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Dias difíceis para o Podemos

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Pablo Iglesias tem pela frente a difícil tarefa de manter o partido unido, depois da demissão de Juan Monedero

Susana Vera/Reuters

A saída de Juan Monedero, co-fundador do partido espanhol Podemos, esta quinta-feira, abriu uma brecha na estrutura interna do partido, a poucos dias das eleições autárquicas em Espanha. Pablo Iglesias terá de manter a união.

Juan Carlos Monedero deixou a direção do Podemos, o mais jovem partido de Espanha, nascido há pouco mais de um ano, e que se tornou um fenómeno de popularidade. O partido de esquerda, assumidamente anti-austeridade, tem vindo a crescer nas sondagens e poderá ter bons resultados nas eleições autárquicas espanholas de 24 de maio.    

Monedero foi co-fundador do partido criado a 17 de janeiro de 2014, até à passada quinta-feira. Algumas horas após criticar publicamente a estratégia seguida pela formação liderada por Pablo Iglesias, abandonou a cúpula do Podemos.    

A direção do partido, escreve "El País", "que se debate entre a moderação e a ousadia, entre a responsabilidade institucional e a voz dos seus círculos do 15-M, deixou tombar" Monedero, ainda que a decisão de sair tenha sido tomada pelo próprio.    

Na passada segunda-feira, o politólogo e professor na Universidade Complutense de Madrid, já tinha dado o primeiro sinal da saída iminente. "Chegamos ao fim de uma etapa", afirmou Monedero num evento público, antes de bater com a porta.    

O secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, confirmou que a decisão lhe foi transmitida pessoalmente por Monedero, assumindo que não partilha de "algumas das reflexões" que conduziram à saída do "número três" dos órgãos diretivos do partido.     

"Talvez Juan Carlos não seja um homem de partidos, é um intelectual que precisa de voar. O espírito crítico de Monedero é imprescindível para mim e para todos nós como formação política. Precisamos dessa firmeza e de Juan Carlos voando com muito mais liberdade para fazer o que melhor sabe fazer e pôr o dedo na ferida", sublinhou Iglesias, que se confessou amargurado com esta demissão.     

Escândalo abalou credibilidade de Monedero

A decisão foi tomada três meses depois de ter sido revelado na opinião pública o envolvimento de Monedero numa possível fraude fiscal, relacionada com uma empresa criada pelo próprio - Caja de Resistencia Motiva 2 - para evitar declarar impostos no valor de 425.150 euros como pessoa singular. O ex-dirigente do Podemos terá poupado cerca de 130 mil euros em impostos graças a esta empresa, que prestou serviços de consultoria política aos Governos da Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador.     

Este escândalo, conhecido em janeiro de 2015, teve consequências nas aparições públicas de Monedero, que diminuiram drasticamente. A sua presença nas eleições andaluzas de 22 de março resumiu-se a uns poucos atos públicos.    

Hoje, o politólogo queixa-se de que "o poder fez muito bem os seus deveres" contra ele. Na hora da despedida reconheceu que o partido que ajudou a fundar se deixou cair em alguns vícios da concorrência eleitoral. Segundo Monedero, as forças políticas entram "no jogo eleitoral e tornam-se reféns do pior do Estado, da sua condição representativa", quando o seu principal objetivo é "chegar ao poder".      

Certo é que a demissão de Juan Monedero da direção do Podemos, em rutura com a estratégia assumida atualmente pelo partido, fez renascer publicamente as tensões entre as diferentes correntes internas daquela formação de esquerda: a dos que apostam numa responsabilidade institucional e a dos que pretendem permanecer mais próximo das origens do partido. Recorde-se que o Podemos nasceu de um movimento de luta contra a austeridade que ficou conhecido por 15-M.