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Morreu Hugo Chávez

Hugo Chávez no dia 8 de dezembro de 2012, no Palácio Miraflores, em Caracas

Palácio Miraflores/Reuters

O Presidente da Venezuela morreu terça-feira na sequência de um cancro. Reeleito para um quarto mandato, não resistiu até à tomada de posse, cuja data estava em aberto. O Governo decretou sete dias de luto.

Margarida Mota e Raquel Pinto

É oficial: o Presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de 58 anos, morreu esta terça-feira, às 16h25 hora de Caracas (20h55 em Lisboa), perdendo a batalha contra o cancro. O anúncio foi feito pelo vice-presidente Nicolás Maduro na televisão estatal.

O agravamento do estado de saúde de Chávez já tinha levado o seu braço-direito a dirigir-se hoje à nação, em direto do Palácio Presidencial de Miraflores em Caracas. Num discurso pessimista, Maduro admitiu que o líder venezuelano estava a enfrentrar "complicações", acusou os "inimigos da revolução" de lhe terem provocado a doença, abrindo portas para que o caso possa vir a ser investigado, e revelou ter sido expulso um diplomata dos EUA por alegada conspiração.

Antes de anunciada a morte, os EUA rejeitaram "firmemente" as acusações, através de um comunicado de Patrick Ventrell, porta-voz do departamento de Estado, que considerou "um absurdo" a teoria de uma implicação na doença de Hugo Chávez.

Morte anunciada

Entretanto, o "ABC" noticiou que o falecimento do Presidente terá ocorrido nove horas antes do seu anúncio, isto é, de manhã, cerca das 7h hora de Caracas. Segundo o diário espanhol, o atraso na divulgação do óbito e as primeiras declarações de Nicolás Maduro sobre a condição clínica de Chávez fizeram parte de uma estratégia para desviar as atenções dos media e permitir que o corpo fosse trasladado num avião a partir de Cuba.

"Na noite de segunda-feira, um telefonema alertou o jornal que a família do Presidente tinha concordado que os médicos desistissem de prolongar-lhe a vida. Previa-se, portanto, que nas horas seguintes, se desligasse a assistência artificial que sustinha o paciente. Quando ocorresse a morte, o cadáver seria transportado de Cuba para a Venezuela para anunciar ao povo a morte do Presidente como se tivesse ocorrido no Hospital Militar de Caracas", lê-se no ABC. 

Sete dias de luto nacional

O corpo de Chávez estará a partir desta quarta-feira em câmara ardente na Academia Militar, em Caracas, revelou o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Elías Jaua. O funeral de Estado realiza-se na sexta-feira, mas deconhece-se, para já, o local do enterro. Entretanto, foram decretados sete dias de luto nacional.

Hugo Chávez era o líder mais controverso da América Latina. Chegou ao poder em 1998 e foi reeleito três vezes (2000, 2006 e 2012). De permeio, venceu um referendo que alterou a Constituição, consagrando mandatos presidenciais ilimitados. Hugo Chávez gostava do poder e sonhava não abandona-lo.

A vitória nas presidenciais de 7 de outubro passado, quando a o seu estado de saúde já era mais noticiado do que os seus feitos políticos, possibilitava-lhe uma longevidade política até 2019. Ao seu povo, Chávez pediu mais tempo para concluir a sua revolução socialista.

Chávez subiu ao poder em 1998, apoiado numa plataforma anti-pobreza e anti-corrupção. Ganhou as eleições com 56% dos votos e, no ano seguinte, lançou o Plano Bolívar, para recuperar infraestruturas decadentes e acabar com as privatizações.

Paraquedista golpista

Filho de um humilde casal de professores, Hugo Chávez Frias nasceu a 28 de julho de 1954, em Sabaneta, no estado de Barinas (sudoeste do país), o mais pobre da Venezuela. Era o segundo de seis irmãos. 

Os seus apoiantes diziam que ele era a voz dos pobres. Os críticos acusavam-no de ser crescentemente autocrático e recordavam o seu "modus operandi" anterior à presidência. A 4 de fevereiro de 1992, ele liderara uma tentativa de golpe contra o Presidente Carlos Andres Perez. Chávez tinha 38 anos e era paraquedista.

Entrara para a Academia Militar aos 17 anos e ali se deixara deslumbrar pela figura e pelos ideais de Simon Bolivar, o revolucionário venezuelano que influenciou as independências na América Latina.

Em 1992, Chávez tentara tirar dividendos políticos do descontentamento popular resultante das medidas de austeridade e de repressão adotadas pelo Governo e que desencadearam protestos e distúrbios ("El Caracazo"). Mas o golpe acabaria por falhar.

Passou dois anos na prisão, sendo perdoado e libertado em 1994 pelo então Presidente Rafael Caldera. Em 1997, fundou o Movimento Quinta República, como que preparando a transição da fase de soldado para a fase de político. Um ano depois, era chefe de Estado da Venezuela.

Deposto durante 47 horas

A 11 de abril de 2002, uma tentativa de golpe afastou Chávez do poder durante 47 horas. A manobra foi reconhecida pelos Estados Unidos, o que levou Chávez a acusar Washington de ter orquestrado o golpe.

A relação entre Caracas e Washington era turbulenta. Chávez chamava ao Presidente dos EUA George "Mr. Danger" Bush (George "Sr. Perigo" Bush). Iniciada a guerra no Afeganistão, em 2001, Chávez acusou os EUA de combaterem o terror... com mais terror.

Seguiu-se a guerra no Iraque e Chávez continuou a não poupar Bush. "O Diabo veio cá ontem", disse, benzendo-se de seguida, a 20 de setembro de 2006, na Assembleia Geral da ONU, referindo-se ao discurso, na véspera, do chefe de Estado norte-americano. "Ainda cheira a enxofre."

"Por qué no te callas?"

Inversamente à animosidade com Bush, desenvolveu uma grande proximidade com Fidel Castro, uma espécie de pai político, a quem visitou várias vezes em Havana após "El Comandante" se ter afastado da política ativa por razões de saúde.

De língua afiada, assegurava aos domingos de manhã o programa televisivo "Alô Presidente!", onde discursava, entrevistava, cantava e dançava e respondia a perguntas dos telespetadores.

Tornou-se um fenómeno mediático, inclusive no dia em que ficou sem reação quando Juan Carlos de Espanha lhe atirou na cimeira ibero-americana de 2007, em Santiago do Chile: "Por qué no te callas?".

Quimioterapia em Havana

A 30 de junho de 2011, num discurso à nação, Chávez admitiu pela primeira vez que tinha cancro.

A doença tornou-se um assunto de Estado, as suas aparições públicas começaram a escassear em virtude da degradação do seu estado de saúde e das deslocações a Havana para sessões de quimioterapia. Nas redes sociais, dispararam os rumores. Até ao dia em que a notícia da sua morte foi confirmada.