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Centenas no adeus a Nemtsov

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Uma pessoa presente na cerimónia de terça-feira com um livro do próprio Nemtsov, "Confissões de um Rebelde", e um cravo vermelho

Maxim Shemetov /REUTERS

A cerimónia que antecedeu o funeral do líder da oposição russa, Boris Nemtsov, morto a tiro na passada sexta-feira, contou com centenas de pessoas. O vice primeiro-ministro russo esteve presente, mas dois representantes estrangeiros foram impedidos de entrar no país para ir à cerimónia.

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Centenas de russos juntaram-se esta terça-feira para dizer um último adeus a Boris Nemtsov, antigo vice primeiro-ministro de Boris Ieltsin e crítico feroz do Presidente Vladimir Putin, morto a tiro na passada sexta-feira perto do Kremlin.

Centenas de pessoas, muitas transportando cravos vermelhos, fizeram fila para prestar uma última homenagem ao corpo de Nemtsov, exposto no centro Sakharov ao longo da manhã de terça-feira, descreve a agência Reuters,.

O funeral realiza-se na tarde do mesmo dia, no cemitério Troyekurovskoye, em Moscovo, onde também está enterrada a jornalista Anna Politkovskaya, outra crítica do Kremlin morta a tiro em 2006.

O Presidente Putin fez-se representar no centro Sakharov pelo vice primeiro-ministro Arkady Dvorkovich, que levou consigo um ramo de flores vermelhas. Entre outros representantes oficiais contam-se o embaixador norte-americano em Moscovo, John Tefft, e o antigo primeiro-ministro britânico John Major. O ex-líder britânico exigiu uma investigação transparente à morte de Nemtsov e declarou à BBC que esta é a sua "visita mais triste de sempre a Moscovo".

Dois representantes estrangeiros que pretendiam assistir à cerimónia foram, no entanto, impedidos de entrar em território russo. O presidente do Senado polaco, Bogdan Borusewicz, viu o seu acesso negado como retaliação pelas sanções impostas pela União Europeia à Rússia, na sequência do conflito ucraniano.

Também uma deputada da Letónia, Sandra Kalniete, disse à AFP ter sido proibida de entrar na Rússia, sem lhe ter sido dada uma explicação. "Como sempre tomei uma posição clara e uma linguagem explícita no papel da Rússia na Ucrânia, suspeitava que isto pudesse acontecer", declarou a representante letã.

Navalny sem autorização para ir ao funeral

Quem também pretendia estar presente na cerimónia, mas não obteve autorização para tal, foi Alexei Navalny, líder da oposição atualmente detido. Navalny fez na segunda-feira um pedido a um tribunal de Moscovo para poder ao funeral de Nemtsov, que foi recusado.

O juiz invocou que a lei apenas permite a saída da prisão em casos excepcionais como a morte de um familiar ou em caso de doença, segundo relata a agência Interfax. Navalny está actualmente a cumprir uma pena de 15 dias de prisão por ter distribuído panfletos no metro de Moscovo a propósito da manifestação do passado domingo. O líder político é um dos principais rostos da oposição russa, mas os sucessivos processos legais em quem tem sido envolvido tornam difícil que assuma um lugar de destaque.

A morte de Boris Nemtsov cria um vazio profundo no seio da oposição política, que pode não ser rapidamente preenchido, como explicou Alexander Pozhalov, investigador do Instituto de Investigação Socio-Económica e Política de Moscovo, ao "Moscow Times": "Um dos papéis de Nemtsov dentro da oposição era o de moderador", explicou o especialista. "Ele ajudava as diferentes forças da oposição a unirem-se. Era um político profissional, com imensa experiência, muito mais do que tem qualquer outro líder da oposição."

Investigação em curso

O Kremlin já abriu uma investigação à morte de Nemtsov, tendo o Comité de Instrução da Rússia oferecido uma recompensa de três milhões de rublos (cerca de 45 mil euros) por "informações valiosas" sobre o caso.

A testemunha principal, Anna Duritskaya, uma modelo ucraniana que estava com Nemtsov quando este foi morto, foi interrogada nos últimos dias. Duritskaya diz não ter visto a cara do assassino e alega que as autoridades russas a mantiveram sob custódia policial durante três dias sem uma explicação: "Já lhes disse tudo o que foi possível e não sei por que continuo em território russo", desabafou a modelo, segundo conta o jornal "The Guardian", tendo entretanto regressado a Kiev.

Os investigadores dizem estar a ver as imagens das câmaras de vigilância do local, mas ainda não foram tornadas públicas imagens conclusivas.

O Kremlin deixa em aberto a possibilidade de uma vingança pessoal ou uma tentativa de destabilização da situação interna da Rússia por forças externas - nomeadamente relacionadas com o conflito na Ucrânia -, mas a oposição acredita que este foi um assassínio político vindo de dentro do próprio país: "[Nemtsov] foi assassinado por aqueles que apoiam a política de agressão contra outros povos, incluindo a Ucrânia", declarou Serguei Mitrojin, líder do partido liberal Yábloko.