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Cumpriu-se a regra: o capitão foi o último a sair. Mas não se sabe quantos tinham entrado

FOTO EPA

Ferry Noram Atlantic, que transportava mais de 400 pessoas, incendiou-se no domingo junto à ilha grega de Orthonoi. A tragédia aconteceu: morreram 10 passageiros, há muitos desaparecidos e uma grande incerteza - a embarcação seguia com clandestinos a bordo.

No caso do Norman Atlantic, cumpriu-se a regra: o capitão foi o último a abandonar o navio, o que aconteceu mais de 24 horas depois de ter sido posta em marcha uma complexa operação de resgate, com vista ao salvamento dos passageiros do ferry que se incendiou no Mar Adriático.

Com Argilio Giacomazzi fora da embarcação que comandava, as autoridades puderam finalmente dar por concluída uma missão que envolveu nada menos que sete embarcações privadas, uma fragata da armada grega e quatro lanchas da guarda costeira, além de três helicópteros e dois aviões das forças aéreas grega e italiana.

Desde o primeiro sinal de alerta, dado pouco depois do início de um incêndio a bordo, cerca das 3h30 (hora de Lisboa), começou uma luta contra o tempo. Com tudo a conjugar-se para o pior (foi assim de facto para 10 das 478 pessoas oficialmente a bordo), as primeiras horas foram de pânico para quem ficou encurralado pelas chamas, relatado em primeira mão por muitos dos passageiros que contactaram familiares ou mesmo estações de televisão para testemunhar as "condições terríveis" que se viviam no interior do ferry.

O fogo - que terá começado na área de estacionamento quando a embarcação se encontrava a 45 milhas náuticas (cerca de 80 quilómetros) a noroeste da ilha de Corfú e a 22 (40 quilómetros) do litoral italiano - propagou-se demasiado depressa. Vinte minutos após ter sido detetado, já o comandante dava ordens para a evacuação e lançava um apelo dramático: "O navio está ingovernável e segue à deriva na direcção da costa da Albânia. Ajudem-nos". 

Condições adversas

Em menos de uma hora, praticamente dois terços do ferry estavam a arder e a embarcação começava a inclinar-se. A prioridade foi virar o Norman Atlantic para que o vento levasse o imenso fumo e melhorassem as condições de visibilidade para os helicópteros a operar, já que, do total de passageiros, apenas 150 foram retirados em botes salva-vidas. Os demais continuavam a bordo.

As condições no mar em nada ajudaram. Muito frio, agitação marítima e vento forte não impediram a operação de resgate, mas dificultaram-na ao máximo. Só ao amanhecer foi possível imprimir melhor ritmo ao vai e vem dos helicópteros e acelerar o transporte dos passageiros até local seguro, muitos já com sinais de hipotermia, apesar de uma equipa médica ter sido desde logo incluída na operação, para prestar os primeiros socorros.

Durante a manhã chegaram também as más notícias. À primeira morte já contabilizada, a de um homem grego, de 62 anos, que perdeu a vida ao cair ao mar quando tentava alcançar um dos botes, as autoridades somaram mais quatro cadáveres e posteriormente mais dois, fazendo ascender o número de vítimas mortais, para o fixar em sete. 

Quantos passageiros transportava realmente o ferry?

O balanço não estava ainda fechado. Mais três corpos foram descobertos, ao mesmo tempo que se percebeu existirem discrepâncias entre o número oficial de passageiros e o total que seguia no interior do ferry: das 427 pessoas resgatadas, algumas não constavam da lista fornecida, o que levou as autoridades a admitirem a existência de clandestinos e a falar em vários desaparecidos. Já esta terça-feira, o procurador de Bari, citado pela RAI 1, falava em 179 pessoas cujo destino "não é conhecido", ainda que muito gregos possam estar já no país de origem, por terem sido resgatados e transportados por embarcações gregas que participaram nas operações. 

Cumprido o resgate, uma das próximas etapas (além da investigação que entretanto foi anunciada), é rebocar o Norman Atlantic. Deverá ser levado para um porto albanês ou para Puglia (em Itália).

O ferry fazia a ligação entre o porto grego de Igoumenitsa e o porto de Ancona, em Itália, tendo sido fretado pela companhia grega Anek. Construído em 2009, em dezembro foi aprovado numa inspeção, embora o armador italiano tenha admitido que foi detetado um problema numa das portas corta-fogo. Sobre a operação de resgate, o primeiro-ministro italiano foi pródigo em elogios na conferência de imprensa dada na segunda-feira. Matteo Renzi sublinhou o "trabalho impressionante" de todos os envolvidos.