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Hollande e Barroso em crise, Marine Le Pen satisfeita

François Hollande, é sabido, não morre de amores por Durão Barroso

Getty

Fogueira da polémica entre Paris e Bruxelas continua a arder, ameaça transformar-se numa verdadeira crise e extrema-direita sobe.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

Debates em França nas televisões e nos programas matinais das rádios, páginas inteiras nos jornais - os franceses seguem com espanto os episódios sucessivos da agudização da crise entre a França e a Comissão Europeia. Desde que o presidente da Comissão, Durão Barroso, ousou qualificar, a 17 de junho, no jornal "International Herald Tribune", os que defendem a exceção cultural como "reaccionários (...) que não compreendem os benefícios da globalização", sucederam-se inacreditáveis trocas de "mimos" entre Paris e Bruxelas, com as duas partes a chamarem-se reciprocamente nomes dos mais feios.

O presidente François Hollande, principal defensor da exceção cultural nas negociaçoes da UE com os EUA, e Barroso ainda tentaram por água na fervura da polémica, numa reunião a sós no dia seguinte, na Irlanda do Norte, à margem de uma cimeira do G8. Barroso disse-lhe então que se tratava de um "malentendido" e que as suas palavras teriam sido "mal reportadas" pelo diário norte-americano. Mas, em Paris, ninguém acreditou em Barroso, que aliás, que se saiba, não pediu ao jornal para retificar as suas acusações.

"Traidor"...

No mundo da cultura francesa, depois de Costa-Gravas, que o qualificou de "homem perigoso para a cultura europeia", um outro grande cineasta, Bertrand Tavernier, foi ainda mais violento, chamando-o "traidor" e "bastardo".

No mundo da política, assiste-se à mesma escalada verbal. O ministro da Recuperação Industrial, Arnaud Montebourg, disse, neste domingo, que Barroso é "o carburante" da extrema-direita. Barroso respondeu-lhe, ontem, acusando-o, a ele e aos "soberanistas de esquerda", de terem "exatamente o mesmo discurso que a extrema-direita".

..."Arcaico", "vira casacas"

As críticas francesas incomodam Barroso porque não vêm apenas da esquerda. Também o insuspeito e habitualmente muito calmo dirigente da direita, Alain Juppé, gaullista e ex-primeiro-ministro, chamou-lhe "arcaico" por ele atacar a excepção cultural e a diversidade cultural. Rachida Dati, igualmente da direita, ex-ministra da Justiça e eurodeputada, pediu a sua demissão acusando-o "de se deitar perante os americanos".

Na imprensa francesa, depois do mais influente jornal francês, "Le Monde", ter qualificado Durão Barroso de "camaleão", o "Liberation" de hoje diz que ele é um "talibã" da mundialização, um ambicioso "vira casacas" que "tem a espinha dobrável, o que lhe vale aliás o desprezo sólido da chanceler alemã, Angela Merkel".

"Referendo contra a UE"

Quanto a François Hollande, é sabido que não morre de amores por Barroso. Mas o Presidente francês tenta não lançar mais gasolina para a fogueira da crise. Sobre as acusações do português contra os "reacionários" disse laconicamente: "ele explicou-se".

Mas, quando o presidente da Comissão pediu publicamente à França, a meados de maio, para acelerar as reformas, designadamente, a revisão do regime das pensões de reforma, Hollande respondeu-lhe secamente: "A Comissão não tem nada que ditar à França o que ela tem de fazer!".

No entanto, não se sabe qual é a opinião de Hollande sobre as graves acusações do seu ministro Montebourg contra Barroso.

Depois de um bom resultado da extrema-direita francesa, no domingo, numa legislativa parcelar, e a um ano de difíceis eleições europeias - algumas sondagens apontam para a vitória da Frente Nacional (FN, de Marine Le Pen) nesse escrutínio  - o presidente francês também achará que Barroso fornece "o carburante" à FN?

Comentando esta crise, Marine Le Pen, afirmou, com visível satisfação: "em 2014 vamos transformar as eleições europeias num referendo pelo fim da UE".

De acordo com diversos estudos, a FN está em subida em França por diversas razoes: devido à "UE burocrática" e "distante dos povos" e também por causa da crise, do aumento do desemprego, das deslocalizações de empresas e devido aos escândalos nos quais estão envolvidos políticos franceses socialistas e de direita.