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Bergdahl acusado de deserção. Mas deu a conhecer os anos em que esteve em cativeiro

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O sargento de 28 anos foi acusado de deserção e má conduta perante o inimigo

FOTO HANDOUT/ REUTERS

O sargento norte-americano Bowe Bergdahl esteve em cativeiro no Afeganistão durante cinco anos. Pela primeira vez, falou sobre o tempo em que foi prisioneiro. Esteve quase sempre acorrentado a uma cama e foi libertado no ano passado. Era considerado um herói. Pelo menos até agora.

O norte-americano Bowe Bergdahl, o sargento que esteve em cativeiro durante cinco anos no Afeganistão, foi acusado esta quarta-feira pelo exército norte-americano de deserção e má conduta perante o inimigo. Uma ação no próximo mês determinará se o soldado será submetido a julgamento no tribunal marcial. Caso seja, poderá ser condenado a prisão perpétua.

Os advogados de defesa do sargento afirmaram que não lhes foi concedido o acesso aos conteúdos da investigação que o exército norte-americano começou a fazer no ano passado sobre o seu desaparecimento. Mas pediram aos norte-americanos para não julgarem o sargento sem serem conhecidos os factos deste caso.  

Bowe Bergdahl foi capturado por talibãs no dia 30 de junho de 2009, na província de Paktika, no leste do Afeganistão. Só deixou para trás as suas armas, munições e o seu colete. Durante três anos não houve qualquer informação sobre o seu paradeiro, até ao dia em que o sargento, com 26 anos na altura, surgiu num vídeo feito pelos talibãs. Bergdahl clamava por ajuda.

Em 2014, o sargento foi libertado através de um acordo feito por Obama, que se baseava em trocar Bowe por cinco membros da al-Qaeda que estavam presos em Guantánamo desde 2004. Um acordo que revoltou vários republicanos, que acusaram Obama de violar as leis norte-americanas por negociar com terroristas.  

Bergdahl, o (possível) desertor 

Alguns companheiros do exército do sargento referiram ao exército norte-americano que Bergdahl planeava fugir da base onde estava no Afeganistão e acrescentaram que muitos "camaradas" morreram por sua causa, na altura. 

Um dos argumentos que o exército norte-americano utilizou para acusar o sargento de desertar foi o de Bergdahl ter saído da base onde estava momentos antes de ter sido capturado, sem razão aparente. Mas Bergdahl preferiu não comentar esse aspeto.

O último e-mail que o sargento enviou aos seus pais antes de ter desaparecido também não o favoreceu. A revista "Rolling Stone" entrevistou os pais de Bergdahl em 2012 e os próprios admitiram que o sargento se sentia desiludido com a causa pela qual lutava: "Vi as ideias [do exército norte-americano] e sinto-me envergonhado por ser americano. O horror de hipocrisia arrogante que eles propagam... é tudo revoltante". Este discurso gerou muita controvérsia sobre a veracidade da captura do sargento pelos talibãs, na altura.

Bergdahl esteve quase sempre vendado

A CNN avançou que, pela primeira vez, o sargento decidiu escrever sobre o que passou enquanto esteve em cativeiro. Foi o seu advogado de defesa, Eugene Fidell, quem divulgou a carta à comunicação social, esta quarta-feira. "Estive em constante isolamento durante os cinco anos e muitas vezes estava em escuridão completa. Diziam-me que me ia embora no dia seguinte e no dia seguinte diziam-me que ia lá ficar por mais 30 anos", declarou Bergdahl na referida carta.

Ao longo do tempo, era várias vezes acorrentado à cama onde dormia e, na maior parte dos dias, tinha os olhos vendados. Os seus pulsos estavam "sempre" feridos e os talibãs batiam-lhe com cabos de cobre. Bergdahl salientou que "mal" conseguia andar por causa da atrofia muscular que se apoderou do seu corpo logo nos primeiros meses em que esteve em cativeiro.

O sargento revelou ainda que tentou fugir 12 vezes. A primeira vez foi apenas horas depois de ter sido capturado em 2009. Mas foi logo encontrado e bateram-lhe "várias" vezes por ter tentado escapar e disseram-lhe que nunca mais iria ver a sua família.  

A acusação que o exército norte-americano fez ao sargento já gerou polémica em todos os cantos do mundo e a imprensa internacional já questiona a atitude de Obama em ter acordado libertar cinco talibãs, considerados como uma "ameaça", em troca do sargento.