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Cólera. A nova ameaça para quem sobreviveu ao sismo

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As crianças poderão ser as principais vítimas das deficientes condições de higiene nas aldeias e cidades arrasadas pelo violento sismo de sábado

Athit Perawongmetha/Reuters

E ao quarto dia, o Governo do Nepal enfrentou a ira daqueles que desesperam por ajuda.

Delegação do Governo do Nepal no distrito de Dolakha, a nordeste da capital, Katmandu. Centenas de manifestantes vandalizam as instalações exigindo tendas, alimentos e água. Saíram como entraram. De mãos cheias de nada. Por todo o país, milhares de nepaleses desesperam.

"Nem o Governo, nem as agências humanitárias vieram em nosso auxílio. Continuamos a viver ao relento", conta Sasmita Shrestha, 24 anos, ao "The Guardian", a partir de Chautara, distrito de Sindhupalchowk.

Se as condições higienossanitárias não melhorarem nos próximos dias para 4,2 milhões de nepaleses, doenças como a cólera e as diarreias vão atacar, sobretudo as crianças. O alerta partiu de Sean Casey, da International Medical Corps (IMC), em Katmandu. "A comunidade internacional tem de agir rapidamente", disse este médico a uma repórter do conceituado jornal britânico. "As pessoas estão furiosas e cada vez mais preocupadas com o seu futuro imediato. Nos acampamentos não há casas de banho."

As chuvas intensas previstas pelos meteorologistas para os próximos dez dias poderão antecipar o habitual surgimento de casos de cólera durante a época das monções, entre junho e setembro. A cólera é uma infeção aguda provocada por uma bactéria (Vibrio cholerae) que sobrevive durante muito tempo nas águas contaminadas (por fezes humanas) e que venham a ser ingeridas ou usadas na confeção de alimentos. O período de incubação é curto, normalmente um a três dias. 

A equipa da IMC, constituída por cerca de 40 médicos estrangeiros e nepaleses, está no terreno desde domingo. Até ao momento, tentou, sem sucesso, chegar por terra às áreas mais afetadas. Uma das duas unidades médicas móveis da IMC teve de seguir a pé no distrito de Dhading, junto ao epicentro, numa corrida contra o tempo para acodir aos sobreviventes nas zonas rurais.

"Mesmo aquelas pessoas que têm apenas ferimentos ligeiros correm o risco de contrair infeções. A água potável e o saneamento também é um problema sério para as populações isoladas. A cólera alastra por aqui com grande facilidade e não é difícil prever um surto iminente", conta Sean Casey, que no domingo visitou Gorkha, 150 quilómetros a oeste da capital.

"O problema é chegar às aldeias do norte, algumas das quais estão a dois dias de distância, a pé, em circunstâncias normais. Com os deslizamentos é ainda mais difícil", refere. O regresso a Katmandu "levou horas e horas", recorda o médico da IMC.