Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Netanyahu foi ao congresso dos EUA falar da "Guerra dos Tronos". Por causa do Irão

  • 333

O aviso do primeiro-ministro israelita: "Não se deixem enganar, a batalha entre o Irão e o ISIS [autoproclamado Estado Islâmico ou Daesh], não transformam o Irão num amigo da América"

FOTO Win McNamee/Getty Images)

Primeiro-ministro israelita comparou o Irão ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e à Coreia do Norte. Negociar questões nucleares com o Irão "é um muito mau acordo", sustentou. Foi ovacionado 26 vezes.

Raquel Pinto

Raquel Pinto

Jornalista

Num polémico e aguardado discurso no Congresso norte-americano, a convite do republicano John Boehner, presidente da Câmara do Representantes, e sem que a Casa Branca ou os democratas tenham sido previamente consultados, esta terça-feira Benjamin Netanyahu falou à margem de cortesias protocolares. O primeiro-ministro israelita refletiu sobre um Irão que considera ser uma "ameaça à paz à escala mundial" - um país comprometido com um "mortífero jogo de tronos" (a expressão "jogo de tronos" sai diretamente de uma das séries mais populares do momento - "Game of Thrones", "Guerra dos Tronos" em português).

"O regime iraniano é radical como sempre o foi. Não se deixem enganar: a batalha entre o Irão e o Daesh não transforma o Irão num amigo da América", disse o primeiro-ministro israelita. O Irão tem enviado operacionais para o Iraque para combater os rebeldes do Daesh.

Para Netanyahu, "neste mortífero jogo de tronos não existe lugar para a América ou para Israel". "Nem lugar para cristãos, judeus ou muçulmanos, nem direitos para as mulheres, nem liberdade para ninguém. Quando se trata do Irão ou do Daesh, o inimigo do seu inimigo é seu inimigo."

Bastante aplaudido pelos congressistas - foi ovacionado 26 vezes, segundo a Reuters -, o governante israelita agradeceu o esforço e o apoio dos legisladores durante décadas. E, num elogio a Obama, aludiu aos ataques de rockets do Hamas no verão passado, referindo que conseguiram defender-se porque "a cúpula deste Capitólio ajudou a contruir o nosso Iron Dome [cúpula de Ferro]", o sistema de defesa antimísseis israelita.  

Enquanto era ovacionado no congresso, Netanyahu foi alvo de protestos frente ao consuldado de Israel em Nova Iorque

Enquanto era ovacionado no congresso, Netanyahu foi alvo de protestos frente ao consuldado de Israel em Nova Iorque

FOTO Justin Lane/EPA

A sessão contou com muitas cadeiras vazias - um quarto dos parlamentares democratas fez boicote. E em Nova Iorque houve protestos junto ao consulado de Israel com cartazes onde era possível ler "Netanyahu não fala para mim", "Paz com o Irão" ou "Netanyahu não intimida os EUA". A presença de Netanyahu terá irritado Barack Obama, mas o líder israelita defendeu-se na segunda-feira. "Não vim desrespeitar Obama", sublinhou, garantindo que as relações entre os EUA e Israel estão mais fortes do que nunca, ainda que Susan Rice, a conselheira de segurança nacional da administração Obama, tenha alertado para o poder "destrutivo" que o seu discurso teria. Mas trata-se de "uma obrigação moral" falar sobre o assunto, insistiu Netanyahu. Numa tentativa de aliviar a tensão criada com a sua visita a Washington, até irozinou: "Nunca foi escrito tanto sobre um discurso que ainda não foi proferido".  

"Se o Irão quiser ser tratado como um país normal, deve agir como tal" Evitar um acordo de cooperação nuclear entre potências mundiais e o Irão, este é o plano de Netanyahu, que lamentou que a sua viagem tenha sido conotada como política - ainda que seja um líder em deslocação quando faltam duas semanas para as eleições legislativas.

No congresso, Netanyahu argumentou que um "Irão nuclear" colocará em causa a "sobrevivência" de Israel. As negociações nucleares que os EUA querem encetar com o Irão constituem um perigo à paz mundial, afirmou. 

"Não temos que apostar a segurança do mundo na esperança que o Irão mude para melhor. Não temos que brincar com o nosso futuro, nem com o dos nossos filhos", frisou. Sem mencionar o nome de Obama, saiu em defesa de conversações que estejam focadas em três pressupostos: que o Irão pare a "agressão" aos seus vizinhos, que pare de apoiar o terrorismo e que pare de "ameaçar destruir" Israel". "Se o Irão quiser ser tratado como um país normal, deve agir como tal", acrescentou. Na opinião do primeiro-ministo israelita, "este acordo não será um adeus às armas, mas um adeus ao controlo de armas". 

O Irão faz "um bom jogo de esconder e enganar", referiu. Um acordo entre os EUA e os iranianos significará manter o programa nuclear do governo de Teerão "largamente intato", declarou. A consequência? O país terá até mais condições para desenvolver uma bomba atómica. "[Um acordo] não bloqueia o caminho do Irão até à bomba  abre caminho até à bomba", defendeu. "Todos nós devemos unir-nos para parar a marcha de conquista, subjugação e terror do Irão."

Se a conselheira Susan Rice defendeu na reunião anual do Comité de Relações Públicas Americano-Israelita que "um mau acordo com o Irão é melhor do que nenhum" e que não "é realista" impedir a produção nuclear indefinidamente, o primeiro-ministro israelita contrapõe: "Este é um muito mau acordo. Estamos melhor sem ele".

Ao longo do discurso, Netanyahu citou ainda a Coreia do Norte como exemplo do desrespeito pelas sanções para obter armas nucleares.