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Nascido em berço de ouro, popular como primeiro-ministro. Um político de fusão

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FOTO REUTERS

Diz-se por vezes que David Cameron é o Tony Blair do 'Tories', ou conservadores. Embora tenha um governo largamente constituído por gente tão privilegiada como ele, conserva uma imagem estimável junto da opinião pública. Mas isso pode não chegar nas eleições que aí vêm.

Luís M. Faria

Jornalista

No próximo dia 7 de maio, David Cameron apresenta-se de novo às eleições gerais no Reino Unido. Exatamente há cinco anos, foi eleito sem maioria absoluta e teve de negociar com os liberais-democratas de Nick Clegg. Na altura ambos garantiram que a coligação era para durar até ao fim da legislatura, e de facto assim aconteceu, ao contrário do que se tornara hábito no país. Tanto Margaret Thatcher como Tony Blair haviam feito uso da prerrogativa que permite aos primeiros-ministros britânicos convocar eleições antecipadas e ambos conseguiram sempre renovar sempre as suas maiorias absolutas, três para cada um. Mas os tempos mudaram. 

Thatcher era uma força de natureza que irrompeu num cenário político e social de decadência a precisar urgentemente de uma renovação, e que exigia alguém extremamente firme para a lançar e dirigir. Blair foi eleito num momento em que o país estava cansado dos Conservadores, há 17 anos no poder. Trouxe um ar de frescura, com a sua imagem jovem e moderna e com uma ideia - a Terceira Via - que oferecia uma alternativa tanto ao thatcherismo (cuja visão económica em grande parte subscrevia) como ao socialismo tradicional do seu partido (que rejeitava expressamente, usando o termo New Labour para designar aquilo em que tinha transformado o Partido Trabalhista). 

Cameron não beneficiou de nenhuma vaga de fundo semelhante. Sim, em 2010 os trabalhistas já estavam no poder há tempo de mais. Desde 1997, tinham sido 10 anos de Blair e três de Gordon Brown. Mas não houve nenhuma grande esperança de mudança, nenhuma grande visão nova. De certa forma, com o esbater das diferenças ideológicas e a desilusão geral com os políticos devido a uma série de escândalos e à crise financeira que entretanto rebentara, as pessoas tinham-se cansado de política. 

A grande ideia de Cameron foi uma coisa chamada Grande Sociedade, que essencialmente propunha dar às pessoas e às comunidades mais responsabilidade sobre o seu próprio destino. Os cínicos disseram que na realidade se tratava de fazer com que os cidadãos passassem a providenciar a eles próprios uma série de serviços que antes eram fornecidos e pagos pelo Estado. A Grande Sociedade nunca foi levada demasiado a sério. 

FOTO EPA

No clube dos meninos ricos Cameron nasceu em 1966 numa família rica. O seu pai trabalhava na bolsa e a sua mãe era filha de um baronete. Quer de um lado quer do outro da família, existem muitas ligações a famílias ilustres e à nobreza. Criado numa mansão e educado em exclusivas escolas privadas - incluindo Eton, talvez a mais famosa e prestigiada de todas -, estava destinado à partida para uma vida de privilégio. Parece ter sido bom estudante e fez a sua quota de disparates em Oxford, como membro de Bullingdon Club, um grupo de meninos ricos. Já na altura vários professores dizem ter-lhe detetado qualidades salientes. 

O seu primeiro emprego foi na política e aí se manteve até agora, à parte os sete anos que passou como responsável de comunicações numa empresa de televisão privada, a Carlton. Trabalhou no departamento de pesquisas do Partido Conservador e a seguir foi assessor de dois políticos de topo: o chanceler (ministro das finanças) Norman Lamont e o ministro do Interior Michael Howard. Ambos seriam muito importantes para a sua carreira, embora o seu período com Lamont tenha coincidido com um período desastroso para a situação financeira do Reino Unido. O que tanto um como outro ministros terão reconhecido foi o talento de Cameron para os ajudar a conceber e a apresentar publicamente as mensagens que eles queriam passar. 

Inevitavelmente, até por já ter havido parlamentares entre os antepassados de Cameron, ele acabou por decidir tornar-se ele próprio político. Em 1997 candidatou-se a um lugar que devia ser relativamente seguro para os Tories, mas a onda pró-trabalhista desse ano destruiu-lhe as possibilidades, como a muitos outros. Em 2001 teve uma segunda oportunidade e foi eleito. Em 2005 tornou-se líder do partido e portanto da oposição, e em 2010 ganhou as eleições. 

Descrevendo-se como um conservador moderado, foi definindo um conjunto de posições que, tal como as de Blair, fundiam elementos dos programas tradicionais dos dois maiores partidos britânicos. Se em matéria económica é conservador - o seu governo aplicou uma versão rigorosa embora não extrema das políticas de austeridade - em matéria de costumes tem sido liberal. Fez aprovar o casamento gay, por exemplo, contra a oposição de uma boa parte dos seus próprios parlamentares.  E admite implicitamente que consumiu drogas na juventude, embora afirme que se trate de uma questão privada, anterior à sua entrada na política, e com a qual portanto ninguém tem a ver. 

Em assuntos de segurança, interna e externa, tem as posições que se esperariam de um primeiro-ministro que queira manter a sua viabilidade dentro do sistema político-mediático tal como hoje existe. Apoiou o bombardeamento das forças de Kadafi, e quis fazer o mesmo na Síria, mas o parlamento não deixou. Quando há anos eclodiram motins de jovens em Londres, apoiou uma repressão severa, que viu não poucos serem enviados para a cadeia por coisas tão pequenas como roubar uma coca-cola. Na altura houve quem apontasse que Cameron tinha feito bem pior nos seus tempos de membro do Bullingdon Club.   

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Aí como no resto Cameron dificilmente se poderá apresentar como homem do povo. Com a sua origem aristocrática e um património pessoal estimado em (pelo menos) cinco milhões de libras - fora os muitos mais que um dia vai herdar da família - o primeiro-ministro britânico nunca teve de sofrer os tipos de inconveniência que as limitações económicas impõem à generalidade dos britânicos. Claramente, ele não é um cidadão comum, nem alguma vez pretendeu ser. No entanto, tem sabido identificar-se com aspetos de uma alegada essência nacional à qual o eleitorado responde bem. 

Um desses aspetos é a insularidade britânica. Mesmo numa era cada vez mais globalizada, em que as pessoas se habituaram a ver e a contactar diariamente com outros países para os mais variados fins, muitos britânicos estimam aquilo que veem como a natureza especial do seu país. Gostam de pensar que não são como os outros europeus, os do continente. Há décadas que a Europa é o fetiche dos tories, o tema que se vai buscar sempre que é preciso animar os setores mais conservadores do partido ou invocar o fantasma de Margaret Thatcher, que após deixar o poder quase não falava de outra coisa - e embaraçou gravemente vários dos seus sucessores com os seus pronunciamentos na matéria. 

Thatcher, curiosamente, assinou alguns dos acordos que mais contribuíram para aprofundar a União Europeia, em especial o tratado de Maastricht. Experiência muito mais infeliz teve o seu sucessor imediato, John Major, que teve de abandonar o Sistema Monetário Europeu, um protótipo de união monetária europeia, após a queda acentuada da libra em setembro de 1992. Esse acontecimento contribuiu para reforçar a intenção britânica de jamais integrar o sistema do euro, e de recuperar terreno anteriormente perdido. Ao longo dos anos, têm-se tornado mais fortes os apelos para "repatriar" determinados poderes de Bruxelas para Londres; por exemplo, em áreas como a legislação laboral e os direitos humanos. É muito comum, por exemplo, os tabloides britânicos criticarem ferozmente certas decisões do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem. 

Perante a oposição acerba à União Europeia que fazem partidos como o UKIP de Nigel Farage, usando uma plataforma anti-imigrante para canibalizar os votantes conservadores, Cameron prometeu realizar um referendo sobre a permanência na União caso seja reeleito com maioria absoluta. A pergunta será um simples 'sim' ou 'não'. Pela sua parte, ele favorece o sim, desde que a União Europeia aceite reformar em parte as regras que a orientam. Outros países europeus já responderam que não vão abrir um processo de reforma dos tratados só por causa de um país. 

As sondagens têm geralmente dado uma pequena vantagem aos Trabalhistas, mas apresentam Cameron como um líder mais popular do que o seu rival Ed Milliband. Se nenhum dos dois principais partidos puder governar sozinho, como parece provável, é uma incógnita que alianças haverá. Aí como no resto, tudo permanece em aberto.