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Cem anos depois, guerra de palavras e números continua a marcar o genocídio arménio

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FOTO EPA/VAHRAM BAGHDASARYAN

Na capital da Arménia cumpriu-se um minuto de silêncio e foram canonizadas as mais de 1,5 milhões de vítimas no Império Otomano durante a I Grande Guerra. Já a Turquia continua a recusar o termo genocídio, garantindo que o número de mortos é inferior.

Esta quinta-feira arrancaram as cerimónias no âmbito do 100.º aniversário do genocídio arménio - que se assinala hoje - em que morreram mais de 1,5 milhões de pessoas no Império Otomano durante a I Guerra Mundial.

A data foi assinalada na véspera pela Igreja Apostólica arménia com a canonização das vítimas junto da catedral de Etchmiadzine, enquanto esta sexta-feira já foram depositadas flores e cumprido um minuto de silêncio num lugar de culto nos arredores da capital.

"Agradeço a todos aqueles que marcam aqui presença, confirmando mais uma vez o seu comprometimento em relação aos valores humanos e que nada está esquecido após 100 anos", declarou o Presidente arménio Serzh Sargsyan, citado pela BBC.

O governante acusa a Turquia de pretender dispersar as atenções sobre a sua posição em relação ao massacre, ao assinalar também a efeméride no país - com o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoqlu a declarar que a Turquia "partilha a dor do povo arménio" -, uma vez que o país continua a recusar usar o termo genocídio e a garantir que o número de vítimas é inferior a 1,5 milhões.

"Questionar estes números e as responsabilidades não é para os políticos, mas para os historiadores. Aqueles que desenvolvem sentimentos de ódio contra a Turquia deviam sentir vergonha e prestar contas em frente à história e à humanidade", disse Ahmet Davutoqlu.

Também Barack Obama fugiu à palavra genocídio - apesar de ter prometido na campanha presidencial em 2008 reconhecer esse facto histórico -, limitando-se a falar naquela que considera ter sido "uma das piores atrocidades do século XXI" com o povo arménio. "Os arménios do Império Otomano foram deportados, massacrados e levados para a morte. A sua cultura e património foram apagados da sua antiga terra natal, numa das piores atrocidades do século passado", afirmou Obama.

Entretanto, a Alemanha pela voz do Presidente Joachim Gauck assumiu corresponsabilidade nas mortes no Império Otomano entre 1915 e 1917, referindo o termo genocídio.

"O destino dos arménios faz parte da história de extermínios em massa, limpezas étnicas e expulsões que marcaram o século XX. Neste caso, nós alemães temos que assumir resposabilidade partilhada ou mesmo cumplicidade", afirmou Joachim Gauck durante uma cerimónia na capital alemã, sublinhando que sem esse reconhecimento não há reconcilição e paz.

Recorde-se que o Papa Francisco também recorreu este mês ao termo "genocídio arménio" durante uma missa pelas vítimas arménias do massacre pelo Império Otomano entre 1915 e 1917.

"No século passado, a nossa família humana passou por três tragédias sem precedentes. A primeira, que foi largamente considerada como o primeiro genocídio do século XX que atingiu o povo arménio", declarou Francisco.



A maioria das vítimas arménias morreram durante massacres e deportações para as regiões deserticas da Síria e Mesopotâmia entre 1915 e 1917, tendo sido agora declarados "mártires" pela Igreja Apostólica arménia.