Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Influência internacional dos EUA está a mudar... Falta saber como e com que rumo

  • 333

Miguel Monjardino, professor da Universidade Católica e colunista do Expresso

Lucília Monteiro

Miguel Monjardino participou em Braga na conferência dos 10 anos do Courrier Internacional e equaciona o futuro da América depois de Obama.

O mundo está a mudar. Os Estados Unidos da América já perceberam a impossibilidade de manterem a influência internacional que têm tido até agora. Obama aposta na criação de uma estratégia diferente de afirmação de um país que continua a ser a grande potência marítima do mundo e cuja moeda não deixou de ser a reserva monetária mundial, mas persiste a incógnita sobre o que poderá ser, num futuro próximo, o peso geoestratégico da superpotência.

Estas foram algumas das questões equacionadas por Miguel Monjardino, professor da Universidade Católica e colunista do Expresso, como ponto de partida para uma reflexão mais vasta na conferência inserida nas comemorações dos 10 anos do Courrier Internacional, realizada esta quarta-feira ao fim da tarde no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, em Braga.

Numa mesa em que, além de Rui Cardoso, coordenador executivo do Courrier, estava ainda Jaime Costa, do Departamento de Estudos Ingleses e Norte-Americanos, Monjardino centrou muito a sua intervenção no que podem vir a ser as consequências, não apenas para os EUA, mas também para a Europa, decorrentes das opções que vierem a ser tomadas no pós Obama. 

Ninguém sabe o que acontecerá, mas o que aí vem não deixará de ser, assegurou Miguel Monjardino, "uma transição traumática para os norte-americanos, porque têm uma concepção excecional sobre si mesmos". Quando assim é, prosseguiu, "não é fácil convencer que esta estratégia de primazia internacional tem de dar lugar" a um outro posicionamento.

Hillary diferente de Obama

Isso está já a acontecer com Barak Obama, mas não é seguro que aquilo que têm sido as escolhas e as opções do atual presidente venham a ter continuidade com um eventual presidente republicano, ou mesmo com Hillary Clinton.

Monjardino começou, de resto, por avançar com alguns dados muito curiosos ao comparar, por exemplo as taxas de aprovação de diferentes presidentes em momentos similares do seu mandato, como é o caso, neste momento, de Obama (48%), e foi de George Bush (37%), Bill Clinton (60%), Ronald Reagan ( 48%), Eisenhower (61%) ou Harry Truman (24%). Como estes dados refletem apenas um momento, o analista chamava a atenção para a importância de comparar o que se dizia em 1951 sobre Truman e comparar com a avaliação que é hoje feita.

Ainda dentro dos números há dados a revelarem um grande desapontamento dos norte-americanos sobre o que tem sido o mandato de Obama (29% considera que tem ido na direção certa, 63% "acham que o país está péssimo". Grande parte deste ceticismo, referiu Monjardino, "tem uma relação com a distribuição do rendimento", num país que se assume como uma República Liberal e Democrática e terá sido o "único no mundo a ser criado com a ideia de proteger a classe média". Ora, esse rendimento é cada vez menor, e nada indica que vá melhorar nos próximos tempos.

Uma explicação possível, adiantada pelo colunista do Expresso assenta na evolução da tecnologia. "Teve impacto na produtividade e isso tem consequências nos salários e no emprego".

O papel das Forças Armadas

Esta é uma grande fonte de preocupação, para a qual têm vindo a ser ensaiadas várias respostas, aparentemente distantes, aparentemente desligadas do problema concreto, mas assumidamente inseridas num plano mais global de reposicionamento da que tem sido entendida como a nação mais poderosa do mundo. Mesmo os mais poderosos têm fragilidades e, nesse sentido, é decisivo olhar com atenção para as novas políticas de energia seguidas pelos EUA, para novos entendimentos sobre qual deve ser o papel e a intervenção das Forças Armadas.

Assiste-se neste momento, assegura Monjardino, "a uma redução drástica de elementos de infantaria" em importantes pontos do globo, do mesmo modo que se percebem movimentações, de que são exemplo Cuba ou o Irão, no sentido de abrir novas portas e outras possibilidades para o inumerável conjunto de dilemas que a própria globalização veio criar aos EUA.

"É preciso olhar para a Geografia", dizia o professor da Universidade Católica, para concluir que aquela é a nação mais segura do mundo, rodeada por dois oceanos e pelo Canadá a Norte e o México a Sul.

O debate que se avizinha num país cuja atual administração tem procurado mais a influência através da economia e da influência cultural do que propriamente através da presença musculada e militar que tem caracterizado a política externa dos EUA, "vai ser muito duro internamente. Será traumático para as pessoas perceberem que o país não é omnipresente".

Por isso mesmo, há todo um manancial de interrogações que permanecem sem resposta para já e passam por perceber, em face das opções que vierem a ser tomadas, quais serão as consequência internas, as consequências na maneira como o mundo, e a Europa em particular, se relaciona com a potência, como será resolvida a questão atlântica e quais serão os efeitos de tudo isto em termos estratégicos.