Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Blogger e autor de livros contra a religião assassinado no Bangladesh

  • 333

Elementos da polícia forense tentam recolher provas que levem à identificação dos assaltantes que mataram à catanada o bloguista Avijit Roy e feriram a mulher, também atacada

MUNIR UZ ZAMAN/AFP/Getty Images

Avijit Roy era há muito alvo de ameaças de morte, que se multiplicaram depois de publicar o livro "O Vírus da Religião".

Luís M. Faria

Um proeminente blogger e autor do Bangladesh que criticava publicamente a religião foi morto na passada quinta-feira. Avijit Roy, de 42 anos, deixava a feira do livro Amar Ekushey, junto à universidade de Dakha, onde tinha ido apresentar um livro. Regressava a casa com a sua mulher quando dois homens os agrediram por trás com catanas. Segundo uma testemunha, o assalto terá durado dois minutos. Avijit foi levado ao hospital, onde os médicos não o puderam salvar. A mulher, Rafida Bonya, perdeu um dedo e ficou gravemente ferida. As tensões com grupos islâmicos têm estado ao rubro no país, sobretudo desde que algumas figuras envolvidas na guerra da independência em 1971 foram condenadas à morte por massacres de populações cometidos nessa altura. O Bangladesh, que até aí fazia parte do Paquistão, nunca sarou completamente das violências em massa então ocorridas. A exigência de que os piores culpados fossem executados deu mesmo origem a um movimento popular em 2013, no qual vários blogguer participaram muito visivelmente. Pelo menos um deles foi assassinado em consequência disso. No caso de Roy, foi a defesa do ateísmo, no seu blogue Mukto Mona (Mente Livre) e em livros como "O Vírus da Religião", publicado o ano passado, que despertou a ira dos islamitas. Engenheiro de formação, filho de um importante físico, ele tinha adquirido nacionalidade americana e vivia nos Estados Unidos. Mas um conhecido radical, Farabi Rahman, tinha-o ameaçado várias vezes na internet, chegando a dizer que o matariam da próxima vez que regressasse ao Bangladesh.
"Estamos unidos na nossa e não nos deixaremos derrotar", assim se lê na mensagem de abertura do blogue Mukto-mona, que era mantido pelo ateu Avijit Roy

"Estamos unidos na nossa e não nos deixaremos derrotar", assim se lê na mensagem de abertura do blogue Mukto-mona, que era mantido pelo ateu Avijit Roy

Captura de ecrã

As ameaças de morte chegavam à sua caixa de correio numa base regular, dizia ele. O seu editor online já deixara de vender os seus livros, por medo de retaliação. Vários blogues de secularistas assumidos também tinham sido fechados pelo governo, numa cedência criticada por grupos de Direitos Humanos dentro e fora do país. Havia quem dissesse que tal proibição legitimava os ataques violentos, e um acontecimento como o de ontem pode reforçar essa ideia.   Já em 2004 o escritor Humayun Azad fora alvo de um ataque à catanada quando vinha da feira do livro Amar Ekushey. Conseguiu sobreviver, mas em 2013 o blogger Rajib Haider, inimigo do partido político Jamaat-e-Islami, não teve a mesma sorte. Entretanto, os islamitas entregaram às autoridades uma lista de bloggers ateus, supostamente com mais de oitenta nomes, vários dos quais foram presos.    "Estas prisões são politicamente motivadas, com a desculpa de processar ateus por blasfémia", disse na altura Sonia Eggerickx, presidente da União Humanista e Ética Internacional. "Uma vez mais se demonstra que as leis da 'blasfémia' são sempre danosas para a liberdade de religião e de crença, e na verdade para a expressão de opiniões políticas, em especial se essa opinião fora contra aqueles que se revestem na ira moralista do fundamentalismo".