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As sete impressões do homem que o Estado Islâmico recebeu e deixou ir

FOTO REUTERS

Um jornalista passou dez dias com o Estado Islâmico, às abertas. Conseguiu autorização para visitar a Mossul ocupada. Sobreviveu e diz que é muito pior do que se julga.

Luís M. Faria

Pode-se falar com o Diabo? Deve ser a pergunta que, sob esta ou outra forma, muitas pessoas farão ao ouvir o que um jornalista alemão de 74 anos acaba de nos comunicar. Jurgen Todenhofer foi a Mossul, no norte do Iraque e passou dez dias na companhia do Estado Islâmico, com fins (assumidos) de reportagem. Não o prenderam, não o torturaram, não o decapitaram. Nem sequer pediram resgate, e ele garante que não lhes entregou qualquer quantia - apesar de ser um homem rico. No fim, deixaram-no ir embora e contar ao mundo o que tinha visto. Sabendo que ele os considera extremamente perigosos e reprova os seus crimes. 

A experiência não foi fácil. Todenhofer negociou a sua ida, com a colaboração de um jihadista alemão, via Skype e ao longo de meses. Mesmo assim, reconhece que não existiam certezas absolutas sobre o que valia a garantia de segurança dada pelo "califado" do Estado Islâmico. A seu favor, ele tinha apenas a sua longa carreira como defensor das vítimas das guerras ocidentais nos países árabes. Há anos, gastou uma pequena fortuna a publicar como anúncio no "New York Times" aquilo a que chamou as suas Dez Teses. Entre elas, que historicamente o Ocidente é muito mais violento do que o Islão e que as cinco mil vítimas até hoje feitas pela Al-Qaeda (à qual ele chama um gang assassino) são muito menos do que as dezenas de milhões de vítimas do colonialismo europeu em todo o mundo.

A ideia foi expandida e concretizada em livros como "Quem chora por Adbul e Tanya? As falsidades na guerra ao terror", "Andy e Marwa: duas crianças e a guerra" e "Porque matas, Zaid?", sobre a resistência no Iraque. Opositor das guerras no Afeganistão e no Iraque, foi ganhando crédito como alguém que tinha sempre o cuidado de escutar todas as partes e de as escutar onde realmente interessa - no local onde sofrem. Em suma, era visto como uma pessoa justa, criatura rara. Admite que isso em Mossul não lhe deu proteção absoluta. Nem a ele nem ao seu filho, que o acompanhou na viagem e também dormiu no hotel onde um dia esteve James Foley (um fotógrafo decapitado pelo Estado Islâmico), bem como nas carcaças de prédios bombardeados, com o chão coberto de estilhaços de vidro, onde os combatentes instalam os seus acampamentos. 

A impressão mais inquietante

Num relato inicial colocado segunda-feira no Facebook, Todenhofer comunica-nos sete "impressões". A primeira é que "O OCIDENTE SUBESTIMA DRAMATICAMENTE A AMEAÇA DO ESTADO ISLÂMICO". O entusiasmo dos militantes é "infecioso" e não faltam recrutas. As baixas não os assustam e ter de mudar de terreno para escapar aos ataques e bombardeamentos também é considerado "normal em combates de guerrilha". Muitos dos recrutas, ao contrário do que se pensa, não eram gente falhada nos seus países de origem. Entre os jovens europeus, por exemplo, havia um que tinha acabado de se qualificar como advogado, mas preferiu ir combater.

A seguir, Todenhofer fala de instituições. "TANTO QUANTO POSSO AFIRMAR COM BASE EM DEZ DIAS DE OBSERVAÇÃO, O ESTADO ISLÂMICO PARECE FUNCIONAR TÃO BEM COMO QUALQUER OUTRO ESTADO TOTALITÁRIO NA REGIÃO", escreve. Refere especificamente as vertentes da segurança interna e da assistência social, que parecem estar a funcionar, "embora muitas coisas difiram das nossas - ou particularmente minhas - ideias sobre como tais instituições devem ser geridas".

A "impressão" mais inquietante será a quarta: "O ESTADO ISLÂMICO NÃO ASPIRA APENAS A CONQUISTAR O MÉDIO ORIENTE E, POR FIM, O RESTO DO MUNDO. NA VERDADE, ELES PRETENDEM A MAIOR 'LIMPEZA RELIGIOSA' DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE". O Estado Islâmico condena como infiéis todos os que não subscrevem a sua versão sunita radical do Islão. Na lista dos alvos a chacinar estão os chiitas, seguidos pelos aderentes de todas as restantes religiões, incluindo hindus, Yazidis e, claro, também os ateus e politeístas. Apenas aos membros das outras duas 'religiões do Livro' - judeus e cristãos - será permitido continuar a existir, desde que paguem um tributo islâmico anual equivalente a algumas centenas de dólares. (Aos muçulmanos também é exigido um tributo, presume-se que inferior, calculado conforme os seus meios).

Para um não-crente tal como o Estado Islâmico o define - uma definição bastante ampla, que exclui uns 99% dos muçulmanos no mundo, estima Todenhofer - "a única chance de escapar à morte é o arrependimento voluntário e conversão voluntária ao 'Islão verdadeiro' (...) Ele ou ela devem fazê-lo antes que o seu país seja conquistado". Quem não tem mesmo salvação são os muçulmanos que acreditam na democracia, pois isso significa que "põem as leis humanas acima das leis de Deus". Terão forçosamente de ser mortos.   

"A escravidão é uma grande ajuda para nós"

Todenhofer tem um arsenal de experiência de vida bastante invulgar. Filho de um juiz, formou-se em Direito e tornou-se ele próprio juiz. Em 1972, foi eleito para o Bundestag (parlamento alemão) pelo CDU, o partido cristão-democrata. Sucessivamente reeleito, manteve-se deputado até 1990, tendo tido responsabilidades em áreas como a política de desenvolvimento e o controle de armamentos. Mais tarde seria vice-presidente da Hubert Burda Media, um grande grupo editorial. Consolidadas ao longo do tempo, as suas posições pacifistas assumiram expressão máxima após o 11 de Setembro, quando acusou a administração Bush de mentir e de tentar conseguir por meio da guerra aquilo que só a diplomacia podia resolver.

Na sua viagem agora terminada, os horrores foram múltiplos. Entre eles, o soldado de treze anos perfeitamente disposto a sacrificar a sua vida. Ou o alemão que lhe prometeu conquistar a Europa um dia: "Para nós, não existem fronteiras. Apenas linhas de frente". Quando Todenhofer perguntou se as decapitações e a escravidão eram um sinal de progresso, ele respondeu: "A escravidão assinala absolutamente progresso. Só as pessoas ignorantes acreditam que não existe escravidão entre os cristãos e os judeus. Claro que há mulheres forçadas à prostituição nas piores circunstâncias" E reiterou: "A escravidão é uma grande ajuda para nós. Vamos continuar a ter escravidão e decapitações. Faz parte da nossa religião. Muitos escravos converteram-se ao Islão e foram então libertados".

O último quilómetro foi a correr

A maneira de derrotar o Estado Islâmico, diz Todenhofer, não é com bombas e mísseis (cinco mil combatentes bastaram para conquistar e controlar uma cidade de três milhões de habitantes. Espalhados por Mossul, para os erradicar à bomba, seria preciso arrasar a cidade). "OS ÁRABES SUNITAS MODERADOS SÃO OS ÚNICOS QUE PODEM PARAR O ESTADO ISLÂMICO. NÃO O OCIDENTE." Todenhofer lembra que isso já aconteceu em 2007, e só não se manteve porque o esforço foi descontinuado. Os sunitas têm de ser "autorizados a reintegrarem-se completamente na sociedade iraquiana", invertendo o processo de exclusão que a invasão de 2003 lançou.

Quanto aos combatentes estrangeiros que regressam aos seus países, não serão uma ameaça tão grande como se julga. "Dado que falharam na sua vida no Estado Islâmico, poderão não apresentar um risco maior", diz o jornalista alemão, embora reconheça os riscos. "A Alemanha, tal como o resto do mundo, não deve nem trivializar, nem exagerar a ameaça terrorista." Nenhum alemão foi morto por um islamita na Alemanha, mas muitos muçulmanos têm sido mortos por extremistas de direita, lembra ele. "Acredito firmemente que atualmente o Estado Islâmico é a maior ameaça à paz mundial desde a Guerra Fria", afirma. "Estamos a pagar o preço pelo ato de loucura quase sem paralelo de George W. Bush: a invasão do Iraque. Até agora, o Ocidente continua sem a menor ideia de como essa ameaça deve ser enfrentada."

Pela sua parte, no fim dos seus dias com o Estado Islâmico, fez o último quilómetro em direção à fronteira turca a correr com a bagagem às costas - não tivessem os jiadistas mudado de ideias em relação a ele e ao seu filho, que dariam reféns ideais. Assim que passou a fronteira e reentrou na Turquia, "percebi que tinha andado com toneladas aos meus ombros", conta. "Liguei para a minha família. E neste momento eu percebi que não foi muito fácil aquilo que fiz."