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A resistência, como a ausência, pode ter formas estranhas

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Olivia Harris/Reuters

Aconteceu há precisamente um ano: um avião com 239 pessoas a bordo desapareceu. É um dos maiores mistérios da aviação moderna.

Há um ano escreveu-se neste jornal que a história do voo MH370 não tinha meio nem fim. Apenas um início, e era algo como isto: um avião com 239 pessoas a bordo deixou Kuala Lumpur, na Malásia, com destino a Pequim às 00h41 de 8 de março de 2014. Vinte e seis minutos depois, o ACAR (sistema de comunicação que transmite dados sobre a aeronave) foi desligado manualmente e uma voz no cockpit comunicou para terra. "Tudo bem. Boa noite." Passam outros quinze minutos até o sistema que transmite a localização e altitude deixar de emitir. Os radares militares conseguem captar o Boeing 777 às 02h15 e um satélite apanhou-o às 08h11. O silêncio que se seguiu dura até hoje.

É impossível saber ao certo quantas vezes se repetiu a pergunta "como foi possível?" nos últimos doze meses. Mas restam muito poucas dúvidas de que o desaparecimento do voo MH370 da Malasya Airlines é um dos maiores mistérios da aviação moderna. Um dia antes da descolagem, a NASA tinha anunciado a descoberta de 3525 estrelas num raio de 500 anos-luz do sol. Duas semanas antes, a "Curiosity" enviara para a terra novas imagens de Marte. Esta semana, um curto-circuito avariou um dos braços articulados da sonda americana. Hoje cumpre-se um ano desde que o Boeing 777 partiu da Malásia para desaparecer, literalmente, da face da terra. Nem um parafuso da aeronave foi encontrado.

"Apesar de ter passado tanto tempo, é improvável que, no dia do primeiro aniversário, venhamos a saber algo mais sobre os últimos momentos do voo - ou sobre o paradeiro dos nossos entes queridos - do que sabíamos há um ano", refere um comunicado da Voice370, organização que representa os familiares de passageiros e tripulantes da Malasya Airlines. O primeiro-ministro australiano, Tony Abbot, disse-lhes o mesmo, mas por outras palavras, numa cerimónia no parlamento. "O meu compromisso é que estamos a dar todos os passos razoáveis para acabar com a vossa incerteza", disse. "Mas não posso prometer que as operações de buscam prossigam a este ritmo para sempre".

O mar sempre foi maior do que a vontade dos homens e no caso do voo da Malasya Airlines parece ainda maior. Desde o acidente, as equipas de buscas (lideradas pela Austrália, e envolvendo meios da Malásia e da China) já varreram mais de 26 mil quilómetros quadrados no fundo do Índico - o que equivale a cerca de 40% da área total estimada para as operações. A enorme mancha classificada como local provável onde pode estar o avião encontra-se no sul do Índico, na direção da cidade de Perth. Ou seja, num local diametralmente oposto ao destino esperado há um ano, Pequim. "É como procurar um grão de poeira", afirmou ao Expresso Scott Hamilton, da consultora de aviação comercial Leeham. "A terra ainda tem muitas zonas negras".

Andrew Winning/Reuters

Esta semana, o governo australiano deu um pequeno passo para "iluminar" os recantos mais escuros do planeta , ao anunciar que todos os aviões de sobrevoem largas zonas de oceano vão passar a ser seguidos de 15 em 15 minutos (neste momento esse acompanhamento é feito em intervalos de 30 ou 40 minutos). Para já trata-se de apenas um teste a decorrer em Brisbane, recomendado pela Organização Internacional de Aviação Civil, mas se for bem sucedido poderá rapidamente ser posto em prática noutras cidades australianas e também na Indonésia e na Malásia. "Não se trata apenas de mudar as coisas. Isto vai tornar muito mais eficaz o acompanhamento das aeronaves nestas zonas oceânicas e, se algo correr mal, vamos ter uma ideia muito melhor de onde começar as operações de busca e salvamento", referiu ao Sydney Morning Herald o responsável máximo da aviação australiana, Angus Houston.

Por melhor que venha a ser o futuro, o mistério do passado permanece por esclarecer. "Apesar da total ausência de destroços ou qualquer prova física de que ocorreu uma catástrofe, o governo da Malásia declarou oficialmente que o avião se despenhou, sem sobreviventes, e que terminou a fase de salvamento da operação de busca. Não aceitamos esta conclusão e não vamos perder a esperança", garantiram os familiares das pessoas que iam a bordo. O luto que não o é dura há um ano. Há seis meses, entrevistado pelo Expresso, José Eduardo Rebelo, da Sociedade Portuguesa de Estudo e Intervenção no Luto, falava de "vidas em suspenso". "As famílias sabem que a pessoa já não está, mas não há luto. Não abdicam da ligação afetiva. Há um lado consciente, racional que percebe a situação. Mas há uma outra dimensão que vive em sobressalto."

Ainda que não tenha precedentes, o desaparecimento do MH370 assemelha-se um pouco ao sucedido, em 2009, com o voo 447 da Air France, que desapareceu no Atlântico com 228 pessoas a bordo. É certo que os primeiros destroços apareceram cinco dias depois, mas as caixas negras só foram recuperadas ao fim de dois anos. Em setembro, Nelson Maria Filho, que fundou e dirige uma associação de familiares dos passageiros mortos, reconhecia que tivera de "batalhar muito". "Teve de haver muita pressão para que os destroços e os corpos fossem retirados do fundo do mar, embora ainda haja muitos desaparecidos", contou ao Expresso. O seu filho estava a bordo do avião da Air France. "As famílias têm de se organizar, têm de ter união", avisou Nelson Filho, cuja associação continua a lutar nos tribunais brasileiros e franceses.

Olivia Harris/Reuters

Os familiares dos passageiros e tripulantes do MH370 - apesar de alguns sinais contrários, como possibilidade do fim das buscas e os esforços de renovação empresarial da Malaysia Airlines, garantem que não vão desistir. A batalha em curso está relacionada com o pagamento de indemnizações. "Nem a companhia aérea nem a seguradora propuseram qualquer acordo, além do adiantamento de 50 mil dólares por família. Disseram-nos que temos de provar a nossa perda de acordo com a lei de cada país para que a Malasya Airlines pague", refere o comunicado da Voice370, que lembra uma situação totalmente diferente: "No caso do avião da TransAsia que caiu [voo entre a China e Taiwan, que provocou a morte a 44 pessoas, em julho] a companhia ofereceu 500 mil dólares a cada família."

Há seis meses escreveu-se neste jornal que a ausência não é sempre um vazio. Pode ser um anel demasiado largo para os dedos que o seguram, uma casa que encolheu ou uma pergunta sem resposta. Contaram-se as histórias dos que ainda não têm respostas: a da mulher que segura o anel do marido, a da mãe que não aguenta ficar na casa onde vivia a filha e das crianças que perguntam pelo pai. São os que esperam notícias. Os que resistem como podem. Há seis meses escreveu-se neste jornal que a resistência, como a ausência, pode ter formas estranhas. Hoje pode escrever-se o mesmo.