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Cemitérios lotados levam Pequim a insistir na cremação

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Velar os corpos dos entes queridos e prestar-lhes homenagem nos cemitérios é uma tradição chinesa, mas um problema para a autarquia de Pequim

FOTO FRED DUFOUR/AFP/Getty Images

Por ano, morrem entre 80 mil e 90 mil pessoas na capital chinesa. Os cemitérios da cidade começam a ficar sem espaço e a cremação é defendida como a melhor alternativa.

É uma luta antiga. Desde 1997 que a câmara de Pequim tenta implementar a cremação como uma cerimónia funerária mais económica e ecológica do que os enterros tradicionais. Além de serem mais dispendiosos, o volume destes funerais é de tal ordem que os cemitérios começam a ficar com falta de espaço para mais sepulturas. A solução para o problema, defende o Governo de Pequim, está na cremação.

Apesar de a câmara querer implementar esta alternativa, tem noção de que será uma medida a ser assimilada pelos habitantes apenas a longo prazo, dado o peso dos velórios na tradição chinesa.

O enterro tradicional faz parte dos hábitos chineses e serve de conexão entre os vivos e os mortos. "Se não tens uma sepultura, onde é que vais recordar os teus familiares?" pergunta Zhang, de 40 anos, citada pelo jornal "El País".

Pequim tem 21 milhões de habitantes e, anualmente, morrem entre 80 mil a 90 mil pessoas só na capital chinesa. Estes números têm preocupado o governo chinês, mas há um dado recente que os alerta ainda mais para este problema. Segundo um estudo feito pelo Instituto 101 da Academia de Ciências Sociais -"Relatório sobre o desenvolvimento funerário da China 2014-2015" - caso não se abandone a tradição, os cemitérios podem ficar sem solo em pouco mais de uma década.  

Na tentativa de criar mais alternativas, Pequim estuda até ideias mais originais, como a realização de enterros em locais "verdes", eventualmente canteiros ou debaixo de árvores. Para a própria câmara, estas são, no entanto, opções menos viáveis que espalhar as cinzas dos entes queridos no mar. Apesar disso, a cremação não é praticamente escolhida pelos habitantes da cidade. Nos últimos 20 anos, apenas foram feitas 11, 876 cremações.

Funerais mais caros

Para que as pessoas deixem de querer enterrar os seus entes queridos e passem a cremá-los, a autarquia decidiu este ano aumentar para o dobro o valor da concessão de um espaço nos cemitérios. De dois mil yuanes (300 euros), a tabela passou para quatro mil (600 euros), um valor pouco acessível para a maioria dos cidadãos, cujo salário médio não ultrapassa os 5,793 yuanes (870 euros). Além disso, para estimular a opção pela cremação, as empresas envolvidas asseguram o transporte gratuito até ao porto de Tianjin, local onde as pessoas podem espalhar no mar as cinzas dos familiares ou amigos. As empresas oferecem ainda um ramo de flores para complemantar as cerimónias.

A Câmara espera, assim, que este ano sejam feitas mais de duas mil cremações. Com a vantagem acrescida de se poupar dinheiro. O custo de um enterro tradicional ultrapassa os 70 mil yuanes (10,500 euros) mas, somado a outros gastos, pode chegar a mais de 150,000 yuanes (22,500 euros), sublinha o  "El País".