Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Milhares de pessoas morreram de ébola por os alertas terem sido ignorados

  • 333

Ahmed Jallanzo/EPA

Governos e instituições dos países afetados não partilharam sequer os seus dados mais básicos. A Organização Mundial de Saúde demorou meses a reagir perante os alertas. Muita coisa falhou para que o surto de ébola, declarado há um ano, tenha "entrado numa espiral descontrolada" que causou mais de 10 mil mortos, referem os Médicos Sem Fronteiras.  

Uma "coligação global de inação" levou a que o surto de ébola tenha saído de controle e causado mais de 10 mil mortos nos últimos doze meses, refere um relatório dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgado esta segunda-feira, dia em que se completa um ano sobre o início do surto.   

"Para que o surto de ébóla tenha entrado numa espiral descontrolada foi preciso que muitas instituições tenham falhado. E elas fizeram-no, com trágicas e evitáveis consequências", refere o diretor geral dos MSF, Christopher Stokes, no relatório.   

A MSF lamenta que os seus primeiros avisos de que a situação estava a ficar fora de controle tenham sido considerados alarmistas e que a Organização Mundial de Saúde (OMS) tenha demorado três meses até confirmar o surto, ao que se seguiriam mais cinco meses até declarar uma situação de emergência global, numa altura em que a doença já tinha causado cerca de um milhar de mortos.  

ONU reconhece arrogância e muitos erros

O responsável das Nações Unidas para a missão de resposta ao ébola, Isamail Ould Cheikh Ahmed, reconheceu, em declarações à BBC, que as Nações Unidas cometeram muitos erros e que por vezes agiram de forma "arrogante" nas indicações que forneceram, acrescentando contudo que aprenderam com os seus erros e que preveem que o surto de ébola tenha sido erradicado até ao fim de agosto.

Milhares de vidas podiam ter sido salvas caso tivesse ocorrido uma resposta adequada à situação por parte da comunidades internacional e dos Governos e instituições dos países africanos afetados, indica a MSF.  

"Lembro-me de enfatizar que tínhamos a hipótese de parar a epidemia na Libéria se a ajuda fosse enviada naquela altura", afirmou Marie-Christine Ferir, coordenadora de emergência da instituição.   

"Foi no início do surto e ainda havia tempo. O pedido de ajuda foi ouvido mas não foram tomadas medidas", lembrou.    

Os Governos da Guiné Conacri e da Serra Leoa também começaram por menosprezar a situação epidémica.  Na Serra Leoa os MSF não conseguiram ter acessos aos dados que lhes permitiriam identificar as aldeias afetadas. 

"O ministro da Saúde e os seus parceiros do Hospital Kenema (nos arredores de Freetown) recusaram partilhar os seus dados e a sua lista de contactos connosco, de modo que continuámos a trabalhar às escuras enquanto novos casos continuavam a chegar", afirmou a coordenadora do gabinete de emergência do MSF para a Serra Leoa, Anja Wolz.   

Uma média de um minuto para cada doente

Em fins de agosto os centros médicos tinham atingido o limite das suas capacidades, levando os profissionais de saúde a terem de recusar a assistência a doentes.   

"Tivemos de tomar decisões horríveis quanto a quem deixávamos entrar", disse a coordenadora dos MSF Rosa Crestani. "Nós podíamos apenas oferecer cuidados paliativos muito elementares e havia tantos pacientes e tão poucos funcionários que dava uma média de um minuto para cada doente. Foi um horror indescritível", acrescentou.   

Apesar do número de casos terem vindo a diminuir em 2015, a MSF frisa que o surto ainda não foi erradicado.  Na Libéria, após duas semanas sem a ocorrência de novos casos, uma nova infeção foi detetada na sexta-feira.  A Serra Leoa voltou a efetuar mais uma operação de isolamento das populações durante o passado fim de semana. Na Guiné Conacri regista-se um novo aumento no número de casos, após a diminuição ocorrida na fase inicial do ano. 

Os MSF consideram que as organizações globais de saúde e as organizações de auxílio voluntários precisam de mostrar que aprenderam a lição introduzindo profundas mudanças nos seus padrões de resposta a situações epidémicas.