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"Matei-os a todos, claro", diz multimilionário na TV. E acaba preso por três assassínios

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A confissão de Robert Durst surge no último episódio. Entre uma variedade de sons, ouve-se claramente a voz dele resmungar: "Que diabo fiz eu? Matei-os a todos, claro"

MIKE SEGAR/Reuters

"The Jinx" (A Maldição), o segundo exemplo recente de um documentário que reexamina crimes antigos e tenta chegar a uma solução. No seu caso, com êxito.

Luís M. Faria

Jornalista

Nos programas de televisão, em especial os da chamada 'reality TV', as revelações surgem onde menos se espera. Robert Allen Durst, um multimilionário norte-americano de 71 anos, acaba de ser preso e acusado pelo assassínio de uma amiga em 2001.

Há muito que era suspeito, mas o que finalmente levou as autoridades a ir buscá-lo foi a sua própria admissão, num momento em que se encontrava sozinho numa casa de banho. Sozinho, mas com microfone ligado (e ciente desse facto), pois foi durante a rodagem de um filme sobre a sua vida. O documentário intitula-se "The Jinx" (A Maldição) e passou em seis episódios na HBO. A confissão de Durst surge no último episódio. Entre uma variedade de sons, ouve-se claramente a voz dele resmungar: "Que diabo fiz eu? Matei-os a todos, claro".

Todos, serão as duas pessoas e um homem que tiveram o azar de ver os seus destinos cruzarem-se com o dele. Antes de mais a sua mulher, Kathleen, que desapareceu misteriosamente em 1982, após anos de abuso emocional e físico às suas mãos (eram os anos setenta, explicou ele um dia em tom despreocupado). Kathleen tinha indicado que se queria separar e pedira a vários conhecidos que, se alguma coisa lhe acontecesse, não deixassem o marido ficar impune. Mas como o corpo nunca apareceu, as autoridades nada puderam fazer. Durst tinha bons advogados.

Durante anos, a sombra desse caso pairou sobre ele. Durst era um dos herdeiros de uma fortuna assente num vasto império imobiliário em Nova Iorque. A Durst Corporation, fundada pelo seu avô imigrante, tem mais de dez arranha-céus só em Nova Iorque.

A família vivia em Westchester, uma zona de gente rica a norte da cidade. Robert é o mais velho de três irmãos e estava na calha para suceder ao pai na direção da empresa. Mas durante a juventude começou a dar sinais de um temperamento pouco adequado a responsabilidades tão elevadas. Mergulhou na experimentação dos anos 70, com a sua mistura de droga e de terapias bizarras, mais ou menos espirituais. Terá conhecido John Lennon em sessões de 'grito primordial' ('primal scream'), e a certa altura abriu uma loja de produtos naturais com a estudante de higiene dentária com quem depois casou.

Afastado da empresa familiar O seu pai desaprovava e Durst acabou por se deixar convencer a entrar na empresa da família, onde rapidamente se envolveu em negócios de milhões. Mas mesmo aí havia conflito. A sua relação com o irmão Douglas, um ano mais novo, sempre fora marcada por uma extrema rivalidade, e agora havia um elemento potencial de risco físico. Qualquer dos dois mantinha à mão um objeto para se proteger; no caso de Robert, um desentupidor de canos.

É bastante provável que Douglas considerasse o seu irmão responsável pela morte de Kathleen. Entrevistas que deu posteriormente apontam nesse sentido. Mas o elemento de desequilíbrio em Robert vinha de muito antes. Ele tinha sete anos quando viu a sua mãe cair de um telhado e morrer. Acidente ou suicídio, nunca ficou totalmente esclarecido. Mas Robert passaria anos em terapia, e chegou-se a falar em esquizofrenia.

A primeira vítima do multimilionário terá sido a sua mulher, Kathleen, que desapareceu misteriosamente em 1982, após anos de abuso emocional e físico às mãos de Robert Durst

A primeira vítima do multimilionário terá sido a sua mulher, Kathleen, que desapareceu misteriosamente em 1982, após anos de abuso emocional e físico às mãos de Robert Durst

MIKE SEGAR/Reuters

Certo é que, em meados dos anos 90, Seymour Durst decidiu que afinal o seu sucessor à frente da empresa seria Douglas e não Robert. Este levou a mal a decisão e afastou-se. Em 2000, por qualquer motivo, as autoridades voltaram à carga na investigação do desaparecimento de Kathleen. Abordaram uma amiga e confidente de Robert, Susan Berman, por acaso filha de um gangster ligado ao célebre mafioso Bugsy Siegel. Essa ligação não bastou para proteger Susan, que apareceu executada a tiro pouco depois de ter sido contactada pelas autoridades. Terá sido a segunda das pessoas a quem Durst se referia quando disse a frase que agora o tramou.

A terceira foi Morris Black, um idoso que calhou morar ao lado de Durst numa das fases mais bizarras da sua vida, quando ele foi viver na pequena cidade costeira de Galveston, Texas, numa casa que alugou em nome de uma suposta Dorothy Ciner, surda-muda.

Dorothy, na realidade, era ele próprio. Para dar existência ao personagem fictício, passou a vestir-se de mulher e a usar peruca. Infelizmente, não conseguiu evitar relacionar-se com Black, com quem via televisão e discutia. Um dia Black deixou de ser visto, e pedaços do seu corpo começaram a aparecer na baía. Terá sido a terceira vítima.

Preso por roubar numa loja... com milhares de dólares no carro Durst ainda chegou a ser detido como suspeito desse crime, mas concederam-lhe fiança e ele fugiu. Seria preso semanas depois, na Pensilvânia, quando tentava roubar pensos, uma sandes e um jornal num supermercado. Tinha 500 dólares na sua roupa, e mais 37 mil no carro, além de droga e duas armas.

A polícia encontrou igualmente a carta de condução de Black, o que tornou impossível Durst negar a participação na sua morte. Então adotou uma defesa audaciosa: disse que sim, tinha sido ele a matar o idoso, mas fizera-o em legítima defesa, pois Black ia-o matar a ele. Por incrível que pareça, o tribunal acreditou e absolveu-o.  

Na opinião pública, o caso permaneceu aberto, e isso explica o interesse do realizador Andrew Jarecki, já conhecido por outro documentário que também se ocupava de uma família rica acusada de um crime horrível. Jarecki começou por tratar a história de Durst numa longa-metragem de ficção (com os nomes mudados) intitulada "All Good Things" (Tudo Coisas Boas, ou Todas as Coisas Boas), protagonizada por Ryan Gosling. Ninguém gostou muito do filme, exceto Robert Durst, que falou com Jarecki e se propôs contar-lhe a sua história verdadeira. Donde, o documentário "The Jinx".

Robert Durst só foi preso no passado sábado, em vésperas de passar o último episódio do documentário

Robert Durst só foi preso no passado sábado, em vésperas de passar o último episódio do documentário

MIKE SEGAR/Reuters

Às vezes a realidade, de facto, é mais estranha do que a ficção. E esta, quando se alimenta daquela, perde credibilidade se a realidade tiver um grau de estranheza que a torna inverosímil fora das referências concretas da situação. "The Jinx", muito mais poderoso do que "All Good Things", é o segundo exemplo recente de um documentário que pretende ajudar a resolver um crime. Ao contrário de "Serial", o exemplo anterior, teve sucesso. Embora o advogado de Durst já tenha desvalorizado a confissão, sugerindo que todos nós dizemos disparates quando falamos connosco próprios, é provável que o milionário, no fundo, quisesse finalmente admitir o que fez.

Quanto a saber se a verdade, na forma em que surgiu, pode ser admitida em tribunal, é uma questão diferente. A confissão foi captada há três anos mas os produtores dizem só a ter detetado há meses. Garantem que avisaram logo as autoridades. Durst, porém, só foi preso no passado sábado, em vésperas de passar o último episódio do documentário, onde ele confessa. Porquê? É um mistério adicional a resolver.