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Internacional

Extrema-direita à frente para as europeias em França

Com os socialistas distraídos com os amores de François Hollande e a direita dividida, Marine le Pen trabalha e está em primeiro lugar nas sondagens.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

Pela primeira vez na História francesa, o partido nacionalista e populista francês, Frente Nacional (FN), de Marine le Pen, pode vencer uma eleição nacional no país. Uma sondagem do instituto IFOP para o "Journal du Dimanche" de hoje coloca-a em primeiro lugar nas intenções de voto com 23 por cento, contra 21 por cento para o partido da direita, UMP, e 18 por cento para os socialistas.

Marine le Pen sonha com essa vitória contra, como diz, a "Europa liberal" e "os seus lacaios em França". Hoje, em França, a FN conta com os votos da extrema-direita francesa, mas também com hordas de desiludidos de tradicionais votantes na esquerda e na direita.

As promessas não cumpridas de François Hollande contra a austeridade na Europa e a sua recente viragem liberal, anunciada numa conferência de imprensa, no passado dia 14, ajudaram-na imenso. A situação na UMP igualmente: neste partido da direita ninguém se entende, a liderança de Jean-François Copé é fraca e a guerra dos chefes contínua desde a derrota de Nicolas Sarkozy nas presidenciais de maio de 2012.

As histórias "politico-cómicas" ligadas ao folhetim do triângulo amoroso de Hollande, que tinha prometido ser "exemplar" nas questões ligadas à sua vida privada, não ajudam os socialistas, que figuram em terceiro lugar na sondagem. Marine le Pen quase nem falou sobre o assunto. Não precisava, porque o inacreditável espetáculo do repúdio de Valérie Trierweiler pelo Presidente funcionou claramente a seu favor.

"Eu faço saber que pus fim à vida comum que eu partilhava com Valérie Trierweiler" - foi com esta curta e seca frase, com dois "eu", que François Hollande anunciou neste sábado a rutura com a ex-primeira-dama. "Hollande rejeitou-a publicamente, é horrível", disse um comentador. A frase é, no mínimo, pouco elegante. Já em 2010, o então candidato ao Eliseu fora pouco elegante, mas com Ségolène Royal, com a qual viveu 25 anos e com quem teve os seus quatro filhos, quando exclamou numa entrevista à revista aristocrática, "Gala": "Valérie é a mulher da minha vida". Apesar do silêncio das feministas sobre o assunto, a saída que Hollande encontrou para o seu folhetim amoroso não é boa para ele.

Mas o que mais beneficia a chefe do partido populista não são as mudanças amorosas de François Hollande, mas sim a sua viragem liberal nos campos político e económico. Sobre este assunto, o anunciado "pacto de responsabilidade" favorável às empresas defendido pelo chefe do Estado, Marine le Pen exprime-se alto e bom som. Condena-o frontalmente, diz ser "um escândalo" esta intenção de Hollande de oferecer às grandes empresas "prendas" de mais de 30 mil milhões de euros contra "vagas promessas de criação de empregos".

Não é apenas a líder nacionalista que considera Hollande "um escândalo". Num recente artigo, o norte-americano e prémio Nobel da Economia, Pau Krugmam, diz que o "pacto de responsabilidade" é "um verdadeiro escândalo". Evidentemente, Krugmam também não se referia aos amores do Presidente mas ao que disse ser "o seu afeto pelas desacreditadas doutrinas económicas da direita". Para o prémio Nobel, Hollande "rendeu-se inteletualmente", capitulou e passou a ser um "cúmplice dos conservadores teimosos e desapiedados".

A crise, o desemprego, a baixa de poder de compra dos franceses e o empenho de Hollande em prosseguir com o "rigor" acentuando cortes nas despesas (mais 50 mil milhões até ao fim do mandato, em 2017) ajudam Marine le Pen.

A inexistência de líderes franceses credíveis e coerentes na direita e na esquerda também a auxilia imenso. A quatro meses das eleições europeias, as sondagens indicam que a FN poderá alcançar um resultado histórico em França. A confirmarem-se estas intenções de voto, a sua vitória provocará um terramoto político no país com certamente fortes réplicas em toda a Europa.