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CIA. A verdade é muito pior

LARRY DOWNING / REUTERS

Alimentação retal, simulação de afogamento e dias seguidos de privação do sono foram alguns dos métodos de interrogatório utilizados pela CIA para obter informações a partir de suspeitos associados a Osama bin Laden, após os ataques do 11 de Setembro. Um relatório do Senado norte-americano, divulgado esta semana, concluiu que estes métodos foram ineficazes para a captura do ex-líder da al-Qaeda. As 6.000 páginas do documento relatam acontecimentos imprevisíveis e impressionantes, como o que envolveu Abu Zubaydah: esteve fechado 266 horas numa espécie de caixão - e depois mais 29 horas num espaço ainda pior.

Agosto de 2002: durante 11 dias e duas horas, Abu Zubaydah esteve dentro de uma caixa de confinamento do tamanho de um caixão. Depois disso, e como se não bastasse, passou 29 horas dentro de uma caixa ainda menor - 53 centímetros de largura e 76,2 centímetros de profundidade. Várias vezes se ouviram gritos, súplicas, lamentos, mas nunca durante esse período o homem afirmou ter informações adicionais sobre quaisquer ameaças para os Estados Unidos (EUA) ou associações a Osama bin Laden. Outras vezes foi esbofeteado, privado do sono e submetido a "wallings" (onde era lançado contra a parede) e a pelo menos 83 "waterboardings" (simulações de afogamento).

O objetivo, segundo a CIA, era saber mais informações sobre aquele que acreditavam ser uma peça-chave na captura de Osama bin Laden: Abu Ahmad al-Kuwaiti, um xeque do Kuwait que nascera no Paquistão, membro da al-Qaeda e suspeito de ser bastante próximo de bin Laden. O recurso à tortura como método de interrogatório, no entanto, precedeu as perguntas da CIA sobre al-Kuwaiti: até 17 de julho de 2005, a agência não terá questionado Zubaydah sobre esse assunto e estas "técnicas reforçadas de interrogatório" - eufemismo utilizado pela CIA - tinham já começado a ser utilizadas anteriormente. Só nesse julho de 2005 é que Zubaydah descreveria um indivíduo - que a CIA suspeitava tratar-se de al-Kuwaiti -, mas afirmaria, mentindo, que este não era próximo de bin Laden.

Ao contrário do que alegava a CIA, a informação mais relevante sobre al-Kuwaiti não seria obtida através do recurso à força ou à tortura. Já tinha sido adquirida pela agência anteriormente, em 2002, não a partir de prisioneiros sob sua custódia, mas de informação recolhida a partir de detidos sob custódia de outros países. Quando Zubaydah foi capturado a 28 de março de 2002 pelas autoridades paquistanesas, levava consigo uma agenda telefónica, na qual se encontrava o contacto de "Abu Ahmad K.", que seria identificado como sendo Abu Ahmad al-Kuwaiti. Seria a partir daqui que esta informação chegaria aos ouvidos da CIA.

O que é que esta história nos diz? É apenas um exemplo de que a CIA mentiu à Casa Branca e ao Congresso sobre a eficácia do seu programa de contraterrorismo, aplicado com o intuito de descobrir o paradeiro de Osama bin Laden após os atentados do 11 de Setembro. É isto que afirma, ao longo de mais 6.000 páginas, um relatório da Comissão de Serviços Secretos do Senado dos EUA divulgado esta semana, onde são revelados métodos de interrogatório "brutais e muito piores" do que a agência de informações antes admitira. 

Utilizados sob a justificação da sua relevância para obter informação importante sobre o paradeiro de Osama bin Laden, estes "métodos reforçados de interrogatório" (leia-se "tortura") são agora contestados pela Comissão. Na verdade, o relatório revela que a informação mais importante, obtida em 2002, sobre a relação de al-Kuwaiti com bin Laden não foi adquirida através de prisioneiros sob custódia da CIA, mas sob detenção estrangeira e antes dos interrogatórios brutais realizados pela agência. Entre estes dados estavam o número de telefone de al-Kuweiti, o seu endereço de email, a idade, descrição física, dados sobre a família e a relação de proximidade que mantinha com Osama bin Laden - sendo, provavelmente, o seu mensageiro.

"Let's roll with the new guy"

Khalid Shaykh Muhammad, o principal arquiteto dos ataques do 11 de Setembro, foi um dos prisioneiros que acabou por ir parar às mãos da CIA. Capturado a 1 de março de 2003 pelas autoridades paquistanesas, Khalid levava com ele um computador portátil no qual se encontrava um endereço de email associado a al-Kuwaiti. Só posteriormente seria interrogado pela CIA.

Pouco tempo antes da agência norte-americana terminar o interrogatório, e antecipando a sua transferência para um dos centros de detenção, o chefe do interrogatório enviou um email para a sede da CIA com o título "let's roll with the new guy" (numa tradução livre, "vamos a ele").

Já sob custódia da CIA, Khalid foi submetido a novos interrogatórios, mais negros e brutais. Ao final de um dia de pancada, de ser colocado em posições de stress durante muitas horas seguidas, de ser privado do sono e de levar com baldes de água gelada, entre outros, um psicólogo do centro concluiu que o interrogatório seria melhor sucedido se "se evitassem confrontos que permitissem [a Muhammad] transformar o interrogatório numa luta de vontades com o interrogador". A CIA, no entanto, descreveria o interrogatório que se seguiu como "a melhor sessão até ao momento", com um Khalid "mais cooperante". Já o relatório da Comissão revela o contrário: é verdade que Khalid colaborou, mas forneceu informação inventada que levaria à detenção de dois inocentes. E as referências a al-Kuweit foram esquivas e erróneas, diminuindo a sua importância dentro da al-Qaeda.

Alimentação e reidratação retal forçada, "waterboarding", privação do sono até 180 horas, banhos de água gelada, "walling", humilhações ou ameaças psicológicas foram algumas das técnicas de interrogatório mais polémicas, utilizadas durante dias ou semanas seguidas, em pelo menos 39 dos 119 prisioneiros que se sabe terem estado sob custódia da CIA. Destes, 26 terão sido detidos indevidamente.

Como se costuma dizer, o diabo está nos detalhes. E a habilidade da CIA para justificar esta metodologia revela-se nos pormenores. De acordo com a agência norte-americana, 12 prisioneiros forneceram informação prioritária sobre a relação entre Abu Ahmad e bin Laden. No entanto, a agência 'esqueceu-se' de mencionar que cinco deles disponibilizaram essa informação antes de ficarem sob sua custódia. A CIA acrescentava ainda que nove dos 12 detidos foram submetidos a "métodos reforçados de interrogatório". Mas não disse que cinco destes forneceram informações sobre Abu Ahmad al-Kuwaiti antes de terem sido submetidos a este tipo de métodos.

É o caso de Ammar al-Baluchi e Hassan Ghul, apontados como aqueles que disponibilizaram a informação mais crucial para a investigação da CIA. Os dois afirmaram com clareza que al-Kuwaiti era mensageiro de bin Laden e uma das pessoas mais próximas do então líder da al-Qaeda - e, por isso, fundamental para encontrar o seu esconderijo. Esses dados, no entanto, foram obtidos antes da utilização de métodos de tortura como forma de interrogatório.

É certo que a CIA acabaria por descobrir o paradeiro de Osama bin Laden em 2011, através do seu mensageiro Abu Ahmad al-Kuwaiti, numa mansão na província paquistanesa de Abbottabad. O relatório da Comissão de Serviços Secretos do Senado dos EUA não nega esse facto. Mas questiona a eficácia desta missão que levou à morte do ex-líder da al-Qaeda: grande parte das informações essenciais para esta operação não foi obtida através de detidos sob custódia da CIA, nem com recurso a métodos brutais de interrogatório.