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Nas aldeias ficam acordados com paus, nos hospitais é com uísque que se desinfeta

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Resgatada de uma aldeia por helicóptero, esta nepalesa segue numa ambulância para o hospital

Getty

São relatos de isolamento, de pilhagens, de constrangimentos e limitações. No Nepal vive-se no limite da dignidade, da segurança, da saúde e da fé. Um dos relatos: "Não temos casa. Não temos filha. É este, a partir de agora, o nosso mundo".

Barkobot desapareceu do mapa. 75 casas destruídas. Inabitáveis. Esta aldeia do distrito de Sindhupalchowk fica a apenas uma hora de carro da capital do Nepal, Katmandu. Mas três dias depois de sido aniquilada por um violento sismo, a ajuda governamental ainda não chegou aqui, conta o "The Guardian".

"Ninguém nos veio ajudar", disse Sangita Giri, um habitante, ao jornalista Pete Pattisson. "Ali está uma criança [enterrada], mas nem o Exército nem a polícia vieram ajudar-nos", acrescentou.

A coberto da noite, conta ainda Sangita Giri, os aldeões deparam-se com pilhagens. "Nem podemos ficar sossegados nos abrigos. Como é que podemos viver assim?", pergunta. "Ficamos acordados toda a noite com paus. O ouro que estou a usar é a única riqueza que possuo. Fico sem nada se mo roubarem."

A descrição que Pattisson enviou esta terça-feira de tarde para o "The Guardian" é bem reveladora do nível de destruição. "Onde em tempos havia casas feitas de pedra e lama existem agora pilhas de entulho. Toda a aldeia vive fora de portas, debaixo de lonas, de chapas metálicas, ou a coberto das árvores".

De visita à aldeia, o jornalista do "The Guardian" falou com a mãe da pequena Muna Puri, de 4 anos. Desaparecida. Brincava na rua quando às 11h26 de sábado, hora local (mais seis em Lisboa), a terra tremeu como há muito não acontecia. "Nem sei onde procurá-la."

À morte da filha soma-se o desespero de quem não sabe como irá pagar o empréstimo de 200 mil rupias (1800 euros), recentemente contraído para pôr de pé a casa que o terramoto derrubou. "Não temos casa. Não temos filha. É este, a partir de agora, o nosso mundo", disse ao repórter o pai de Muni Puri.

Ali perto, Pattisson encontra dois jovens a escavar nos destroços. Dizem que procuram alimentos e roupas. "Não temos nada. Está tudo enterrado."

As notícias dos dias desesperados que se vivem nas aldeias já chegaram a Katmandu. O "The Guardian" divulgou esta terça-feira de tarde uma mensagem de correio eletrónico enviada da capital do Nepal por Tom Greensmith, na qual este cidadão britânico, estudante da cultura e língua tibetana, conta que, "apesar de terem ficado sem nada, os aldeãos entreajudam-se".

Greensmith conta ainda os dias agitados de uma amiga que organiza passeios pelo vale de Yolmo. Apesar de ter apenas o curso de primeiros socorros, está a decidir, como se fosse médica, quem é deverá ser levado para o hospital de helicóptero.

Há hospitais, relata o estudante britânico, onde o uísque está a ser usado para desinfetar ferimentos e onde as vítimas se amontoam nos corredores à espera de serem atendidas. "Muito provavelmente, estas pessoas [médicos e enfermeiros] também perderam as suas casas, mas não desistem", escreve Greensmith, que desde sábado dorme numa tenda de lona, montada num campo de ténis.

"Atrás de mim dorme um rapaz de sete anos, considerado uma reencarnação budista [Tulku]. Todos lhe chamam Yangsi; à minha direita, uma família nepalesa, e à minha esquerda, novos amigos de todo o mundo. Do outro lado da tenda, famílias tibetanas deslocadas, algumas das quais refugiadas pela segunda vez nas suas vidas", revela Tom Greensmith.