local, que assegura estarem preparados para uma invasão a qualquer momento.

"Não temos as armas nem o poder militar da Rússia. Mas temos determinação suficiente para não permitir que nos tornemos em marionetas desse louco", afirma.

Na noite de sábado, o mesmo grupo teria decidido não organizar qualquer manifestação nas ruas da cidade para que assim não se desse azo a provocações e confrontos com elementos que apoiam o regime de Moscovo. Uma resposta ao apelo do governador de Odessa, que tinha pedido à população para evitar sair de casa ou participar em qualquer acto de provocação.

"Tínhamos a intenção de não vir para a rua, mas quando soubemos da noticia de que tropas Russas tinham tomado de assalto Strilkove, achamos melhor estar de prevenção", explica Dimitri. Strilkove, uma vila produtora de gás junto à fronteira com a Crimeia, na região de Kherson, terá sido tomada de assalto por cerca de 120 militares de Moscovo, numa acção que marca a primeira incursão em território Ucraniano, desde a inicio da crise no país.

"O povo tem o direito de poder decidir em que estado querem viver"

Do outro lado da cidade, na praça Kulikovo Pole, centenas de militantes pró-Rússia começam a concentrar-se em volta de um palco improvisado. Está prestes a dar-se início uma marcha de apoio ao referendo na Crimeia e à intervenção Russa na região.

"Nunca nos envolvemos em qualquer tipo de provocação e não temos qualquer intenção de o fazer agora", afirma Rostislav Barda, um dos líderes da organização Alternativa Popular. "Queremos apenas dar voz à nossa posição e exigir que se faça também na região de Odessa, de forma pacífica, um referendo similar ao da Crimeia", explica Rostislav enquanto distribui panfletos para recolher assinaturas para a proposta de referendo a apresentar no governo regional dentro de dias.

"O povo tem o direito de poder decidir em que estado quer viver. E o que nós queremos, é um estado federal onde o russo seria a segunda língua oficial e onde a Ucrânia incorporaria ou a união aduaneira da Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão, ou a União Europeia", elabora o líder.

Rostislava afirma não estarem isolados no que diz respeito a esta ideia. "Gente em Nikolayev, Kherson e outras regiões a sul e leste do país partilham connosco o mesmo objectivo". Rostislav explica ainda que após a mudança de poder em Kiev, ativistas como ele têm sido detidos e interrogados por agentes dos serviços secretos, que os acusam de serem elementos destabilizadores e responsáveis pela frágil situação em que o país se encontra.

Placares com imagens do holocausto lado a lado com fotografias de Adolf Hitler

No palco discursa agora outro líder do movimento. A praça está já repleta de gente de todas a idades que, entre bandeiras de Odessa, desfraldam também símbolos do partido comunista, lenços com cores da Crimeia e bandeiras de Israel. A ideia de que o novo poder em Kiev está nas mãos de grupos fascistas e nazis, tem servido de elemento de propaganda para os movimentos que apoiam as acções de Moscovo, e que tentam ganhar a simpatia da comunidade judaica do país.

Placares com imagens de referência ao holocausto estão expostos lado a lado com fotografias de Adolf Hitler e Arseniy P. Yatsenyuk, o atual primeiro-ministro do país. Santuários adornados com fotografias e emblemas de elementos da Berkut - tropa especial fiel ao ex-presidente Viktor Yanukovych, que perderam a vida nos cerca de três meses de confrontos nas ruas de Kiev, são cuidadosamente mantidos por gente que religiosamente presta homenagem aos heróis caídos ao defender o regime deposto.

A trupe, que agora chega aos dois mil, resolve manter-se em Kulikovo Pole até que o resultado do referendo da região vizinha seja anunciado. Aí, dizem, irão marchar pelas ruas da cidade em celebração. Jovens em fardas militares e armados com bastões, posicionam-se no perímetro da praça para garantir a segurança. São eles que ir?o liderar a marcha e afirmam estar preparados para o que de pior possa acontecer na madrugada de um dos dias mais tensos da bela cidade banhada pelo emblemático Mar Negro.

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