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O manifesto de Bilardi, que aos 18 anos quis morrer pelo Estado Islâmico

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FOTO DR/Captura de ecrã do site da ABC

Jake Bilardi, que se juntou recentemente ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh), terá morrido na quarta-feira num ataque suicida na cidade de Ramadi, no Iraque. Deixou um manifesto onde explica todo o processo de radicalização. "Há quatro anos foi o momento em que percebi que a violenta revolução global era necessária para pôr fim ao sistema de governança mundial e que provavelmente teria que morrer para cumprir esse desígnio."

Quando era criança sonhava ser jornalista de política internacional e pisar palcos de guerra como o Iraque ou a Síria, mas mal sabia que acabaria por concretizar esse desejo em moldes substancialmente diferentes. Em agosto, Jake Bilardi, ou melhor, Abdullah al-Australi, como era conhecido - segundo o seu nome de guerra -, um jovem australiano de 18 anos, chegou à cidade de Jarablus, na província de Aleppo, para ser combatente do Daesh.

"No momento em que entrei na cidade de Jarablus, na província de Aleppo, senti uma alegria que nunca tinha sentido assim que vi a bandeira da Unidade", relatou Jake Bilardi num manifesto de 4300 palavras, citado pelo site da ABC australiana.

Descrevendo-se como um jovem que era bom aluno e ateu, Jake Bilardi refere que inconscientemente se preparava em Melbourne para ser um soldado do califado disponível para "sacrificar a sua vida pelo Islão". Depois dos ataques de 11 de setembro, quando tinha cinco anos, o jovem australiano explica que começou a interessar-se por investigar os temas relacionados com a ocupação do Iraque, tendo despertado a partir dessa altura o "ódio pelos EUA e pelos seus aliados", incluindo a Austrália.

"Há cerca de seis anos, as minhas visões poderiam ser consideradas pelo Governo australiano como extremas, classificando-me 'islâmico radical', embora eu achasse que ainda continuava ateu. É um pouco confuso, eu sei", acrescentou Jake Bilardi, explicando o processo crescente de fascínio pelo mundo islâmico.  

Conflito na Síria acelerou radicalização

Foi no início da guerra civil na Síria, há quatro anos, que a visão de Jake Bilardi se tornou mais radical, conforme sugere no manifesto: "Há quatro anos foi o momento em que percebi que a violenta revolução global era necessária para pôr fim ao sistema de governança mundial e que provavelmente teria que morrer para cumprir esse desígnio".

Mas foi aos 16 anos, que o estudante australiano se assumiu convertido ao Islão, começando a frequentar as mesquitas nos subúrbios de Melbourne, tendo começado a pensar até em perpetrar ataques à bomba na cidade em consulados estrangeiros e outros edifícios públicos.



Após horas e horas de investigação, Jake Bilardi disse que começou a pensar em cruzar a fronteira da Turquia com destino à Síria, sem ajuda, até que estabeleceu um contacto online com um jiadista que se propôs a ajudá-lo. "Era uma decisão arriscada confiar em alguém que não conhecia através da internet, mas eu acreditei que o irmão era genuíno", frisou.

Primeiro ataque suicida sem sucesso

Quando chegou ao Iraque foi  levado para Baiji, na província de Salaheddine, tendo treinado durante 30 dias em Baiji antes de levar a cabo um ataque suicida sem sucesso. "Depois de verificar os erros cometidos, dediquei-me a combater mais na cidade antes de mais uma vez me alistar noutra operação suicida de martírio, à cidade de Ramadi, na província de Anbar", prosseguiu.



As últimas palavras do manifesto parecem uma despedida antes de ter perpetrado o ataque suicida com uma carrinha com explosivos contra edifícios governamentais na cidade de Ramadi, situada a cerca de 90km de Bagdade.

"Acredito que sempre estive destinado a encontrar-me aqui, como soldado no exército do Shaykh Abu Musab al-Zarqawi [que Alá tenha misericórdia], tendo em conta o enorme respeito que tinha por ele mesmo antes de entrar no Islão. E é aqui que hoje aguardo pela da minha vez para me apresentar a Alá e poder sentar-me entre os melhores da sua criação no paraíso, cujo tamanho é maior do que o céu e a Terra", rematou. 



Segundo a imprensa australiana, alguns materiais explosivos terão sido encontrados na casa de Jake Bilardi, em Melbourne, antes de partir para a Síria.

Morte da mãe terá influenciado o jovem

Jamie Kassan, um colega do jovem da escola secundária de Craigieburn Secondary disse que Jake era "um bom rapaz", mas que depois da morte da mãe ficou deprimido e afastou-se dos colegas. "Ele passou a olhar para o Islão depois de a mãe ter morrido há dois anos, penso que foi essa a causa da radicalização", afirmou o colega citado pelo jornal "The Sidney Morning Herald".

Apesar do Daesh identificar Bilardi como um dos mártires do ataque em Ramadi, que provocou 10 mortos e 30 feridos, as autoridades do Iraque ainda não confirmaram que o cidadão australiano se encontra entre as vítimas.



Também o Governo australiano salientou que é impossível para já confirmar a morte de Jake Bilardi. "Trata-se de uma situação horrífica. Esta morte, a confirmar-se, deve impressionar os mais jovens. É muito importante que façamos tudo para salvaguardar os jovens deste choque, mantendo-os alheios desta ideologia extrema", afirmou o primeiro-ministro  Tony Abbott.  

A Austrália integra a coligação internacional contra o Daesh, que é liderada pelos EUA, e da qual fazem parte também países como França, Portugal, Holanda, Alemanha, e Dinamarca.