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Marta não embarcou no avião. Mas o marido morreu. Ele, dois cantores líricos e mais 147 pessoas

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Depois da queda do avião da Germanwings, foram vários os relatos de passageiros com bilhete marcado para o voo fatídico e que por causas diversas fintaram a morte

PETER KNEFFEL/EPA

A galega Marta Carceller não embarcou por estar no fim da gravidez, mas na Alemanha há uma pequena cidade que está de luto. Vinte dos 67 alemães que morreram na queda do Airbus da Germanwings viviam em Haltern am See: 16 estudantes e quatro professores. Leia as histórias de alguns do que morreram e dos que tiveram a sorte de não embarcar.

Liliana Coelho e Manuela Goucha Soares

No seu perfil no Facebook, Josep Sabaté Casellas tinha uma foto dos três filhos vestidos com roupas de Halloween. Este espanhol nascido em Sabadell trabalhou durante vários anos na Zara e ia ser pai pela quarta vez. A mulher, Marta Carceller, só não embarcou no voo 9525 da Germanwings por causa do seu adiantado estado de gravidez. Foi a sorte dela e dos três filhos do casal, com três, cinco e sete anos, respetivamente.

A bordo estavam também dois cantores de ópera que tinham atuado em "Siegfried" no Teatro Liceu em Barcelona. Oleg Bryjak e Maria Radner, barítono e contralto, respetivamente, trabalharam na produção da ópera "Siegfried", cuja temporada no liceu terminara esta segunda-feira. Maria Radner regressava a Düsseldorf, onde vivia com o filho bebé e o marido. Bryjak planeava regressar a Espanha na próxima temporada para completar o ciclo de óperas de Wagner.

Esta quarta-feira, o Teatro Liceu fará dois minutos de silêncio em homenagem aos dois cantores. A equipa de produção está "devastada".

Ariadna Falguera, mulher do chefe de gabinete do líder parlamentar da Esquerda Revolucionária da Catalunha (ERC), também estava no avião; viajava em trabalho e deixa uma filha. A ERC já suspendeu toda a atividade política e expressou o seu pesar nas redes sociais. A Espanha decretou três dias luto nacional.

Na Alemanha, a dor é imensa. Morreram 67 cidadãos deste país, 16 deles adolescentes. No pátio da escola Joseph-König, na pequena cidade de Haltern am See, há quem chore e há quem tenha apenas o olhar vazio de quem está perdido e assustado. Sente-se o peso do silêncio porque o luto e a dor chegaram ao liceu, frequentado por 14 raparigas, dois rapazes e quatro professores que morreram no voo da Germanwings que fazia a ligação entre Barcelona e Düsseldorf, sem se fazerem anunciar.

O golpe de sorte dos que ficaram em terra

Foi por uma questão de poupança que Rafael Rebello, que devia embarcar na terça-feira rumo a Düsseldorf para uma reunião de trabalho em Colónia, a cerca de 50 quilómetros do aeroporto, decidiu antecipar o encontro e a respetiva viagem. Quando o brasileiro que vive em Barcelona foi pesquisar no site da Germanwings o preço das viagens verificou que as tarifas tinham subido, pelo que não hesitou em pedir para se alterar a data do encontro.

"Ainda estou a tremer. A mulher do meu chefe, que ia comigo também na viagem, já me ligou a agradecer por eu ter alterado a viagem e eu mandei uma mensagem ao alemão com quem nos reunimos por ter aceitado mudar a data da reunião com a frase: 'Você salvou a minha vida'", relatou ao "Globo" Rafael Rebello, que trabalha numa empresa de exportação de chás, em Barcelona.

Já Manuel Blasco pode bem agradecer à mulher por hoje estar vivo. Foi a "teimosia" dela, segundo o próprio, ou melhor, o excesso de zelo que lhe valeu. Em entrevista ao "El Mundo", o espanhol explica que depois ter acordado doente a mulher insistiu para ele alterar a viagem que estava marcada para segunda-feira com destino a  Düsseldorf, onde iria participar na Feira de Alimentação Anuga Food Tech, em Colónia. O objetivo era mudar o voo para esta terça-feira de manhã, mas a mulher de Manuel Blasco aconselhou-o, ou melhor, quase o obrigou a ir descansar para o hotel uma vez que ainda se sentia indisposto.

Outro cidadão espanhol também teve um golpe de sorte ao perder o voo 4U-9525 da Germanwings. Em declarações à BBC, David Cabanes garante sentir uma "mistura de emoções" depois de se ter apercebido da tragédia a que escapou. 

Na Suécia, a equipa de futebol Dalkurd FF Borlange, da terceira divisão, também pode agradecer ao destino. Por não quererem perder tempo numa escala, os elementos da direção optaram em cima da hora, já no aeroporto, por cancelar as viagens que estavam marcadas no voo que haveria mais tarde  de revelar-se fatídifo, e marcaram voos num outro, com paragem em Zurique e Munique, rumo a Estocolmo.

"Em primeiro lugar quisémos acalmar os nossos familiares pelo telefone porque eles estavam  muito preocupados connosco. Não conseguimos sequer imaginar aquilo que as famílias e os entes queridos das vítimas estão neste momento a sentir", afirmou Frank Pettersson, um dos jogadores, citado pela Reuters.  

No total, morreram 72 alemães, 51 espanhóis [dados do Governo espanhol], dois colombianos, dois argentinos, dois mexicanos, dois australianos, um belga, um colombiano, três britânicos, um dinamarquês, um americano, dois iranianos, um israelita, três cazaques, dois japoneses, e às 15h50 de quarta-feira ainda há 7 passageiros cuja nacionalidade é desconhecida, embora se saiba que estavam cidadãos turcos a bordo.