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Este país nunca mais vai ser o mesmo

Após meses de acesa campanha, 4,3 milhões de escoceses decidem se querem viver num país independente ou se preferem continuar a fazer parte do Reino Unido. Estima-se uma adesão às urnas superior a 95%. O Expresso acompanhou a abertura das mesas de voto em Edimburgo.

Tiago Carrasco, em Edimburgo

Na mesa de voto de Morningside Walk, a sul de Edimburgo, há fila para votar desde as 7h. "É o dia mais importante da vida de todos os escoceses", diz Jenny, que torce pela independência. Na Escócia, ao contrário de Portugal, a campanha é permitida até no dia do sufrágio. E não é a única diferença. Aqui, o sufrágio não interrompe mais um dia de trabalho, pelo que as mesas de voto encerram somente às 23h. Os resultados oficiais só são conhecidos por volta das 6h de sexta-feira. 

Jenny está em minoria na sua secção de voto. Morningside é habitada predominantemente por uma população envelhecida, da classe média alta. Estes dois grupos são a base de apoio de uma Escócia parte do Reino Unido. Além disso, é neste bairro que viveu por muito tempo J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter e que doou 1 milhão de euros à campanha pelo não. É também a morada de Alistair Darling, o dirigente do Partido Trabalhista que encabeçou a campanha pela união. Darling apareceu para votar por volta das 9h30; uma senhora mais arisca perguntou-lhe à entrada: "Mudou de ideias durante a noite?". "Não, de todo", respondeu o político. 

A maioria das pessoas entrevistadas à boca da urna revelou ter votado contra a independência. "Somos britânicos, queremos continuar unidos", diz uma eleitora. A identidade britânica, o receio de um colapso económico e de perda da libra são as razões mais apontadas para manter a situação tal e qual como está. "Mas com as concessões já prometidas pelos políticos de Londres, o resultado é quase indiferente: este país nunca mais vai ser o mesmo", diz outro eleitor, frustrado pelas garantias de uma maior autonomia dadas por David Cameron e Gordon Brown em caso de uma vitória da união. 

No bairro da classe operária de Craigmiller, há muito mais agitação. Uma manifestação chamada "A curta marcha pela liberdade" percorre as ruas do bairro, liderada por uma gaita de foles que expele chamas de esperança. "Vim dos EUA para fazer campanha pelo sim, porque tenho muito orgulho nas minhas raízes escocesas", diz um dos elementos da manifestação. Há caras pintadas com as cores nacionais, cães a transportar bandeiras e muitos, mesmo muitos nervos: "Hoje ninguém dorme", grita um dos nacionalistas. 

Na sede local da campanha pela independência, há bandeiras de outras regiões separatistas: Quebec, Catalunha, Flandres e País de Gales. Voluntários pintam a  cara de miúdos e graúdos e à porta há uma réplica da Estátua da Liberdade colorida em tons de safira. "Queremos a independência, claro. Estamos fartos da política de Londres. Hoje é o dia em que vamos poder caminhar pelos nossos próprios pés", diz um eleitor, com a bandeira nacional às costas. 

Esta madrugada ficaremos a saber qual das zonas de Edimburgo fará a festa. Acompanhe todas as incidências ao minuto no site do Expresso.