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O Agente Laranja que quatro décadas não resolveram

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Raparigas vietnamitas dançam durante as celebrações do 40º aniversário do fim da Guerra

LE QUANG NHAT/ EPA

A guerra que dividiu os americanos terminou há 40 anos, num 30 de abril como o desta quinta-feira. Mas há consequências que permanecem.

Uma página da história virou-se há 40 anos quando as tropas do Vietname do Norte entraram em Saigão. As imagens de sul-vietnamitas tentando entrar nos helicópteros que asseguravam a retirada do pessoal norte-americano da embaixada correram o mundo e foram encenadas de forma grandiosa no filme de Michael Cimino "O Caçador".

Desde 1973 que, na sequência dos Acordos de Paris, se iniciara a saída das tropas americanas e a "vietnamização" da guerra. Ainda assim é usual a queda de Saigão marcar o fim da Guerra do Vietname.

Três milhões de vietnamitas e 58 mil soldados norte-americanos morreram durante a Guerra do Vietname, mas as consequências do conflito continuam bem presentes em 2015.

Os vietnamitas sofrem ainda hoje as consequências do efeito do Agente Laranja, uma mistura de herbicidas e desfolhantes que a aviação americana usou na selva da zona norte do país para tirar cobertura à guerrilha e desimpedir o campo de visão dos pilotos que bombardeavam a Pista Ho Chi Minh, rota através do qual o Norte infiltrava pessoal e material no Sul. Deficiências físicas e mentais graves afetaram gerações de vietnamitas e algumas regiões do país mantêm níveis altos de contaminação.

No caso dos norte-americanos, mais que os mortos, mutilados de guerra e vítimas de stresse pós-traumático foram essencialmente os aspectos políticos que marcaram os anos de guerra, com o envolvimento de boa parte da juventude em protestos contra esta aventura militar que, de resto, tiveram repercurssões um pouco por todo o mundo.

Aquilo a que se chama habitualmente Guerra do Vietname é, na verdade, a segunda guerra, já que a primeira opusera as tropas coloniais francesas à guerrilha de inspiração comunista dirigidas, já então por Ho Chi Minh (1950/54).

Após a divisão do país em dois estados, um Norte pró-comunista e um Sul pró-ocidental (1955) a paz não foi duradoura. Por um lado, o Norte apoiaava a guerrilha Vietcong que actuava em território do Sul, por outro o regime do sul era uma ditadura cujos excessos alargavam as fileiras da guerrilha.

Embora de início a presença militar norte-americana fosse residual, aos poucos, sobretudo a partir da adminstração de Lyndon Johnson (1964) assistiu-se à escalada do conflito e envio de centenas de milhar de soldados. Uma das datas de referência para o início da guerra pode ser 1959, quando vietcongues atacaram uma pequena base norte-americana.

No quadro da Guerra Fria Estados Unidos, União Soviética e China Popular confrontaram-se, ainda que Moscovo e Pequim se limitassem ao fornecimento de material de guerra, algum do qual sofisticado.

40 anos a recordar barbaridades

A 30 de abril de 1975 as tropas norte-vietnamitas entram e garantem o controlo de Saigão, capital do Vietname do Sul mas os Estados Unidos já tinham retirado o essencial das suas tropas um ano antes no quadro dos Acordos de Paris.

Reunificado sob regime comunista o vietname viria a caminhar para a reconcliação com os EUA e inclusivamente em 1979 travou uma bem sucedida guerra fronteiriça com a China Popular.

Esta quinta-feira, durante as celebrações, no antigo Palácio Presidencial, em Hanói, o primeiro-ministro vietnamita, Nguyen Tan Dun, citado pela BBC, evocou ações dos Estados Unidos como "crimes bárbaros". "Cometeram inúmeros crimes bárbaros, causaram perda e dor às pessoas e ao nosso país. A nossa terra teve de suportar desafios muito sérios", disse no discurso.

O tempo passou, mas não apagou as memórias. Os países que estiveram envolvidos no conflito convivem calmamente, mas a perspectiva que vietnamitas e norte-americanos têm do pós-guerra é totalmente diferente.

"Enquanto a América continua ocupada com muitas outras guerras, o Vietname já não é um campo de batalha. É um lugar realmente pacífico", diz a fotógrafa Maika Elan, citada pelo "Times".