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Internacional

Bangladesh. Dois anos após a morte de 1100 trabalhadores, ter sindicato ainda dá castigo

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No cartaz colocado sobre os encombros do edifício que ruiu em Daca e matou 1100 trabalhadores, por ocasião do primeiro aniversário da tragédia, podia ler-se: "Queremos um local de trabalho seguro, não uma armadilha mortal"

MUNIR UZ ZAMAN/AFP/Getty Images

Um relatório da Human Rights Watch mostra que o país evoluiu pouco ou nada nessa área.

Luís M. Faria

Jornalista

Faz hoje dois anos que aconteceu a tragédia no Rana Plaza, um complexo de oito andares em Savar (subdistrito de Daca, no Bangladesh) onde milhares de trabalhadores ao serviço de cinco empresas fabricavam peças de roupa em condições quase sub-humanas. Cerca das 9h30 da manhã, a estrutura ruiu, matando 1100 pessoas e deixando gravemente feridas mais de 2500.

O desastre podia ter sido evitado. Nos dias anteriores, o aparecimento de grandes fendas obrigara à evacuação do edifício. Mas as empresas lá instaladas insistiram em retomar a produção e os trabalhadores, embora receassem o que depois aconteceu, não tiveram remédio senão obedecer às ordens gritadas pelos seus chefes.

O número de mortos e as imagens daquelas ruínas chocaram o mundo. Na altura, o governo do Bangladesh prendeu alguns responsáveis e prometeu melhorar as condições laborais no país, em especial tornando mais fácil o funcionamento de sindicatos. Se a força reivindicativa dos trabalhadores do Rana Plaza fosse maior, talvez pudessem ter resistido à pressão para voltar aos seus postos. Pressão que em muitos casos incluía agressões, verbais e até físicas.

A expectativa era que as coisas melhorassem um pouco. Mas ao fim de dois anos parecem estar tão más como estavam, senão piores. A organização humanitária Human Rights Watch acaba de publicar um relatório intitulado "Quem Levantar a Cabeça Sofre Mais: Direitos Laborais nas Fábricas Téxteis do Bangladesh", cujas 78 páginas descrevem um amplo catálogo de abusos praticados sobre os trabalhadores, e os castigos - entre os quais, espancamentos - que recaem sobre quem tenta organizar sindicatos.

Incomodado, o governo admite que existem casos desse tipo, mas diz serem a exceção. Garante que os inspetores oficiais mantêm vigilância constante e atuam sempre que se justifica. Mas nas redes sociais correm histórias que desmentem essas garantias. Corre também um apelo para que o público se dirija às lojas e às marcas de roupa internacionais e faça a pergunta: quem fez a minha roupa? Afinal, se as marcas pagassem um pouco mais às empresas que subcontratam, talvez estas pudessem pagar um pouco mais aos trabalhadores.

Entretanto, foi noticiado que no fundo criado para indemnizar as vítimas do Rana Plaza - famílias dos mortos e pessoas que perderam o emprego - ainda falta cerca de 30 por cento do valor total projetado, que são 30 milhões de dólares (27,9 milhões de euros). Uma das companhias mais faladas, a Benetton, só há uma semana depositou a quantia (pouco mais de um milhão de dólares, cerca de 930 mil euros) que se comprometeu a entregar.