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As vítimas do ataque à universidade no Quénia têm nomes

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Desde sábado que várias pessoas prestam tributos às vítimas do ataque da passada quinta-feira

FOTO John Muchucha/AFP/Getty Images

John Mwangi podia ter sobrevivido ao ataque à Universidade de Garissa, mas decidiu salvar a sua namorada, que foi feita refém pelos extremistas do Al-Shabaab. Nenhum sobreviveu. Peter Maside era um dos seguranças da universidade. Tentou intercetar os atacantes, mas foi baleado e não resistiu. Trabalhava no estabelecimento de ensino há três semanas. 

Na passada quinta-feira, um ataque levado a cabo pelo grupo extremista Al-Shabaab vitimou 148 pessoas na Universidade de Garissa, no leste do Quénia. Do total de mortos 142 eram estudantes. Numa tentativa de demonstrarem a revolta que sentem pelas vítimas mortais, centenas de estudantes marcharam pelas ruas de Nairobi esta terça-feira para honrar os que não sobreviveram ao ataque. 

Muitos deles levavam consigo rosas brancas e velas acesas. Outros vestiam de preto evocando os 142 colegas que morreram. As centenas de pessoas nas ruas da capital gritavam em nome da necessidade de ter melhor segurança nas escolas e no país.

A indignação perante este ataque foi sentida em todos os cantos do mundo e esteve presente em larga escala nas redes sociais. No Twitter, há publicações que condenam o grupo islâmico. Foi até criada uma hashtag, #147notjustanumber, partilhada na rede social mais de 60 mil vezes desde o passado sábado. Além disso, foi criado ainda um documento, divulgado pela BBC, que tem uma lista das vítimas do massacre da passada quinta-feira. O objetivo do documento é, de acordo com os autores, não deixar que os nomes das vítimas sejam esquecidos.

Por trás deste número de mortes, estão rostos e histórias de vida. Familiares destroçados por terem perdido os filhos, sobrinhos, netos... 

Os estudantes

Durante 16 horas foram assassinados 142 jovens que estudavam na Universidade de Garissa, aberta desde 2013. Entre os estudantes que não sobreviveram, encontrava-se Elizabeth Musinal, de 21 anos e que estudava Linguística. Foi uma das feitas refém pelo grupo islâmico e não conseguiu entrar em contacto com a sua família durante o ataque. Até ao momento em que os militantes lhe disseram para ligar à sua mãe, Nafula, exigindo que o Presidente do Quénia, Uhuru Kenyatta, retirasse as Forças de Defesa do Quénia (KDF) da Somália. Deram apenas dois minutos para Nafula executar a ordem. Mas não conseguiu. Logo a seguir, recebeu outra chamada do telemóvel da sua filha, feita pelos Shabaab: "Como não conseguiste nada em dois minutos, ouve-nos a matar a tua filha". Nafula lembra-se apenas de ouvir três tiros disparados no final da chamada da sua filha.  

John Mwangi Maina estava a estudar para ser gestor, segundo o jornal queniano "Daily Nation". Tinha 20 anos. Foi morto quando decidiu voltar à universidade para salvar a sua namorada, que ficou presa dentro do estabelecimento de ensino. 

Inicialmente, o tio de Mwangi, Samuel Irungu, ficou aliviado quando um estudante que sobreviveu lhe ligou para o informar que o seu sobrinho estava a salvo, escondido nuns arbustos fora da Universidade. Mas estranhou que Mwangi não lhe tivesse ligado desde a altura do ataque e, no dia seguinte, decidiu certificar-se. Foi uma jovem que conhecia o estudante de 20 anos que deu a trágica notícia a Samuel. Nem Mwangi nem a sua namorada sobreviveram.

Mildred Yondo estava no seu primeiro ano de Licenciatura. A sua mãe reportou ao "Daily Nation" que pensava que a jovem tinha escapado do ataque, porque os amigos de Mildred lhe disseram que tinha sido baleada numa perna e levada, logo em seguida, para o hospital. Mas na lista de sobreviventes não constava o nome de Mildred. Foi nessa altura que a mãe da jovem decidiu ir à morgue e teve a pior visão que um parente pode ter: o corpo da sua filha, baleada na cabeça.

Selpha Wanda vivia na mesma vila que Mildred Yondo. Estudavam juntas na Universidade. Selpha foi também uma das vítimas do ataque da passada quinta-feira. O seu pai, Kanuti Barasa, ouviu a notícia do massacre na rádio e tentou, "imediatamente", ligar para Selpha, mas ela não atendia as chamadas. "Soube depois, por uma colega dela, que não tinha sobrevivido", acrescentou ao jornal queniano "Standardmedia".  

Dos 142 estudantes que foram mortos durante o ataque, houve um que retaliou. Laban Kumba foi morto depois de ter tentado lutar com os membros do grupo extremista. Laban estava no sítio errado e à hora errada: não era estudante daquela universidade, foi lá apenas para uma reunião.   

Os seguranças 

Os oficiais locais afirmaram que morreram ainda três militares, tal como três guardas universitários.  

Peter Maside trabalhava era polícia, mas foi chamado para patrulhar a Universidade de Garissa durante o dia. O seu pai, Joshua Nzeya, soube da morte de Maside pela sua nora, que lhe contou que tinha sido morto ao tentar intercetar os atacantes de entrarem no estabelecimento de ensino. Depois de identificar o corpo do seu filho, Joshua contou que Maside foi baleado três vezes. O "Daily Nation" afirmou que o jovem de 29 anos tinha sido destacado para patrulhar a Universidade apenas três semanas antes do ataque. 

Bernard Tonui, de 39 anos, não resistiu aos ferimentos que sofreu durante o ataque. Pertencia à unidade paramilitar do Quénia e era tido como um dos melhores deles. "Perguntem a qualquer pessoa no campo para classificá-lo e vão dizer que ele era o melhor", referiu um colega de Bernard ao jornal "The Star".

Tonui ligara à sua mulher na manhã do ataque, dizendo que ia para uma missão em Garissa. Foi a última vez que entraram em contacto.