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Internacional

Como o regime da RDA foi conivente com as farmacêuticas ocidentais. E vice-versa

Vista exterior atual da Universidade de Humboldt, em Berlim. Antes da unificação das Alemanhas esta unidade estava integrada na RDA e ali terão sido levadas a cabo algumas experiências laboratoriais usando cobaias humanas

BARBARA SAX/AFP/Getty Images

O regime comunista da Alemanha de Leste precisava de dinheiro, as farmacêuticas ocidentais aproveitaram para testar os seus produtos. Investigadores afirmam que o ato não terá sido tão atroz como até aqui foi afirmado pelos 'media' alemães, mas que os seus contornos levantam sérias dúvidas éticas.

Sessenta e oito farmacêuticas ocidentais levaram a cabo testes clínicos na antiga Alemanha de Leste (República Democrática Alemã, RDA) entre 1983 e 1990, num esquema permitido pelo endividado regime comunista. 

Desde a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha, em 1990, as experiências médicas em cidadãos da RDA foram por várias vezes referidas pelos "media". Foi, contudo, a partir de 2012, com as reportagens da revista alemã "Der Spiegel", que o caso chegou às bocas do mundo.

A revista alegava que, com a conivência do regime comunista da Alemanha Oriental, os cidadãos locais foram usados como "cobaias" a troco de dinheiro, que testes de "doping" foram levados a cabo em bebés prematuros, e pacientes com doenças graves foram tratados com placebo.

Um grupo de investigadores liderado pelo médico e investigador alemão Rainer Erices, do Instituto para a História e a Ética da Medicina da Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nürnberg, reitera que há sérias questões éticas envolvidas no caso, mas rejeita o "sensacionalismo" e "distorção" com que este tem sido tratado. 

 

14 mil participantes renderam 16,5 milhões de marcos

Apesar de o sistema de saúde ser apresentado como uma das principais bandeiras da RDA, o regime estava, nos anos 80, à beira do colapso, tal como a economia nacional. Para sustentar o Ministério da Saúde, Berlim-Leste recorria então ao tratamento de estrangeiros, venda de plasma sanguíneo e, a partir de 1983, testes clínicos de medicamentos e equipamento médico.

Entre 1983 e 1990 foram registados 220 testes a medicamentos fabricados no Ocidente. Entre estes contavam-se insulina, antidepressivos, anti-histamínicos, substâncias usadas em quimioterapia e até pasta de dentes. Alguns dos fármacos em questão continuam no mercado ainda hoje, lembra o grupo liderado por Erices num artigo publicado esta quinta-feira no "Journal of Medical Ethics".

Ao todo, os testes de medicamentos produzidos por farmacêuticas ocidentais contaram com 14 mil participantes de todas as idades, que renderam ao regime comunista cerca de 16,5 milhões de marcos (8,4 milhões de euros).

 

"Os testes eram conduzidos sem que o público fosse informado"

O artigo sublinha que, por um lado, "permanece pouco claro se os pacientes sabiam que estavam a participar em testes e estavam conscientes dos riscos" e, por outro, que é suspeito o facto de "os serviços secretos estarem muito bem informados acerca dos testes médicos. A Stasi [serviços secretos da RDA] tinha colaboradores não-oficiais em todas as áreas importantes do sistema, que mantinham os seus superiores bem informados."

"O problema moral geral é que os testes eram conduzidos sem que o público fosse informado. Especificamente, as transações comerciais ocorriam sem o conhecimento dos cidadãos da Alemanha de Leste, para servir os interesses económicos de um país que se abeirava rapidamente de uma bancarrota financeira."

"Claro que fazer testes sem o consentimento dos pacientes seria muito mais grave. Contudo, não conseguimos determinar conclusivamente se, ou em que medida, os pacientes estavam informados", lê-se no artigo publicado na quinta-feira, no qual os investigadores afirmam que ainda haverá muito por descobrir sobre o caso.

De acordo com o regime da RDA, os testes em causa deveriam ter o consentimento dos pacientes, obrigatoriamente informados sobre o processo. A partir de 1986, tanto o paciente como o médico responsável deveriam assinar um protocolo escrito e, para participar num estudo de fase III, as pessoas em questão teriam de ter a doença para que o medicamento havia sido concebido. 

Numa crítica àquilo que definiram como o "sensacionalismo dos media" e a informações "tendenciosas, distorcidas e muitas vezes incorrectas" a propósito da série de reportagens sobre o assunto publicadas pela "Der Spiegel" entre 2012 e 2013, os autores do estudo afirmam: "Não encontrámos qualquer prova de procedimentos que sistemática ou intencionalmente fizessem mal aos pacientes." 

 

Como o regime autoritário foi útil às farmacêuticas

O facto de as características do regime autoritário vigente no país terem sido úteis para as farmacêuticas ocidentais não passou despercebido no artigo: "O sistema falsificava frequentemente o passado, o presente e o futuro, portanto era impossível aos cidadãos determinarem a verdade. Nesta situação, era difícil para qualquer pessoa tomar uma decisão independente, sobretudo dado que a opinião pública era extensivamente manipulada e controlada. Esse facto dava muito jeito às companhias farmacêuticas ocidentais." 

O grupo de investigadores alemães relembra, por exemplo, que a farmacêutica francesa Roussel Uclaf parou a distribuição de mifepristone - substância usada para induzir o aborto - devido a protestos pró-vida em 1988 e automaticamente iniciou testes à substância na RDA. 

O artigo ressalva que não foi encontrada qualquer prova de que os testes terão sido conduzidos em "instituições governamentais como orfanatos, prisões ou estabelecimentos militares". Na maioria dos casos, estes eram levados a cabo em instituições universitárias como a Universidade Humboldt, em Berlim, a Academia de Medicina de Dresden.