Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Debate de líderes. Nem Cameron, nem Miliband - ninguém deslumbrou

  • 333

FOTO Stefan Rousseau - WPA Pool/ Getty Images

A campanha eleitoral no Reino Unido entrou na fase do sprint e o tiro foi dado por Jeremy Paxman, o veterano - e cáustico - jornalista britânico famoso pelo seu conhecimento quase forense dos podres dos políticos britânicos. Foi uma espécie de entrevista de emprego com Paxman a fazer o papel de CEO do país.

O primeiro-ministro David Cameron e o seu oponente direto David Miliband foram os primeiros a ir à faca e, no no fim da entrevista, que também incluiu questões do público, as perceções confirmaram-se: Ed Miliband é mais "acessível" e "honesto", Cameron mais "eficiente". Mas nenhum deslumbrou.

Logo para começar Jeremy Paxman perguntou a Cameron como é que ele explicava que as pessoas estivessem agora mais pobres do que quando ele foi eleito, realidade patente no aumento exponencial de bancos alimentares que passaram de 66 para 421. Cameron não respondeu à altura e foi assim, cauteloso e formal, que se manteve durante a entrevista. Ed Miliband, por outro lado, ainda que a percepção do público seja a de o líder trabalhista está pior preparado para lidar com uma crise economico-financeira, acabou por se revelar, se não um tecnocrata, pelo menos um homem capaz de elevar a voz e a maioria dos comentadores dava-lhe a vitória neste primeiro round.

Conservadores e Trabalhistas aparecem empatados quase até à casa decimal em todas as sondagens e qualquer pequena gafe pode fazer manchete. Jornalistas do jornal Metro e do diário "Telegraph" disseram ao Expresso que estas são as eleições mais difíceis de cobrir dos últimos anos já que as diferenças entre Cameron e Miliband não são imediatamente identificáveis - isto apesar de a clivagem ideológica entre o eleitorado ser bastante mais acentuada do que em eleições anteriores.

David Cameron aproveitou para dizer que o seu governo "rejuvenesceu a economia" e proibiu a cláusula de exclusividade dos contratos zero-horas, uma modalidade contratual muito comum especialmente para trabalhadores no setor da restauração e turismo, que não garante um mínimo de horas aos empregados mas proíbe que eles procurem um segundo emprego para compensar os buracos nos horários. Foi no entanto forçado a admitir que não conseguiu reverter o enorme défice do país, neste momento quase 6% do PIB, superior ao de países como a Polónia, Eslovenia, Bulgária ou Portugal.  Cameron capitulou também na questão da imigração, para a qual o seu governo havia estabelecido um limite já ultrapassado 100 mil por ano quando foi eleito em 2010.

Perguntas difíceis também para Miliband que foi obrigado a defender-se de membros da audiência que lhe disseram que o seu irmão, David, seria um líder bem melhor para o partido. Os dois irmãos bateram-se pela liderança dos Trabalhistas em 2010 e não é segredo que muitos consideram, se David estivesse na liderança, a diferença nas sondagens seria neste momento muito mais favorável aos Trabalhistas. Paxman aproveitou também para testar Miliband em questões de política internacional, perguntando a Miliband se ele se achava "duro o suficiente" para enfrentar, por exemplo, Vladimir Putin uma vez que a maioria das pessoas o consideram um "rato de biblioteca da elite urbana do Norte de Londres"

Numa altura em que 47% do país se assume desiludido com o centralão e preparado para depositar um voto de confiança num partido marginal, está entrevista pode não ter ajudado nenhum dos dois homens. Ed Miliband conseguiu pelo menos mais um voto: o de  Nigel Farage, líder do UKIP que fez questão de dizer que Miliband esteve melhor e que Cameron demorou mais de quinze minutos a entrar no ritmo. Ainda assim uma sondagem relâmpago do "Guardian" revelou que 54% dos britânicos consideram que Cameron esteve melhor.