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Marine Le Pen "mata o pai" no momento certo

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Marine le Pen com o pai, Jean-Marie, no congresso da Frente Nacional de Novembro passado

ROBERT PRATTA/REUTERS

Marine le Pen, líder da Frente Nacional, vai finalmente "matar o pai", fundador do partido e referência máxima da extrema-direita francesa, para tentar chegar à Presidência

Desde 2011, ano em que Marine le Pen chegou à liderança da Frente Nacional (FN), sucedendo ao pai, Jean-Marie le Pen, fundador do partido, os jornalistas entram com mais facilidade na sede do partido, que é atualmente em Nanterre, na periferia de Paris.

Em quatro anos, a nova chefe nacionalista francesa fez tudo para "desdiabolizar", moderar, abrir ao exterior e modernizar a FN, tanto nos aspetos formais como nos do discurso, que são sem dúvida diferentes dos do pai, designadamente no que respeita ao revisionismo sobre o nazismo, o colaboracionismo francês, o colonialismo ou a "Argélia francesa". Jean-Marie le Pen, que permanece presidente honorário da FN, era até agora o calcanhar de Aquiles da filha. Desde 2011, ele tentou destruir-lhe a estratégia de moderação com diversas provocações, que ela sempre condenou. Por exemplo, em junho de 2014, quando Marine estava em clara ascensão eleitoral, evocou a necessidade de uma "nova fornada" para responder a críticas contra ele de artistas judeus.

Agora, aos 86 anos, o velho chefe extremista foi muito mais longe - e a filha, que hoje é mesmo elogiada como "irrepreensível" por um líder judeu francês, acha que chegou o momento da rutura política e familiar. Com efeito, quando a FN e a Marine figuram em primeiro lugar nas sondagens das próximas eleições francesas, Jean-Marie le Pen deu uma entrevista sulfurosa a um jornal claramente de extrema-direita ("Rivarol", edição desta quinta-feira), na qual faz um verdadeiro manguito a Marine.

Em defesa do "mundo branco" e da "Argélia francesa"Neste jornal, que habitualmente apenas é lido por extremistas de direita, Jean-Marie le Pen defende as teses históricas com as quais fundou a FN. Diz, por exemplo, que nunca considerou o marechal Pétain (colaboracionista com o nazismo) "como um traidor", que defende uma "Europa boreal e do mundo branco" e que a FN tem de aceitar no seu seio tanto os "pétainistas" como os defensores da "Argélia francesa". Ataca também o atual primeiro-ministro, o franco-espanhol Manuel Valls, por ser um naturalizado, um "francês de 30 anos", um imigrante.

A filha acha que o copo transbordou. Num comunicado, Marine le Pen reagiu evocando uma "crise sem precedentes" com o pai, que acusou de estar numa "espiral entre estratégia da terra queimada e de suicídio político" e de "provocações grosseiras".

No interior da FN a guerra é total. Nesta quinta-feira, Jean-Marie le Pen acusou a filha de "desejar a sua morte" e prometeu luta.

Mas, na ressaca do debate, alguns analistas interrogam-se. Devido à rápida reação de Marine contra o pai, aparentemente sem ambiguidades, que reafirmou nesta quinta-feira, em declarações ao jornal "Le Figaro", "a rutura" com ele, esta guerra no clã le Pen pode favorecê-la na sua estratégia moderada para a conquista do poder em França. A partir de agora, ninguém a poderá acusar de validar as teses extremistas e antissemitas de Jean-Marie le Pen.  A poucos meses das eleições regionais e a dois anos das presidenciais, "mata" o pai para não pôr em causa a sua ambição de conquista do poder, em França.