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Cartoons e ideias de um outro mundo

O mundo árabe também reagiu ao atentado no jornal "Charlie Hebdo". Muitos condenaram, a maioria dos 'media' noticiou, poucos tomaram posições tão claras como as dos cartoonistas. Mas o mais estranho aconteceu nos EUA, onde houve omissões e censura. Aqui fica um olhar por esse outro lado do mundo.

"Uma das primeiras perguntas que ouvi na quarta-feira, quando surgiram as notícias sobre um tiroteio na redação de um jornal em Paris, foi 'é um jornal judeu?'", escreve Anshel Pfeffer. O próprio jornalista do diário israelita "Ha'aretz" reconhece que a questão pode soar como uma visão "tacanha" do mundo, no entanto "faz sentido", já que "havia toda a razão para acreditar que o próximo grande ataque terrorista em França seria contra um alvo judeu", uma vez que os últimos dois atentados na Europa foram ao Museu Judeu, em Bruxelas, e a uma escola de Toulouse, em França.

"Primeiro vieram buscar os judeus, depois são os jornalistas", diz Anshel Pfeffer parafraseando o pastor Martin Niemöller, que despertou tarde para o antinazismo. Para si, a escolha de judeus e jornalistas satíricos como alvo está estritamente ligada e "não só porque um dos cartoonistas assassinado, Georges Wolinski, é judeu". Uma comunidade judaica bem-sucedida e bem relacionada, e um semanário que satiriza quem quer que seja, em especial quem está no poder, são símbolos do que há de melhor deste prolongado período de paz que se sucedeu à segunda guerra mundial - "Não é coincidência a escolha de ambos como alvos".

O cartoonista político libanês Stavro Jabra reagiu assim

O cartoonista político libanês Stavro Jabra reagiu assim

Jabra

"Nós queremos defender a liberdade de imprensa, a liberdade dos media e a liberdade de opinião", afirma o cartoonista político libanês Stavro Jabra, que conhecia alguns dos camaradas mortos, citado pelo jornal israelita "Ynetnews". No Líbano, a liberdade é menos controlada do que em outros países árabes, mas mesmo assim... há campos proibidos. "Não podemos entrar nas religiões... se desenharmos Nasrallah [secretário-geral do Hizbollah] somos atacados", adianta Jabra, precisando: "Desenhar esta ou aquela pessoa é proibido. Se o fizermos temos ameaças, telefonemas, emails dizendo 'isto não pode ser desenhado'". 

Solidariedade num jornal marroquino

Solidariedade num jornal marroquino

O jornal argelino "El khabar", por exemplo, dá maior ênfase à reunião de quinta-feira, na Liga Árabe, de especialistas que acompanham casos de terrorismo nos países árabes e que estão a elaborar um conjunto de medidas antiterrorismo para apresentar aos governantes no próximo dia 15. Segundo o vice-secretário-geral da Liga, Ahmed Ben Helli, o terrorismo nestes países atingiu, de novo, um nível perigosíssimo, não sendo já uma coisa de grupos mas sim de organizações que ameaçam o mundo árabe no coração.

A observação resulta sempre das experiências do observador. Jornalistas do mundo árabe, das letras e das artes, desde o atentado que não param de escrever e desenhar sobre a morte dos camaradas franceses. Todos, ou quase todos, já que é impossível mergulhar profundamente numa língua que se desconhece, expressam veementemente a sua solidariedade. Outros com posições mais contidas condenam o sucedido, mas fazem questão de lembrar que estes atos violentos e assassinos nada têm que ver com o islão ou com os árabes.

Um cartton do argelino Ali Dilem publicado no Twitter

Um cartton do argelino Ali Dilem publicado no Twitter

Ali Dilem

Ao contrário da percepção da maioria, o jornalista e pesquisador sufista Saïd Djabelkheir, citado pelo jornal argelino "Al Watan",  não fica surpreendido pelo facto de muçulmanos matarem em nome do mesmo islão. "Os textos de referência geram, inevitavelmente, atitudes violentas por parte dos crentes, quando são lidos e interpretados fora do seu contexto histórico", diz. "É preciso muita coragem para reconhecer isso, mas é a realidade", acrescenta Djabelkhir, que, no entanto, lamenta que este "atentado terrorista" seja reivindicado em nome do Islão, até porque provoca um aumento da islamofobia em França", mas também acredita que "o espírito de cidadania vai prevalecer".

Publicado no Al-Arabi Al-Jadeed

Publicado no Al-Arabi Al-Jadeed

O "Al-Charq", um dos líderes da imprensa do Qatar, tem hoje uma pequena chamada para o que se está a passar em Paris. No próprio dia, publicou um comunicado do governo no qual se condenava o ataque por homens armados na sede do jornal "Charlie Hebdo", na capital francesa. "Tais atos contra civis indefesos são contrários a todos os princípios morais e valores humanos", lia-se na nota em que o Ministério das Relações Exteriores também dava as suas condolências às famílias das vítimas e expressava solidariedade para com o Governo da República Francesa.

Mas os colunistas de opinião deste jornal pró-governo preferem, esta sexta-feira, dedicar-se a assuntos regionais ou a falar indiretamente do atentado em França, ou seja, expõem os problemas existentes entre ocidente e mundo árabe, sem mencionar o sucedido quarta-feira. Talat Rmelh, um dos colunistas, aborda a intervenção na Líbia liderada por França, dizendo que tudo tem sido feito de modo a enganar a opinião pública. Abu Rosas, que faz uma dissertação sobre a religião e o Estado, cita diversos intelectuais muçulmanos na defesa de que no islão religião e Estado é a mesma coisa - o profeta era chefe religioso e governava.

Desenho de Armand Homsi, publicado no jornal libanês Al-Nahar

Desenho de Armand Homsi, publicado no jornal libanês Al-Nahar

 No jornal libanês "al-Nahar", cujo fundador e colunista principal foram assassinados há dez anos por agentes sírios, o cartoonista libanês Armand Homsi publicou o seu "gritoon" contra o sucedido, cravando um lápis no cabo de uma espingarda. "Todos os jornalistas assassinados são uma tocha que ilumina o caminho para outros jornalistas. Não importa quão duro eles tentam silenciar a imprensa, a palavra escrita continuará a ser uma bomba-relógio que um dia vai explodir nos rostos de terrorismo e os terroristas", diz no editorial.

"O que aconteceu em Paris é um ataque francês em França", escreveu o colunista libanês Amar Mohsen. Tentando explicar a causa do crime, refere que os assassinos são cidadãos franceses que cresceram numa cultura que os exclui. Outro colunista muçulmano, o marroquino Hamid Zid, considera ser este atentado ao "Charlie Hebdo" o "presente mais precioso que o terror tem dado o racismo em França". Para si, foram assassinados não apenas os jornalistas, mas os milhões de muçulmanos que vivem neste país, e também reafirmou a imagem assassina do Islão. "Mergulharam uma faca no coração do Islão e dos muçulmanos de todo o mundo."

Publicado no jornal Al Jareed, do Kuwait

Publicado no jornal Al Jareed, do Kuwait

 O "Al Jarida" do Kuwait, além de acompanhar o que se passa em França, noticiosamente falando, dá conta de um discurso desta sexta-feira, numa inauguração em Beirute, do secretário-geral do Hezbollah, cujo tom é de condenação ao atentado ao jornal francês, mas sem qualquer referência direta. Hassan Nasrallah, que apoia o regime do Presidente sírio Bashar al-Assad, culpa os muçulmanos radicais (da ideologia takfiri) de ofenderem mais o islão do que aqueles que escrevem livros, fazem filmes ou desenham ofendendo o profeta ao longo da História. Mas não deixou de dizer que a culpa da formação desses grupos radicais é dos países ocidentais. Após "as práticas repulsivas e cruéis" cometidas na Síria, Iraque, Líbano, Paquistão, Afeganistão e Iémen, "o flagelo alcançou agora os Estados que exportaram [os extremistas] para as nossas nações", concretizou o líder do Hezbollah, apelando à união da nação islâmica.

No jornal libanês Al Akhbar

No jornal libanês Al Akhbar

No tunisino "Al Chourouk", o foco, com um pedido de solidariedade, são os jornalistas Sufian Chourabi e Nazir Alkatiri, também mortos recentemente. No "Akhbar Elyom", o assunto está quase desaparecido: há notícias mas o periódico egípcio pró-governo mostra-se mais interessado no recém-empossado Presidente Sissi e na visita que fez quinta-feira ao Kuwait para afirmar que o "Egito está de volta". Quanto ao sucedido em Paris, Hany Shams, cartoonista deste jornal, diz que "vê o atentado como uma continuação do que está acontecer na Síria ou no Iraque... a mesma mentalidade".

Uma das fotos censuradas no New York Daily News

Uma das fotos censuradas no New York Daily News

captura de ecrã

Censura onde menos se espera As visões entre os dois mundos civilizacionais obviamente diferem, mas quem é pela paz não podia ter tido uma atitude diferente ou indiferente perante um atentado como o do "Charlie Hebdo", e esta sexta-feira surgiu mais um ponto comum: a condenação da censura de fotografias retratando os "bonecos" satíricos, como aconteceu no New York Daily News.

"Que editor escolheu censurar fotografias? Foi no Irão, onde dezenas de jornalistas definham na prisão, onde a dezenas de jornalistas pesos são negados cuidados médicos, onde o acesso aos media estrangeiros está frequentemente bloqueado, onde os jornais estão sempre em risco de serem fechados pelo governo? Ou foi em Nova Iorque, onde os jornalistas desfrutam de leis que os protegem e vivem num país de raros censores e ou de detenções de membros da imprensa?", pergunta o americano "The National Interest", para responder que não foi no Irão, onde um editor perante as mesmas fotografias as publicou tal qual por julgá-las indispensáveis para a compreensão do acontecimento.

O jornal libanês "Al-Nahar" é um dos que também noticia a censura no jornal norte-americano e acrescenta o que disse o porta-voz da Associated Press, Paul Caulford - "não publicar fotografias deliberadamente provocadoras, esta é a nossa política há anos" - para justificar nem sequer publicar as capas do "Charlie Hebdo", opção, aliás, seguida por muitos órgãos de informação norte-americanos (a CNN, por exemplo, optou por pixelizar os cartoons). Em 2011, jornais ingleses fizeram o mesmo, ou seja, pixelizaram os cartoons quando noticiaram que a redação do jornal francês fora destruída por um cocktail molotov. Caminhos, cada um escolhe o seu.