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O meu amigo Jim

Jim Foley filma o ataque dos rebeldes líbios a Sirte, em 5 de outubro de 2011

John Cantlie / Getty Images

O jornalista norte-americano executado por jihadistas recordado por um colaborador do Expresso.

"Bro, estás bem? Tenho tudo filmado", diz-me num forte sotaque americano um jovem alto de ombros largos e com um sorriso misto de excitação e alegria. Momentos antes tinha estado, juntamente com quatro colegas e um ex-professor de inglês que dias antes se tornara rebelde, debaixo da mira de um atirador furtivo. Durante cerca de 15 minutos o rebelde insistiu em disparar na nossa direção. Deitados juntos a um muro alto, protegidos apenas pela escuridão da noite, as balas iam embatendo na muralha de betão que nos servia de alcova. Por fim, um grupo de revolucionários armados chega em nosso auxílio e, entre tiros e explosões, conseguimos correr para o edifício mais próximo.

Estávamos no hotel África, uma pensão bafienta e maltratada pelo tempo, bem no centro de Bengasi, na Líbia, que, durante meses, serviu de casa a muitos jornalistas independentes sem meios para se hospedarem nos hotéis luxuosos da cidade. Estes eram então o centro nevrálgico dos grandes media internacionais a operar com orçamentos quase milionários.

James Foley, o tal jovem americano alto cujo sorriso nos trouxe milagrosamente tranquilidade, apressou-se a tirar do bolso da camisa um pacote amachucado de cigarros que ofereceu. "Trouxe estes dos Estados Unidos", disse com prazer. Os cigarros que se compram na Líbia têm um sabor horrível a alcatrão, e Jim (para os amigos) sabia que os seus seriam aceites com agrado.  

Ouviam-se ainda os tiros lá fora quando Jim mostrou o vídeo por editar, que tinha corajosamente captado, deitado no chão da varanda do quarto que partilhava com outro repórter. O vídeo do nosso encontro com o atirador furtivo. Eram imagens de pôr os nervos em franja, que serviram para interiorizar que Bengasi já não era seguro, que estávamos numa zona guerra. Estava a começar uma revolução que rapidamente atraía um enorme número de jornalistas. Repórteres experientes, em início de carreira, e até 'turistas de guerra' chegavam às dezenas todos os dias. 

No parque de estacionamento à frente do hotel África juntavam-se bem cedo pela manhã os que ali pernoitavam. Era lá que negociávamos e partilhávamos transporte para a frente de combate. Até então, eu tinha por hábito trabalhar sozinho. Sempre achei que era mais fácil ter acesso às histórias que ia escrevendo e fotografando. Mas a revolução na Líbia era diferente. Quer por motivos de segurança, por partilha de informação ou por questões monetárias, era importante trabalhar em grupo. 

Partilhar histórias 

Nas numerosas viagens que fiz ao longo de semanas à frente nunca partilhei o carro com Jim. Tinha já dois ou três colegas com quem tinha estabelecido um grupo de trabalho regular, e é regra número um nunca viajar em grupos numerosos em zonas de conflito. Mas encontrava-me todos os dias com ele. De manhã, para trocar informações sobre os planos antes de seguir viagem. Durante o dia, nas dunas que separavam as forças leais ao regime de Kadhafi dos rebeldes. E, à noite, partilhávamos histórias e o ocasional frango assado, que era a única refeição diária que muitos de nós podiam comer. Nesses momentos tornámo-nos amigos. 

Quando deixei Bengasi pela primeira vez, o Jim ficou. Tinha intenção de documentar toda a revolução, durasse ela o tempo que durasse. Era importante, dizia: "Temos de dar voz a esta gente. Temos de mostrar ao mundo o que este regime cruel está a fazer ao seu próprio povo", relembro ouvir da boca de Jim num dos últimos jantares juntos. Era esta a sua motivação para ir aonde as guerras faziam sofrer gente inocente. Não era o "gosto" pela adrenalina nem viver no limite que o levavam a correr riscos.  

Dois dias após ter deixado a Líbia, Jim, com outros três colegas, entre os quais e fotógrafo espanhol vencedor do Pulitzer, Manu Brabo - um companheiro com quem continuo a partilhar viagens -, foi detido pelas tropas leais a Kadhafi. Foram surpreendidos por uma coluna militar que avançava sobre Ajdabiah. À detenção, na qual morreu o fotógrafo britânico Anton Hammerl, seguiram-se 44 dias numa das prisões mais temidas de Tripoli.  

Manu, que partilhou a cela com Jim durante o mês e meio de detenção, contou-me que foi ele quem manteve a sanidade e o espírito do grupo em alta. "Ele nunca há de permitir que o quebrem, que lhe tirem a esperança", explicou-me Manu recentemente, numa conversa em que trocámos a escassa informação que tínhamos sobre o rapto de Jim no norte da Síria, por um grupo terrorista e criminoso conhecido por ISIS. 

A última vez que o vi foi na Líbia. Pouco mais de uma semana depois de ter sido libertado e dias após as forças rebeldes terem tomado Tripoli. Eu terminava uma viagem de mais de um mês e, a caminho da fronteira com a Tunísia, parei em Zintan para recolher um saco que tinha lá deixado semanas antes. Fiquei surpreendido ao ver Jim deitado no sofá do escritório da central elétrica da cidade. Ainda a sua libertação era notícia e ele já estava a caminho do lugar onde tinha estado preso para contar a história sobre prisioneiros políticos que conheceu durante a sua detenção. Aproveitei as poucas horas juntos para ouvir o que tinha para contar dos momentos difíceis que passou. Antes de partir, disse-lhe que o admirava pela determinação de voltar a Tripoli.  

Nunca mais tive o prazer de estar com ele, mas continuámos em contacto. Trocámos mensagens e e-mails sobre planos de viagem. Partilhámos contactos de gente ligada à revolução síria e informações de como entrar e trabalhar em Alepo e Idlib, o local onde, em novembro de 2012, ele acabaria por ser raptado.

Semanas antes desse fatídico dia, respondi a uma mensagem que ele me tinha enviado. Disse-lhe, sabendo que ele não mudaria de ideias, que evitasse reentrar no país. Ou que, se o fizesse, fosse por outra zona fronteiriça onde era ainda possível evitar os postos de controlo do ISIS. Ele respondeu que não me preocupasse e garantiu que tudo correria bem. 

Quase dois anos passaram sem um dia em que não pensasse no Jim. Tinha a certeza de que a qualquer momento iria receber a notícia de que estava livre. Outro amigo, o fotógrafo espanhol Ricardo García Vilanova, também ele raptado pelo mesmo grupo, foi libertado há uns meses após o Governo espanhol ter pago um resgate. A libertação de Ricardo deu-nos esperança, mas esta semana todas essas esperanças caíram por terra. Jim foi assassinado por uns psicopatas cobardes, de uma forma cruel e bárbara.

A imagem do meu amigo vestido com uma túnica cor de laranja, de joelhos no chão a falar para a câmara minutos antes de ser degolado, vai ficar-me gravada para sempre. E isso dá-me raiva, uma raiva que nunca desejei sentir. 

Não vi o vídeo. Tive-o aberto no ecrã do computador desde o momento em que, na madrugada de quarta-feira, fui acordado por um telefonema a contar-me o sucedido. Mas não tenho coragem de ver o amigo com quem partilhei tão bons momentos ser humilhado por um criminoso que perdeu o sentido de humanidade. 

A imagem do Jim de joelhos e de túnica cor de laranja atormenta-me o pensamento. Estou certo de que na minha memória, e na de tantos outros que tiveram o privilégio de o conhecer, há de ficar para a eternidade a imagem de um ser humano gentil e feliz que durante a sua breve vida tornou este mundo um lugar melhor.

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de agosto de 2014