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Eleições em França. Ninguém perdeu no dispendioso e confuso mil-folhas territorial francês?

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Nicolas Sarkozy e outros elementos da UMP, que venceu as eleições deste fim de semana em França. O ex-Presidente viu validada a sua política de alianças com o centro, que lhe permitiu ultrapassar na primeira volta a FN de Marine le Pen

Gonzalo Fuentes/Reuters

A primeira volta das eleições departamentais deste domingo confortou o regresso do ex-Presidente Nicolas Sarkozy à política e confirmou a implantação de Marine le Pen em França. No entanto, o PS também não se considera completamente derrotado por ter evitado a catástrofe numas eleições difíceis de compreender. Sabe o que é um Conselho Geral? E um Conselho Regional?

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

A maioria socialista foi claramente sancionada na primeira volta das eleições departamentais deste domingo mas, apesar de ter ficado em terceiro lugar, os dirigentes socialistas não se mostram muito dececionados com os resultados. Esperavam pior e respiram de alívio esta segunda-feira. O PS conseguiu apenas 20% dos votos, vai perder para a direita, na segunda volta do próximo domingo, diversos departamentos, mas resiste e salva-se de uma catástrofe eleitoral. Os seus dirigentes contabilizaram os resultados de outras listas de esquerda e chegaram a mais de 36 por cento dos votos para este sector político.
François Hollande deposita o seu voto na urna. O PS francês recolheu apenas 20% dos votos, mas esperava pior

François Hollande deposita o seu voto na urna. O PS francês recolheu apenas 20% dos votos, mas esperava pior

CAROLINE BLUMBERG/EPA

Quanto à coligação da direita da UMP com os centristas da UDI e o MODEM, liderada pelo ex-Presidente Nicolas Sarkozy, foi claramente vencedora, com 31% dos votos. Integrando os votos de outras listas de direita, este campo atinge também um total de 36%. Este bom resultado conforta o regresso de Sarkozy à cena partidária francesa. O ex-chefe de Estado viu validada a sua política de alianças com o centro, que lhe permitiu ultrapassar na primeira volta a Frente Nacional, de Marine le Pen. Apesar dos problemas internos no seu partido e dos processos judiciais, Nicolas Sarkozy ganhou este domingo uma nova legitimidade para se recandidatar às presidenciais de 2017. Pelo seu lado, Marine le Pen também canta vitória porque com 26% dos votos a FN atingiu a sua mais forte votação de sempre. No entanto, sem aliados, a Frente Nacional apenas pode ambicionar conquistar um ou dois departamentos na segunda volta.
A líder da Frente Nacional, Marine le Pen, reage aos resultados deste domingo

A líder da Frente Nacional, Marine le Pen, reage aos resultados deste domingo

YOAN VALAT/EPA

Será difícil, mas Marine le Pen, que falhou o objetivo de chegar em primeiro lugar este domingo, conseguirá eleger "conselheiros gerais" em todo o país, confirmando o enraizamento do seu partido no território. Até agora, a FN apenas tinha um "conselheiro geral" num total de mais de quatro mil. Um complicado e caro mil-folhas político e administrativo O que é um "conselheiro geral"? É um deputado do Conselho Geral dos departamentos, que por sua vez são divididos em cantões (existem 2054 cantões em França) e integram diversos municípios e organismos "intermunicipais". Esta estrutura, que agrega municípios, visa dinamizar a cooperação entre um grupo deles nos domínios da gestão por exemplo da água, das estradas, do urbanismo, dos transportes, das bibliotecas, das piscinas... Mas todas estas atribuições dos municípios e da fusão dos mesmos são igualmente prerrogativas dos Conselhos Gerais da centena de departamentos existentes, que incluem ainda a distribuição de ajudas sociais, a gestão do ensino nos departamentos... O sistema é confuso? É, mas ainda mais complicado fica quando se acrescentam as 13 regiões (eram 22 até a uma reforma territorial do passado mês de dezembro) e os seus Conselhos Regionais.   Estes, que também têm as mesmas prerrogativas que as dos municípios e dos Conselhos Gerais, têm ainda poder para gerirem linhas ferroviárias ou definirem políticas económicas e de desenvolvimento estrutural nas respetivas regiões. Os deputados destes Conselhos Regionais também são eleitos por sufrágio universal e as próximas eleições regionais decorrerão no final deste ano. Para um estrangeiro - e mesmo para os franceses - é difícil compreender as evidentes sobreposições de poderes neste mil-folhas político e administrativo e a própria classe política francesa reconhece a complicação. O atual Governo socialista tentou acabar com os departamentos (que existem desde 1790) no quadro da sua recente reforma territorial, mas não conseguiu devido à pressão dos quadros políticos locais. Os orçamentos dos Conselhos Gerais são avaliados em 70 mil milhões de euros e, segundo contas oficiais de 2013 a sua supressão, em benefício dos Conselhos Regionais, equivaleria a uma poupança de 20 mil milhões de euros por ano.