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O espião que não veio do frio mas da Al-Qaeda. "Se queres apanhar ratos, tens de te meter no esgoto e sujar-te"

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"Eu era um nerd vindo da Arábia Saudita e, de repente, encontro-me a cambalhotar pelas montanhas da Bósnia com uma AK-47 que me fez sentir poderoso", declara Aimen Dean na entrevista à BBC, intitulada "O espião que veio da Al-Qaeda".

Captura de ecrã

Um juramento feito a Osama bin Laden foi o suficiente para Aimen Dean pertencer à Al-Qaeda e treinar novos militantes para servirem o Islão. Quatro anos depois, um ataque terrorista levou-o a abandonar o Afeganistão, numa viagem sem aparente retorno. Mas voltou, e logo como espião dos serviços de espionagem britânicos. Em entrevista à BBC, Dean fala sobre os anos em que foi militante islâmico e espião.

Aimen Dean (pseudónimo) era apenas um adolescente quando decidiu juntar-se à Al-Qaeda. Durante quatro anos e dois meses pertenceu a este grupo terrorista islâmico. Em 1998, porém, assistiu de perto a um ataque do grupo nas embaixadas norte-americanas, em Nairobi e Dar es Salaam, que tirou a vida a 240 civis e feriu outros cinco mil. As mortes dos inocentes bastaram para Dean decidir abandonar a Al-Qaeda e procurar ajuda psiquiátrica. Mas acabou por se cruzar com o Serviço de Informação britânico (MI6) e tornou-se num espião.

A verdadeira identidade de Aimen Dean é desconhecida, mas a forma como se tornou num militante não. Foi criado na Arábia Saudita, onde a ocupação soviética no Afeganistão no final dos anos 80 tornou o conceito Jihad conhecido. Era ainda um adolescente quando a antiga Jugoslávia se separou em várias repúblicas independentes, uma delas a Bósnia. Nessa altura decidiu abandonar a escola e proteger os bósnios muçulmanos dos nacionalistas sérvios e, dessa forma, tornou-se combatente, juntamente com um amigo.

"Eu era um nerd vindo da Arábia Saudita e, de repente, encontro-me a cambalhotar pelas montanhas da Bósnia com uma AK-47 que me fez sentir poderoso. Além disso, eu achava que estava a criar História, em vez de vê-la a passar ao meu lado", declarou Dean em entrevista à BBC, intitulada "O espião que veio da Al-Qaeda".

A guerra terminou e a escola começou

Quando a guerra da Bósnia terminou, Dean e outros camaradas seus desse período achavam que o Ocidente conspirava contra os muçulmanos. Uma ideia que hoje considera "paranóica". Mas, na época, fez da Bósnia a sua escola terrorista.

Enquanto treinava para ser jiadista, houve uma pergunta que o marcou. Estava num casamento, sentado ao lado de Khalid Sheikh Mohamed - que viria a ser acusado de ter planeado o atentado de 11 de setembro de 2001 - que o questionou: "Bom, a guerra da Bósnia está prestes a terminar, mas o que é que vai acontecer depois? Vamos vaguear pelo mundo, de batalha em batalha para salvar a população muçulmana, até vir alguém e roubar-nos esse troféu?".

O que Mohamed queria dizer era que, no futuro, iria existir um governo que não iria servir o Islão e que os jiadistas não podiam permitir que isso acontecesse. Com a pergunta, Dean percebeu que o facto de o grupo ter como objetivo deitar abaixo todos os regimes anti-Islão iria dar início a uma "guerra de terror". Deixariam de ser soldados para se tornarem "terroristas".  

Onde é que isto vai parar?

Dean deu continuidade ao seu treino como militante até ser convidado a deslocar-se ao Afeganistão para fazer um juramento perante Osama bin Laden: "Eu dou-te a minha fidelidade para lutar contigo nos bons e nos maus momentos, para defender a Jihad dos inimigos de Deus e obedecer aos meus comandantes". Estas palavras foram o seu passaporte para se tornar um membro de Al-Qaeda. No Afeganistão, tinha como missão recrutar novos militantes para o grupo - muitos deles vindos do Iémen -, ensinando-lhes o básico sobre a teologia islâmica e o essencial da prática religiosa.

Como teólogo, Dean conheceu muitas pessoas e diferentes processos de radicalização para a Jihad. Alguns membros queriam ser mártires porque estavam cansados da vida que tinham, outros porque pretendiam dar a conhecer o Inferno a "todos os inimigos de Deus". E, em 1998, membros da Al-Qaeda mostraram um pouco desse Inferno aos seus inimigos, quando mataram 240 civis e feriram cinco mil num ataque às embaixadas norte-americanas em Nairobi (Quénia) e Dar es Salaam (Tanzânia).

Foi o princípio do fim. A partir desses ataques, as dúvidas sobre os propósitos da Al-Qaeda começaram a assaltá-lo. "Onde é que isto vai parar?", questionou-se. E pediu a Abdullah al Mohaja, um estudioso islâmico, para "iluminá-lo" sobre as justificações religiosas para atacar o "inimigo" e para o facto desse combate poder trazer "enormes" danos colaterais. A resposta que recebeu foi clara. "Existe uma fatwa (conjunto de normas dadas por um especialista da lei islâmica) que legitimiza atacar o inimigo, mesmo que isso cause a morte de civis, porque o inimigo está a utilizá-los como escudos humanos". 

Quatro anos depois, a espionagem entra na vida de Aimen Dean

A ideia de se reger por uma fatwa que tem mais de 800 anos levou Aimen a sair do Afeganistão para procurar ajuda psiquiátrica no Golfo. O intuito era não voltar mais. Mas um encontro com o MI6 - o serviço secreto britânico - mudou a sua vida. As circunstâncias deste encontro são um segredo e Dean não revelou o porquê de se ter cruzado com o MI6. Referiu apenas que, em 11 dias, tornou-se "outra pessoa" e, em dezembro de 1998, aterrou em Londres para ser interrogado e fornecer informações aos espiões de Sua Majestade.

O interrogatório a que se submeteu durou sete meses e serviu para o MI6 ter uma ideia mais concreta sobre a movimentação e funcionamento dos grupos islâmicos. No final do mesmo, veio o convite: "E que tal voltares ao Afeganistão para fazeres uns trabalhos para nós?" Aimen Dean aceitou.

Em 1999 volta ao Afeganistão, mas desta vez como espião. Começa a passar a Londres todas as informações recolhidas sobre o que estava a ser planeado pelos jiadistas e quem eram os envolvidos. Algo que para ele não era fácil, porque tinha de "reter tudo na memória". "Não podias escrever nada. As informações tinham que ficar todas guardadas na cabeça", relatou à BBC.

No terreno manteve as mesmas rotinas que tinha anteriormente e aprendeu a "jogar" com o grupo terrorista, até porque "se queres apanhar ratos tens de te meter no esgoto e sujar-te". E foi o que Dean fez, disfarçado de teólogo e militante da Al-Qaeda. Muitas vezes deslocava-se ao Reino Unido para manter o seu disfarce e chegou a fornecer recursos materiais a fundamentalistas como Abu Manza - condenado este ano nos Estados Unidos por apoiar o terrorismo.

Dean salvou vidas até ser descoberto

Quando pregava, Dean tinha a noção de que os seus discursos podiam encorajar pessoas a juntarem-se à Jihad, embora não fosse esse o seu verdadeiro objetivo. Era uma situação que ainda agora o deixa com remorsos, por sentir que pode ter  contribuído para a morte de algumas das muitas vítimas dos extremistas islâmicos, ainda que de forma despropositada.

Mas o agora espião ao serviço da rainha Isabel sabia também que salvava vidas, porque conseguiu, em algumas ocasiões, abortar planos de bombistas suicidas. Também informou o MI6 de que Al-Qaeda equacionou em devido tempo lançar um ataque químico no Metro de Nova Iorque, o que acabou por não acontecer. Ayman al-Zawahiri, o atual líder de al-Qaeda, na época desistiu de atacar dessa forma o inimigo. Por um motivo simples: a retaliação ocidental poderia "descontrolar-se".

A vida de espião de Aimen Dean terminou há oito anos, depois de um escritor americano, sem revelar o seu nome, ter divulgado a sua identidade. Não se sabe o que faz de momento.