Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Kobane, a cidade indómita

  • 333

Kobane era conhecido como Ayn-Al-Arab ("a fonte árabe") e era pouco habitado, ao contrário da vizinha Suruç. O nome Kobane só surge em 1912 para designar a aldeia nascida à volta de uma estação da via férrea Berlim-Bagdade

Getty

Quatro anos depois do início da guerra na Síria, há mais de 215 mil pessoas mortas, entre civis, militares, milicianos e rebeldes, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Mas há uma cidade, atacada desde setembro pelos fanáticos da Jihad, que resiste. Leia a reportagem de Francesca Borri em Kobane, originalmente publicada na edição de 24 de janeiro do Expresso.

Francesca Borri, em Kobane

De repente, uma voz diz: "Corre!" E corremos o mais que podemos. Pelo escuro, pela lama, pelo mato: caímos e voltamos a levantar-nos; por cima de nós, um projetor tenta iluminar-nos. Corremos, ouvindo tiros e cães a ladrar. Tropeçamos em arame farpado, ouvindo o som de tecido a rasgar-se, outra vez os cães, um fio de sangue na mão, mas continuamos a correr.

Um jato da coligação anti-Daesh (Estado Islâmico em árabe) rasga o ar e  larga um projétil. A explosão ilumina um cartaz: "Bem-vindos a Kobane." Só há uma forma de entrar aqui. De noite, ilegalmente. Nesta cidade, perto da fronteira da Síria com a Turquia, chegou a haver 60 mil almas acossadas pelos jiadistas do Daesh desde 16 de setembro. Está cercada pelos quatro pontos cardeais porque a fronteira com a Turquia está fechada.

Aqui, só do ponto de vista formal estamos na guerra civil Síria. É a guerra dentro da guerra, travada pelos curdos. Depois de terem sido oprimidos durante décadas pelo clã Assad - que chegou a banir a utilização de nomes curdos -, também não confiam nos rebeldes (ainda que voluntários do Exército Livre da Síria, laico e pró-ocidental, aqui combatam ao seu lado).

Entre a Turquia e a Jihad Os curdos são muçulmanos, mas seculares. E não são árabes, vivendo na Turquia, Síria, Iraque, Irão e ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central. Mantiveram-se fora da guerra civil, gerindo autonomamente a sua região no norte da Síria. Combatem pelo Curdistão e pouca atenção prestam ao resto das notícias. Sintonizam a TV num canal local, penduram na parede um retrato de Abdullah Ocalan (líder independentista curdo da Turquia condenado a prisão perpétua) e falam de Damasco e Alepo, como se ficassem no Afeganistão. A Turquia teme que os seus curdos sigam o exemplo sírio. Por isso abre a fronteira aos rebeldes, a leste, em Hatay e Antep, mas aqui, não.

Os refugiados conseguem sair. Só em setembro foram 130 mil, mais do que o total acolhido pela Europa durante toda a guerra civil. Os combatentes não, à exceção de uma centena de iraquianos. Os demais tentam esgueirar-se, perseguidos pela polícia turca. Em Kobane a guerra começa antes da linha da frente.

Fora isso, é a guerra do costume. Cruel e extrema, como no resto da Síria. Passados quatro meses, Kobane está em ruínas. O carro que nos viera apanhar à fronteira avança devagarinho, de faróis desligados, por uma estrada irregular mal iluminada pelo céu estrelado. As poças de água da chuva refletem uma lua em estilhaços, enchendo a noite de sombras, fósseis e carne podre com que o carro esbarra. Desliza entre blindados, camiões, paredes que se esboroam, espigões de metal, de aspeto sinistro, etéreo. É como uma Pompeia da vida que se foi. Não resta nada.

Uma parede derrubada deixa entrever uma mesa e um candeeiro. No topo de um lanço de escadas uma porta não leva a lado nenhum. De repente, à direita, o esqueleto de um carro parece ressuscitar: os faróis piscam, numa pulsação rítmica. Outro veículo, mais abaixo, pisca em resposta. É um código que assinala a nossa passagem. Kobane não está vazia. Parecemos vaguear sobre o entulho de uma batalha passada, mas estamos na teia dos atiradores furtivos.

Os primeiros combatentes com quem falamos sublinham que a resistência começou há dois anos e não há três meses. "Foi com a ascensão dos primeiros grupos islamitas, quando a revolução síria foi subvertida", diz Nalin Afrin. O seu nome (ou melhor, pseudónimo) é também o nome de uma flor. Nalin é mulher e comandante-geral. "Quando se pergunta aos islamitas o que é a sharia que querem impor, a única coisa que explicam é que as mulheres têm de se tapar. E ficar em casa."

Por isso as mulheres, em Kobane, estão todas na linha da frente. As mulheres têm combatido em muitas outras guerras: Libéria, Sri Lanka, Jugoslávia... Mas aqui não vieram só fazer coreografia nem estão na retaguarda. A igualdade é um facto. A única diferença entre homens e mulheres está dentro das botas. As mulheres têm meias às cores. Uns bordados, uns corações ou um ursinho pendurado na Kalashnikov. 

E estão a ganhar, abalando a aura de invencibilidade do Daesh. Os curdos controlam 80% da cidade, ainda que os recontros sejam, por vezes, intensos, e a linha da frente muito estreita: 50 metros. "É demasiado cedo para tirar conclusões, mas os jiadistas parecem ter mais força organizativa e ideológica do que militar. O seu projeto tem angariado apoio popular e é isso que temos de erradicar", diz Nalin Afrin. "Porque está em jogo muito mais do que Kobane."

Atacada desde setembro pelos fanáticos da Jihad, a cidade síria resiste e abala a aura de invencibilidade do Daesh

Atacada desde setembro pelos fanáticos da Jihad, a cidade síria resiste e abala a aura de invencibilidade do Daesh

Getty

Dalila tem 20 anos. Está na frente ocidental, numa paisagem digna da I Guerra Mundial. Há trincheiras salpicadas de tendas, montículos de terra reforçados por sacos de areia e, de metro em metro, abrigos escavados e reforçados por chapa metálica. Parece uma sepultura à espera do corpo... 

Mas Dalila, Zenarin e Gisak tomam o pequeno-almoço, como se estivessem acampadas, com uma mochila North Face, cadeiras de plástico e uma mesa. Um jovem corta pepinos e queijo. Atrás dele, um atirador furtivo. De vez em quando ouve-se uma explosão e o fumo sobe à direita. Cai uma granada de morteiro mas ninguém liga. "Não se trata de respeitar a diversidade", diz Dalila. "Não estamos a falar do Islão mas de carniceiros. Quem for humano deve estar connosco. Não é só quem for curdo ou sírio".

Ainda que não se deva menosprezar os jiadistas, rotulando-os de loucos, Zenarin, de 22 anos, diz: "Penso que a maior parte dos combatentes estrangeiros são jovens à procura do sentido da vida. Já os de cá são sunitas frustrados em busca de vingança ou, simplesmente, mercenários, que tomam o partido do governante na mó de cima. A única certeza é que, sejam quais forem as suas razões, é preciso percebê-las para as derrotar. Se não atuarmos, esta guerra vai propagar-se a toda a parte."

"Porque lutam?", pergunto a Gisak, de 24 anos. Pela Síria? Pelo Curdistão? "Por ti!" Muitos cresceram juntos, são amigos de infância. Antes de se enfiarem na trincheira para mais um turno, abraçam-se como se estivessem numa entrega de diplomas, festa de anos ou torneio de voleibol. Toda a Kobane está na linha da frente, mesmo quem está fora de jogo, como Bilal, de 19 anos. Tem um braço partido e uma faca pendurada ao pescoço. É a única arma que consegue manejar com uma mão. Ou Ferhad, conhecido por outro nome: o do irmão, morto pelo Daesh. Tem 15 anos. Ou Xelil, de 45 anos, e Viyane, de 19: pai e filha. Que farão caso sejam capturados? Xelil apalpa suavemente a granada que guarda no bolso, como todos aqui. "A última bala é para nós próprios", diz Viyane. "Prometemos morrer livres".

A batalha disputa-se, agora, a três níveis. Foguetes, disparos de tanques e granadas de artilharia voam por cima das nossas cabeças, de um lado da cidade para o outro. Em seguida, e de súbito, há 30 ou 40 minutos de troca de tiros a curta distância, rua a rua, com Kalashnikovs, granadas ou apenas uma Beretta (pistola automática), por trás de sacos de areia, pilhas de lixo, ou sofás despedaçados. Correm, disparam, morrem. Até um avião dos EUA bombardear e, por um instante, tudo fica calmo. O ar gelado do inverno só é perturbado, de quando em vez, pelo tiro seco de um atirador furtivo.

Ismet Sheikh Hasan é secretário da Defesa. "A verdadeira força do Daesh é a fraqueza dos demais. Vieram preencher um vazio de poder". Em bom rigor, os jiadistas nem sequer conquistaram Raqqa, a sua capital síria, nem os outros rebeldes. São os líderes tribais que vão trocando de lealdade. Em Alepo, há um ano, o Daesh - por mais que declare ter-se retirado da cidade - foi efetivamente expulso pelos rebeldes, unidos por fim contra o inimigo comum. "A verdadeira força dos jiadistas é que não há ninguém para substituir Assad. Mas a análise militar não deve abafar a análise política. A prioridade é acabar com o caos iraquiano. É verdade que o Daesh tem, agora, as suas próprias fontes de financiamento (contrabando de petróleo), mas ainda precisa do apoio logístico de outros países. Talvez seja tempo de verificar quem é aliado de quem nesta guerra."

Há uma referência implícita. Ninguém aqui tem dúvidas de que a bomba que explodiu em Kobane, a 29 de novembro, num carro armadilhado, proveio da Turquia, afirmam os curdos. E a passagem fronteiriça continua a ser a zona mais perigosa. É por lá que passam os feridos e também a ajuda alimentar para os cerca de sete mil civis que ainda permanecem na cidade. Vivem sob fogo de morteiro 24 horas por dia.

E, de repente, Kobane volta a ser síria. Sobreviver, aqui, é só uma questão de sorte. Anda-se sob o assobio das balas, perto das paredes, tão perto quanto possível, fazendo-nos tão pequenos quanto possível. De súbito, percebe-se que não sobra nada dessas paredes. Ficamos à vista e é tudo. Parece o cenário de um filme apocalíptico, um daqueles filmes em que a Humanidade se extinguiu. Estão lá os habituais edifícios estripados que permitem ver o interior, intacto, com roupa ainda pendurada no estendal, salada pronta sobre a mesa. E há também carros atirados para cima de telhados, frigoríficos incrustados nas paredes. 

Tudo se torna um tal labirinto de pedras e placas que nem sequer se percebe se o que temos sob as botas é estrada, se uma carpete, pois é possível que estejamos dentro de uma casa, apesar de estarmos entre carros carbonizados, esburacados por estilhaços, parados no lugar para onde se despistaram quando o condutor foi alvejado e morto, e de súbito lembramo-nos de Alepo, onde a relva cresceu por entre o entulho. Aqui acontecerá o mesmo, dentro de meses, com ciclames por entre pneus furados. Esta rotunda sem sentido, mesmo ali ao meio, foi talvez uma fonte, com uma espécie de flamingo, ou coisa que o valha, que parece dançar, a única coisa que ainda conserva alguma cor debaixo deste céu de ferro. Suavemente, em tons de azul-claro e rosa, parece dançar, como se estivessem a passar os créditos finais de um filme. O espetáculo acabou, senhoras e senhores. Baixemos o pano sobre a vida.

Mulheres sem medo Os jornalistas estrangeiros estão todos curiosos em relação a Arin, a primeira a lançar-se num ataque suicida, levando consigo 27 jiadistas. Ou Ceylan, que ficou sem munições e preferiu fazer-se explodir a render-se. Ou mesmo Rehana, uma das melhores atiradoras furtivas, que terá sido decapitada. Entre milhares de lendas, a única certeza é que os curdos não têm heróis. Pergunta-se-lhes quem é o modelo que seguem e começam logo a falar daquele camarada que foi morto mesmo ali ao lado. Das suas últimas palavras, a pedir que outros continuassem a luta. "Entre turnos nas trincheiras lemos livros e ouvimos música", conta Gisak.

"Não queremos apodrecer por dentro. Estamos aqui para nos defendermos, não para atacar. Isto tem de ser só um parêntesis." É difícil uma pessoa não se acostumar à guerra nesta Síria onde, até para entrar numa trincheira, se tiram os sapatos, como um convidado numa casa. Que se sente, em que se pensa quando se aponta a um homem? Faço a pergunta a Dalila. "Que não me posso mexer, senão falho."